É muito provável que a minha infância tenha sido irremediavelmente marcada por essas personagens, saídas dos melhores livros de ficção literária. E sinto-me feliz por ter participado na grande aventura e, sobretudo, por tê-lo conhecido e ter tido com ele uma relação de amizade. O ensinamento que melhor recordo é o de nada dizer. Era esse silêncio, por vezes constrangedor, que cultivava.
“Não interrompas as palavras do Silêncio. Ele está a recordar a infância da Palavra, e se lhe prestares atenção, ele retribuir-te-á o círio da revelação” dizia ele na sua voz suave, voz de neve a derreter sob o arfar luminoso do sol. Ficava perplexo. Os meus doze anos de idade tinham um efeito paradoxal. Por um lado, percebia perfeitamente o que queria dizer, principalmente depois de termos ido ao mar ouvir as ondas rebentarem e as gaivotas emitirem aqueles sons estridentes, próprios da sua linguagem. Por outro lado, achava tudo isso estranho de mais para mim, como se tivesse aterrado ao lado de um ser vindo de outro planeta. Talvez até fosse de outro planeta e eu o que se encontrava na terra errada. Todavia, a aura que dimanava, não me deixava indiferente e sentia-me atraído pelo seu misterioso saber.
Nunca mais ouvi alguém falar da montanha, dos prados, dos bichos, dos insectos e das plantas como ele. Parecia que ele e a natureza formavam um só e mesmo ser. Sentava-se à beira das árvores e inalava vagarosamente o aroma da natureza, até embriagar-se da sua substância. Ora transformava-se numa raiz, ora num ramo, ora num tronco ou pétala, sentindo-se sempre parte de um todo, maior do que tudo o que se pode imaginar. Atrevo-me a compará-lo a um poema. Sim, um poema, porque o poema é a mais bela e mais perfeita forma de expressão, um organismo harmonioso a revelar as suas epifanias.
A sua alma remia os segredos mais belos que uma mente pode arquitectar. Tenho saudades desse tempo de enlevo. Tenho saudades do meu amigo poeta que sabia mais do que os meus professores e que compreendia o rodopiar do mundo, feito de luz e de sombras, e por isso tão belo e tão redentor.
Hoje esforço-me por preservar a sua memória e tornar-me como ele num pastor do mundo, e ouvir a água escorrer as suas mágoas e o vento ciciar as ladainhas do futuro. Hoje sinto-me um ramo de árvore a mistura-se com a quintessência que nos envolve. Hoje, finalmente, libertei-me das opressões que me dominavam.