Thursday, June 08, 2006

Hora grave

Qual dia esvaziando-se das suas cores, a solidão irrompe como uma lua púrpura, avassalando cada nesga de luminosidade ainda cintilante, cada recanto do ser à procura de ar respirável e regenerador. É um ambiente fétido e corrosivo que ergue os seus ramos frondosos nos vidros embaciados do olhar. As lágrimas soturnas acompanham a cadência do pulsar da vida, uma vida esmagada, uma vida sem matizes alegres, sem vontade de bradar o grito da liberdade.

Hoje não me apetece escovar os dentes. Hoje nem me apetece tomar o duche que tantas vezes me limpa dos meus pensamentos sombrios. Hoje, de nada me vale sair de casa e ter o mínimo de cuidado com a minha higiene física, pois a minha sanidade emocional está torcida e tudo me parece turvo, como águas sujas e sem transparência.

De onde me virá essa dor que pareço alimentar? Será do emprego? Será dos meus amigos? Amigos? Colegas de trabalho… Eu não tenho amigos, tenho colegas, que se alegram com o meu trabalho. Como não haveriam de se alegrar quando tantas vezes os desenrasco nas tarefas burocráticas, que a empresa continua a alimentar como se alimenta um ogre. Papeis para aqui, papeis para acolá. Requisitar a autorização para isto, para aquilo. É nisto que o tempo se evapora, nas tarefas enfadonhas da rotina quotidiana. Mas será que o meu mal-estar me vem mesmo dos cinismo e egoísmo que cinco dias por semana vivo? Se olhar bem fundo para dentro de mim sinto que resposta não será tão simples…

Não sou o único a sentir-me abandonado. Basta ligar o televisor e olhar para o horror que diariamente nos avassala. São bombas a explodir, pessoas a morrer injustamente por causa de causas que eu nunca compreenderei, crianças a morrer de fome porque o investimento militar continua a ser mais importante do que a saciedade do estômago. Afinal, não sou o único a sentir-me só… O mundo só pode estar muito só. Há pessoas que, desesperadamente, gritam para serem ouvidas, mas ninguém as quer ouvir, elas não são rentáveis, elas não serão ouvidas… Mas eu, o meu mal-estar, a minha sensação exacerbada de solidão, será que me vem de todos estes motivos? Eu nem conheço as pessoas que vejo na televisão, eu nem sinto na pele o choro convulsivo de quem tudo perde na vida, até a própria vontade de se manter vivo. Então? De onde me vem esta escuridão interior? Eu? Uma criança mal tratada? Já fui, isso já passou… Só durou enquanto a minha mãe se manteve casada com aquele tipo a quem devia de tratar por pai; que estranha palavra no meu dicionário mental, tão feia, tão cruel… Não, isso são águas passadas, as costas exangue, a cara entumecida das chapadas que a minha raiva amparava, isso é tudo passado. Só durou até aos meus 12 anos. Agora tenho 30, já lá vai um tempo.

Deve de haver outra explicação para o meu estado emocional. Deve de haver algo que os meus sonhos me ocultam. Aquele barco que tão recorrentemente me aparece, no meio da tempestade, com a sua vela completamente desfeita, mas que se aguenta com coragem, deve de querer dizer mais do que aquilo que parece. Já não posso confiar nos meus sonhos. Eles não me ajudam. Dilaceram-me ainda mais, quando o que eu preciso é de uma mão amiga que me tire desse barco e me resgate para uma praia solarenga.

Pensar incomoda-me. Em vezes de encontrar soluções, sofro com ainda mais amargura o meu estado soturno. Tenho de acabar com isso, tenho de pôr fim ao meu sofrimento, tudo tem um fim…

Há aquele site que tive a ver no outro dia. Há aquelas pessoas que, como eu, querem uma solução final, a derradeira solução a todos os males do mundo. Sim, eis a solução, eis o caminho que me libertará… Mas tem de ser rápido e limpo, não me apetece sujar por fora o que por dentro já é uma imundice. Tenho de manter a minha dor concentrada. Tenho de manter por fora um ar limpo e feliz, porque vou ser feliz, porque vou deixar de chorar sobre a minha condição de ser humano. Vai ser hoje. Tem de ser hoje. Já não aguento mais. Mas tenho de tomar um banho, tenho de fazer a barba e lavar os dentes. Vamos lá a isso. Agora tenho um bom motivo para sair do meu marasmo. Mãos à obra!

