Friday, October 28, 2005

Tratado da Amizade

Existe, no mais profundo de cada um de nós, um poço repleto de água, uma água que, por vezes, os feixes do sol não acariciam, porque a vontade do nosso ser o não permite. As razões que o outorgam a tal comportamento nunca são razões claras ou explícitas. Florescem sentimentos em nós, à semelhança dos poetas que transportam em si a mágoa do mundo ou de mães que nos seus ventres filhos acalentam. Quem de nós, durante a sua caminhada, nunca transportou um filho da tristeza? Quem de nós nunca abafou a sua voz por já não conseguir falar?
Felizmente, as experiências que o homem vai vivendo são experiências comuns: a perda de um ente querido, um amor desfeito, uma traição incompreensível, um sonho adiado… E digo felizmente, não por me abonar a causas que causam mágoa ou dor. Não, digo felizmente porque somos todos humanos. Que desgraça seria a nossa se nunca errássemos, que inglória seria a nossa nunca podermos sorrir de um feito alcançado com mérito, fruto de custo e dedicação. A evolução de todos os seres é pautada pela capacidade em lidar com a dificuldade e pela sua vontade em crer crescer e acariciar o rosto do sol.
Bem sabemos que o mundo está repleto de pessoas que sofrem de soledade. Mas também sabemos que nesse mesmo mundo existem companheiros de viagem, que nos acalentam o ânimo, que sabem olhar para além das aparências e dizer: Tu és uma pessoa bonita e o sorriso fica-te tão bem! Deixa-me ajudar-te, deixa-me juntar a ti mais um par de mãos e ser o guindaste que precisas.
Aceitar a ajuda de quem nos quer bem nem sempre é fácil. Nem sempre é fácil dizer quão só nos encontramos, e que, por mais bem que nos queiram, não há ajuda que nos liberte do nosso fardo. E quantas vezes não choramos compulsivamente dentro de nós?, náufragos de um barco que não escolhemos, reféns de uma ilha que não sabíamos sequer existir. Uns dirão que a vida não é fácil. Outros, que somos nós que dificultamos a vida, que a vida é bela se a soubermos sorver. A verdade de tudo isto é que ninguém escolhe voluntariamente a sua tristeza. E, por isso, se erguem os amigos, aqueles familiares escolhidos por nós, para nos relembrar que foram criadas tochas num mundo abalado pela escuridão.
Um dia, também eu fui abalado pela treva. Um dia, o meu lar desabou sobre mim e as paredes, então belas e sólidas, se transformaram em ruínas, as minhas ruínas… Sobrevivi. Sou um sobrevivente, como tantos que vejo passear pelas ruas. As minhas chagas cicatrizaram, o meu coração voltou a pulsar e a minha dor amainou.
Hoje, recordo esse tempo com um sorriso nos lábios porque foi precisamente nessa altura que a luz me envolveu, a luz dos meus amigos, a luz de quem sempre me quis bem. E o que ainda hoje me surpreende é o estado de cegueira no qual me encontrava. Não sabia que tinha tantas pessoas a querem o meu bem, sem nada pedirem em troca, a não ser a minha amizade.
O tempo passa, o rio segue o seu curso, assim as vivências que através de nós flúem. Rostos novos erguem-se nas nossas vidas para nos mostrar um jardim feito de diversidade, de cores e de feições diferentes. Novas amizades e amores rebentam das suas sementes para se enrodilharem à volta do nosso coração.
Dou graças a Deus por ter os amigos que tenho e dou graças ao Céu pelos que ainda me faltam descobrir. Do pouco que até agora aprendi, fica uma certeza: nunca se está completamente só, nem os obstáculos são tão espinhosos como inicialmente imaginamos. E com amigos, tudo é suportável, tudo é superável, até mesmo as doenças da alma.

Compreender o sagrado

Quem não vê o sagrado na textura de uma folha,
no chilrear de um pássaro vivo e alegre,
não sabe o que é Sagrado, não pode compreender!
O sagrado manifesta-se nas formas, mas é Essência,
é uma dinâmica muito subtil que se move,
que flui e reflui pelo crepitar do sangue cálido
tão vermelho no seu rosto, tão reluzente na sua vida.
Para sentir a energia dos laivos da existência perene
é preciso não ser, não ver, e eclodir a visão interior
como uma flor dos bosques em busca do calor
ou uma andorinha melodiosa a namorar o sol.
Nem tudo se compreende, nem tudo se avista
e somente a nobreza da alma consegue ser espelho
das revelações interiores, exteriores no reino vegetal,
união de opostos que se completam nas suas formas
como um tálamo, um misterioso anel de prata dourada.

Tuesday, October 11, 2005

Ser

Porquanto a medida do que somos está na medida do que sonhamos

Reflexão para fora, vista de dentro

Recostado na poltrona do meu espírito, penso nos dias que passam, mas que não sinto passar. Ontem tinha vinte anos, hoje, somo outros tantos, e continuo sem saber se vivi ou se sobrevivi ao estado elanguescente da vida mundana.
Não sei se o tempo é igual para todos, ou se o meu, por ser meu, me parece diferente daquele que nos envolve. Talvez possa conjecturar dois tipos de tempo: um, colectivo, outro, individual. Quando me revejo na idade onde o limite era o infinito, penso nesse tempo que me perpassava, mais colectivo do que individual, daí eu hoje sentir o peso das rugas que o meu coração carrega. Tudo era possível. Tudo estava ao alcance de um pestanejar de olhos. Algo de maior dava-me a força de sonhar e, por isso, de me sentir parte da grande engrenagem que nos move. Mas hoje, tudo mudou! O vigor dos meus sonhos retraiu-se à esfera do meu carpir, que reclama um tempo mais justo e menos doloroso. Eu não sou velho, mas a idade do tempo individual é a responsabilidade de meditar sobre o edifício que construí. Olho ao meu redor e não sei, não sei se construí. Não sei se estagnei com o receio que me inibiu de altear um castelo que parecia flutuar nas nuvens. Nada sei, mas disse-me o tempo, ao longo da minha caminhada que construir e plantar era dever de qualquer ser. Assim como a abelha que recolhe o pólen das flores e o traduz em mel ou a aranha que fia a sua teia para capturar mosquitos e outros parasitas incómodos, todos temos de obrar para um tempo maior, um tempo interior. Talvez o interior seja o mais difícil de alcançar, mas por isso mais belo e mais preparado para enfrentar as dificuldades intempestivas do destino. Nada sei, a não ser talvez que construir é o único acto imbuído de vida ou vontade de permanecer vivo nas veias do tempo.