Wednesday, May 11, 2016



Papillon soleil

Ton regard a des ailes papillon; papillon soleil
Papillon printemps tu portes le chant des couleurs
Ta présence est mon jardin de brises et d’espoirs
Et ton souffle celui qui fait battre mon cœur; cœur soleil
Car nourrit de son papillon il s’envole orné de lumière, lumière papillon
Pour renaitre plus beau, pour renaitre fleur, fleur bonheur, saison de son papillon soleil

Wednesday, October 01, 2014

      [A Lua-Mulher Corta o Círculo, óleo por Jackson Pollock (1912-1956.]

Se oiço o chilreou do melro a acordar as manhãs do inverno
Eu sei que é amor a clamar por mais um dia de esperança
É a sua doçura a sulcar a porosidade do amigo vento

Se vejo uma mãe a sorrir para o seu recém-nascido
Eu sei que é o sol a inundar um rosto que desconhece as trevas
É a magia de quem consegue dar e receber ao mesmo tempo

Se vejo um casal de idosos caminhar de mãos dadas
Eu sei que é passado, presente e futuro que se uniram
É a lei daqueles que caminham pelas frestas do tempo

Se medito em toda a matéria de que é feita o amor
Eu sei que nunca o entenderei porque o amor é, não se pensa
É como um feixe de sol que nos penetra por completo, sem explicação



Tuesday, August 12, 2014

       [Juan Brull-Viñolas - Devaneio:1898] 

De que matéria é feita o coração? Reluzente como uma estrela ele brilha do confim da noite. O que o anima são desejos e sonhos e mágoas, sim, mágoas, pois também elas brilham para o seu infortúnio. Mas lágrimas são vida e quem não chora não sabe o que é entregar o seu sopro a outro ser. Quem nunca chorou um amor desfeito ou um amor não correspondido não sabe o que é seguir um caminho sem mapa ou bússola e a qualquer instante sentir a angústia de quem se perdeu. E quem nunca se perdeu? Deve haver alguma beleza nessa sensação de perda.
Percorre o coração uma certeza infalível quando um sentimento forte o desperta, mesmo que o caos reine à sua volta. E é essa certeza cega que o alimenta e o obriga (in)voluntariamente às maiores crenças, mesmo que não pertence nem nunca venha a pertencer a nenhuma religião. É dessa matéria estranha que o coração se alimenta, não sem deixar muitas vezes a razão em estado de sítio.
Como é bom poder olhar sem direção certa, sem arrimos temporais e sem receio de nunca mais voltar. Quando o coração parte, e enceta a sua viagem, ele sabe que não haverá regresso. Nem mesmo quando pensa que o porto que o viu partir é seguro. Tudo muda, até mesmo um coração… 


Sunday, August 10, 2014

 [Pintura de Bob Patterson]

A consciência do mundo

Quanto mundo cabe no olhar da baleia? É o universo a espreitar
Da imensidão da forma. É luz a derramar do infnito
Uma partilha pressentida pela alma do pescador
Pois só ele sente o sonido das profundezas
Só ele entende essa linguagem, mais antiga que a própria vida
E eu, mero espectador, observo, a melodia da criação
Uma cítara a perpetuar as origens e a relembrar
Que a consciência do mundo é um ser vivo com desejos de união     


Monday, July 07, 2014

    [Étoile filante - auteur: Maiiko: 2010]

   Telle une étoile filante embrasant le ciel
   Le temps d’un clin d’œil
   Mon cœur s’est transformé en comète
   Afin de te rejoindre
   Au loin, tellement loin et si proche
   De nos racines d’étoiles, là ou se forgent
   Les baisers du ciel, seul cadeau
   De ceux qui y croient, aux histoires d’étoiles
   Et du cœur, constellation de tous les espoirs. 

Tuesday, January 07, 2014



Para uma época da perfeição da alma 

O meu nome é Feliznino e acabo de perder a minha casa. Depois de várias ameaças do banco, a lei foi executada; eu fui executado, em praça pública. A minha estória é a estória de tantos outros, mas é na minha pele que o destino cravou as suas unhas. A realidade é nua e crua e quando nos bate é de frente. Nada vale adiar o inevitável ou nutrir falsas esperanças quando nada se faz para o evitar.
A vergonha de um homem mede-se pela altura da sua cabeça. E a minha cabeça está inclinada para o chão. De olhar baço e sem brilho os meus olhos devolvem-me o reflexo daquilo que não consigo ver. Os meus olhos anoiteceram. Haverá cura? Do que é que é preciso? De um lar e de um emprego? Isso devolver-me-á a minha visão? Eu não sei ou já não sei. A noite deixou de ter qualquer estrela que me oriente e eu tanto gostava de olhar para o breu da noite e de observar a arquitectura celeste. Havia algo de maravilhoso nesse pontilhado distante que, apesar da distância infinita, me aproximava da magia e me devolvia os meus olhos de menino. Hoje, criança velha, ainda olho para o céu, mas já não me encanto. Distanciei-me do brilho da noite e são lembranças que correm no meu olhar, turvas, como o meu estar.
Tenho os sonhos entristecidos. De quem a culpa? De todos e de ninguém. A vida, como o homem a edificou, é um baralho de cartas e quem não sabe jogar é engolido pelo jogo; insaciável, viciado e viciante. Mas eu sei que não posso culpabilizar o jogo. Afinal, sabia e continuo a saber as suas regras. A ilusão de que tudo é possível faz parte de um acordo tácito.
Sofia bem dizia: Feliznino, onde está a tua cabeça? Se a mantens demasiado tempo nas estrelas não poderás viver os encantos da terra. Semente a semente, dia a dia, a terra devolve em colheita. À tua medida, Feliznino, à tua medida…
Surdo de coração os meus pés e as minhas pernas quiseram voar mal sabendo andar. Meti-me em gastos desnecessários. Mais parecia-me melhor. Agora, mais é menos ou nada ou quase. Depois de tanto tempo tive de regressar a casa do meu avô Antonino.
Estranhamo-nos. A minha ausência de dentro afastou-me deste senhor que me criou com o suor da sua vontade. Ensinou-me que um homem se mede pela sua palavra e que a honra não se compra, adquire-se; até morrer. São as suas raízes que o mantêm firme e é a sua copa que o eleva ao céu.
Onde estava eu? por me ter afastado do meu querido avô. Terá a minha ganância toldado o meu juízo? Onde me leva esta minha perda?
Felizmente para mim, o meu avô tem raízes fundas, tão fundas que me tocam, mesmo longe do tempo. A verdade é que quanto mais fundas mais frondosa é a sua estrutura. E descobri que sonhar bem é ter as suas raízes bem assentes na terra. E foi o meu avô, que andou descalço toda a sua infância, que me ensinou como andar.  
Feliznino, enquanto não arranjares novo emprego vais-me ajudar a trabalhar a terra. Este chão está habituado a mãos velhas. As tuas vão-lhe saber a água fresca. Do teu empenho e entusiasmo brotará vida nova. Hoje, vamos começar por cava-la. Depois, vamos deixa-la repousar, pois a terra também precisa de descanso. A seguir, iremos abrir regos. Amanhã, quando a terra estiver pronta, podermos começar a semear. E vais ver, meu querido neto, a vida tem sempre a sua maneira de (re)nascer.

Sunday, September 29, 2013



[Imagem de Flávio Coutinho]

Primeiro, cai-se. Depois, levanta-se. E depois cai-se novamente até aprender que cada queda traz um  novo impulso, uma nova energia. Depois de aprender a andar, finalmente, correr torna-se tão natural como respirar.