A campainha está a tocar. Quem será? Quem pode a esta hora da manhã querer falar comigo? Será a vizinha? Que me quer ela? Vou abrir a porta…

- Bom dia, o senhor é o Marco Rosa Fernandes?

- Sim, é o próprio.

- Então assine aqui por favor, isto é para si.

- Obrigado sr. Carteiro.

- De nada, e passe um bom dia!

Uma caixa endereçada ao meu cuidado. Mas de quem? Uma Marta Santos… Marta Santos, não, não pode ser da Marta, a Marta, a Marta da escola primária, a Marta que mudou de cidade com os seus pais quando éramos tão amigo. A Marta, a minha amiga de infância, a que sempre me ouvira e me consolava nos meus momentos de dor.

Rasguei a caixa num ápice, o meu coração pulsava a mil à hora, todo o meu ser estava concentrado naquela pequena caixa de cartão.

Um livro e uma carta. Eis o conteúdo. Os miseráveis, de Victor Hugo. Acho que já ouvi falar. Mas por que será que me manda um livro? Abro a carta ainda mais depressa que a caixa.

«Meu querido amigo Marco,

Deves ter recebido esta encomenda com grande surpresa. Foi com alguma dificuldade que consegui obter a tua morada. Depois de tantos anos passados, voltei ao Porto, e não podia deixar passar a oportunidade de restabelecer a nossa amizade. Confesso que, apesar da nossa terna idade, nunca me esqueci de ti. Como prometido, ficaste sempre no meu coração. Nunca te consegui esquecer. Agora que arranjei trabalho numa farmácia da baixa, e que vivo de forma independente, achei que era o momento oportuno para voltarmos a falar. Deves ter mudado muito. Eu mudei, agora uso o cabelo mais curto e com madeixas. Tornei-me numa mulher, que ainda anda à procura do seu príncipe encantado. Espero que tu estejas bem e que a tua vida seja feliz.

Não tenho muito jeito para cartas. Não sei muito bem o que te dizer e acredita que tenho tanto para te contar. Gostaria de te ver. Espero que tenhas disponibilidade. O meu número de telemóvel é o seguinte: 93 260 45 04.

Liga-me assim que puderes, estou ansiosa por te rever.

O livro que te mandei li-o há uns meses. É impressionante Marco, lê-o, vais ver, vale a pena!

Despeço-me de ti com um grande beijo cheio de saudade, esperando voltar a ver-te depressa.

- P.s Aqui vai um poema que achei que devias ler, dum poeta alemão, Rainer Maria Rilke. Boas leituras! Até breve!»

Hora grave

Quem agora chora algures no mundo,

sem razão chora no mundo,

chora por mim.

Quem agora ri algures na noite,

quem, sem razão, ri na noite,

ri-se de mim.

Quem agora vagueia pelo mundo,

sem razão vagueia pelo mundo,

vem para mim.

Quem agora morre algures no mundo,

sem razão morre no mundo,

olha pra mim.

Os meus olhos não queriam acreditar no que acontecera. As lágrimas que os revestiam tinham um sabor a sal, o sal do mar majestoso que parece não ter fronteiras. O sal que condimenta a comida e que lhe dá outro sabor. Os meus olhos choraram de alegria e um arco-íris de corres garridas iluminou o meu rosto. A Marta lembrou-se de mim. Alguém que eu amei e que a vida me retirara voltou a irromper em mim como um feixe de sol.

