[Juan Brull-Viñolas - Devaneio:1898]
De que matéria é feita o coração? Reluzente como uma estrela
ele brilha do confim da noite. O que o anima são desejos e sonhos e mágoas,
sim, mágoas, pois também elas brilham para o seu infortúnio. Mas lágrimas são
vida e quem não chora não sabe o que é entregar o seu sopro a outro ser. Quem nunca
chorou um amor desfeito ou um amor não correspondido não sabe o que é seguir um
caminho sem mapa ou bússola e a qualquer instante sentir a angústia de quem se
perdeu. E quem nunca se perdeu? Deve haver alguma beleza nessa sensação de perda.
Percorre o coração uma certeza infalível quando um sentimento forte o
desperta, mesmo que o caos reine à sua volta. E é essa certeza cega que o
alimenta e o obriga (in)voluntariamente às maiores crenças, mesmo que não
pertence nem nunca venha a pertencer a nenhuma religião. É dessa matéria
estranha que o coração se alimenta, não sem deixar muitas vezes a razão em estado
de sítio.
Como é bom poder olhar sem direção certa, sem arrimos
temporais e sem receio de nunca mais voltar. Quando o coração parte, e enceta a
sua viagem, ele sabe que não haverá regresso. Nem mesmo quando pensa que o
porto que o viu partir é seguro. Tudo muda, até mesmo um coração…