Quem não vê o sagrado na textura de uma folha,
no chilrear de um pássaro vivo e alegre,
não sabe o que é Sagrado, não pode compreender!
O sagrado manifesta-se nas formas, mas é Essência,
é uma dinâmica muito subtil que se move,
que flui e reflui pelo crepitar do sangue cálido
tão vermelho no seu rosto, tão reluzente na sua vida.
Para sentir a energia dos laivos da existência perene
é preciso não ser, não ver, e eclodir a visão interior
como uma flor dos bosques em busca do calor
ou uma andorinha melodiosa a namorar o sol.
Nem tudo se compreende, nem tudo se avista
e somente a nobreza da alma consegue ser espelho
das revelações interiores, exteriores no reino vegetal,
união de opostos que se completam nas suas formas
como um tálamo, um misterioso anel de prata dourada.
Em literatura tropismos são movimentos indefiníveis que deslizam rapidamente aos limites da nossa consciência. Estão na origem dos nossos gestos, palavras e sentimentos manifestados, que acreditamos sentir e ser possível de definir. Os tropismos são a fonte secreta da nossa consciência.
Friday, October 28, 2005
Compreender o sagrado
Tuesday, October 11, 2005
Reflexão para fora, vista de dentro
Recostado na poltrona do meu espírito, penso nos dias que passam, mas que não sinto passar. Ontem tinha vinte anos, hoje, somo outros tantos, e continuo sem saber se vivi ou se sobrevivi ao estado elanguescente da vida mundana.
Não sei se o tempo é igual para todos, ou se o meu, por ser meu, me parece diferente daquele que nos envolve. Talvez possa conjecturar dois tipos de tempo: um, colectivo, outro, individual. Quando me revejo na idade onde o limite era o infinito, penso nesse tempo que me perpassava, mais colectivo do que individual, daí eu hoje sentir o peso das rugas que o meu coração carrega. Tudo era possível. Tudo estava ao alcance de um pestanejar de olhos. Algo de maior dava-me a força de sonhar e, por isso, de me sentir parte da grande engrenagem que nos move. Mas hoje, tudo mudou! O vigor dos meus sonhos retraiu-se à esfera do meu carpir, que reclama um tempo mais justo e menos doloroso. Eu não sou velho, mas a idade do tempo individual é a responsabilidade de meditar sobre o edifício que construí. Olho ao meu redor e não sei, não sei se construí. Não sei se estagnei com o receio que me inibiu de altear um castelo que parecia flutuar nas nuvens. Nada sei, mas disse-me o tempo, ao longo da minha caminhada que construir e plantar era dever de qualquer ser. Assim como a abelha que recolhe o pólen das flores e o traduz em mel ou a aranha que fia a sua teia para capturar mosquitos e outros parasitas incómodos, todos temos de obrar para um tempo maior, um tempo interior. Talvez o interior seja o mais difícil de alcançar, mas por isso mais belo e mais preparado para enfrentar as dificuldades intempestivas do destino. Nada sei, a não ser talvez que construir é o único acto imbuído de vida ou vontade de permanecer vivo nas veias do tempo.