Cheio de vida e de esperança agarrei no telemóvel e compus -9-3-2-6-0…

A paisagem das horas varia os seus ponteiros consoante o olhar que as observa. Há sempre uma hora que não se revela, há sempre um minuto que não ouvimos, há sempre um segundo para mudar o trajecto de uma vida…

Partilha

Quero hastear com o sopro um diadema de orvalho
e pousa-lo na copa de uma flor, à beira de um rio
e ouvir o secreto marulho das fadas da água
que se deliciam com a luz dos sonhos esquecidos.
Sim, quero falar com o ar, a terra e o fogo
e invocar a secreta linguagem da cidade invisível
porque sou uno no vasto universo, disperso
no seu todo, a recolher o pólen de além-terra
para partilhar com descrentes a verve pura do sol azul

O amigo d'infância (Uma homenagem)

Nessa altura, nunca percebera muito bem o que ele queria dizer com: um dia deixarei os cueiros da realidade para abraçar a Verdade. Ele era uma pessoa, no mínimo, estranha. Tudo o que fazia era sempre feito de maneira diferente, como se fosse incapaz de ser uma pessoa normal. Os óculos de armação escura e redonda davam-lhe um certo ar intelectual, isto apesar de só possuir a escolaridade mínima obrigatória. Sabia ler e escrever, e, claro, sabia do seu valor, e creio que outros, como o Mário, o Fernando, o Álvaro, ou ainda o Zélmada, também o sabiam, melhor do que ninguém. Eles adoravam passar as tardes no café do Martinho, todos juntos, a deambular pelas veigas da metafísica. Lunáticos? Loucos? Eu não lhes chamaria isso. Eram diferentes!
É muito provável que a minha infância tenha sido irremediavelmente marcada por essas personagens, saídas dos melhores livros de ficção literária. E sinto-me feliz por ter participado na grande aventura e, sobretudo, por tê-lo conhecido e ter tido com ele uma relação de amizade. O ensinamento que melhor recordo é o de nada dizer. Era esse silêncio, por vezes constrangedor, que cultivava.
“Não interrompas as palavras do Silêncio. Ele está a recordar a infância da Palavra, e se lhe prestares atenção, ele retribuir-te-á o círio da revelação” dizia ele na sua voz suave, voz de neve a derreter sob o arfar luminoso do sol. Ficava perplexo. Os meus doze anos de idade tinham um efeito paradoxal. Por um lado, percebia perfeitamente o que queria dizer, principalmente depois de termos ido ao mar ouvir as ondas rebentarem e as gaivotas emitirem aqueles sons estridentes, próprios da sua linguagem. Por outro lado, achava tudo isso estranho de mais para mim, como se tivesse aterrado ao lado de um ser vindo de outro planeta. Talvez até fosse de outro planeta e eu o que se encontrava na terra errada. Todavia, a aura que dimanava, não me deixava indiferente e sentia-me atraído pelo seu misterioso saber.
Nunca mais ouvi alguém falar da montanha, dos prados, dos bichos, dos insectos e das plantas como ele. Parecia que ele e a natureza formavam um só e mesmo ser. Sentava-se à beira das árvores e inalava vagarosamente o aroma da natureza, até embriagar-se da sua substância. Ora transformava-se numa raiz, ora num ramo, ora num tronco ou pétala, sentindo-se sempre parte de um todo, maior do que tudo o que se pode imaginar. Atrevo-me a compará-lo a um poema. Sim, um poema, porque o poema é a mais bela e mais perfeita forma de expressão, um organismo harmonioso a revelar as suas epifanias.
A sua alma remia os segredos mais belos que uma mente pode arquitectar. Tenho saudades desse tempo de enlevo. Tenho saudades do meu amigo poeta que sabia mais do que os meus professores e que compreendia o rodopiar do mundo, feito de luz e de sombras, e por isso tão belo e tão redentor.
Hoje esforço-me por preservar a sua memória e tornar-me como ele num pastor do mundo, e ouvir a água escorrer as suas mágoas e o vento ciciar as ladainhas do futuro. Hoje sinto-me um ramo de árvore a mistura-se com a quintessência que nos envolve. Hoje, finalmente, libertei-me das opressões que me dominavam.

Tuesday, November 01, 2005

A igreja circular

Circular é a minha igreja
sem pedras, artefactos ou religião.
É uma folha de salgueiro, uma concha,
um sussurro vindo do rio ou
a presença de uma flor que se pode amar.
Circular é a minha Religião
que se estende pelos feixes da luz
que rodopia na sua crença partilhada
e no ocaso de todos os amanhãs
renasce brotada numa filigrana de poesia azul.

Friday, October 28, 2005

A dor estava estampada no seu rosto. Queria dissimula-la, mas, quando a água ultrapassa os diques que a sustêm, é difícil permanecer com um ar sereno, ou camuflar as costuras incicatrizáveis que o coração ostenta.
A sua vida mudara, a sua dor trouxera-lhe virtudes e amarguras, muitas amarguras… Aprendera a lidar com o silêncio de si próprio. E é tão difícil escutar-se! Não que o silêncio seja algo de pernicioso, não, simplesmente são poucos os que entendem a linguagem misteriosa. Tornou-se poeta! Eu sei, que ideia errada de pensar que todos os poetas são seres tristes e melancólicos, mas a verdade é que ele se tornou mesmo num poeta. E dizem os entendidos que ninguém fala como ele da alma e dos seus desígnios. Diz o ditado popular que “Deus tira de um lado para dar do outro”. Todavia, algumas perguntas persistem: quantos poetas teriam trocado a sua infelicidade por uma vida normal, um casamento, uns filhos e uma esposa (esposo), para amarem e serem amados? Mas se tal tivesse acontecido, será que, muito graças a eles, conheceríamos o interior do nosso ser como o conhecemos hoje? E a dor, não será a dor uma força motora tão grande e tão importante como o próprio amor? As dúvidas mantém-se, bem como os remédios da alma, ainda por inventar…

Tratado da Amizade

Existe, no mais profundo de cada um de nós, um poço repleto de água, uma água que, por vezes, os feixes do sol não acariciam, porque a vontade do nosso ser o não permite. As razões que o outorgam a tal comportamento nunca são razões claras ou explícitas. Florescem sentimentos em nós, à semelhança dos poetas que transportam em si a mágoa do mundo ou de mães que nos seus ventres filhos acalentam. Quem de nós, durante a sua caminhada, nunca transportou um filho da tristeza? Quem de nós nunca abafou a sua voz por já não conseguir falar?
Felizmente, as experiências que o homem vai vivendo são experiências comuns: a perda de um ente querido, um amor desfeito, uma traição incompreensível, um sonho adiado… E digo felizmente, não por me abonar a causas que causam mágoa ou dor. Não, digo felizmente porque somos todos humanos. Que desgraça seria a nossa se nunca errássemos, que inglória seria a nossa nunca podermos sorrir de um feito alcançado com mérito, fruto de custo e dedicação. A evolução de todos os seres é pautada pela capacidade em lidar com a dificuldade e pela sua vontade em crer crescer e acariciar o rosto do sol.
Bem sabemos que o mundo está repleto de pessoas que sofrem de soledade. Mas também sabemos que nesse mesmo mundo existem companheiros de viagem, que nos acalentam o ânimo, que sabem olhar para além das aparências e dizer: Tu és uma pessoa bonita e o sorriso fica-te tão bem! Deixa-me ajudar-te, deixa-me juntar a ti mais um par de mãos e ser o guindaste que precisas.
Aceitar a ajuda de quem nos quer bem nem sempre é fácil. Nem sempre é fácil dizer quão só nos encontramos, e que, por mais bem que nos queiram, não há ajuda que nos liberte do nosso fardo. E quantas vezes não choramos compulsivamente dentro de nós?, náufragos de um barco que não escolhemos, reféns de uma ilha que não sabíamos sequer existir. Uns dirão que a vida não é fácil. Outros, que somos nós que dificultamos a vida, que a vida é bela se a soubermos sorver. A verdade de tudo isto é que ninguém escolhe voluntariamente a sua tristeza. E, por isso, se erguem os amigos, aqueles familiares escolhidos por nós, para nos relembrar que foram criadas tochas num mundo abalado pela escuridão.
Um dia, também eu fui abalado pela treva. Um dia, o meu lar desabou sobre mim e as paredes, então belas e sólidas, se transformaram em ruínas, as minhas ruínas… Sobrevivi. Sou um sobrevivente, como tantos que vejo passear pelas ruas. As minhas chagas cicatrizaram, o meu coração voltou a pulsar e a minha dor amainou.
Hoje, recordo esse tempo com um sorriso nos lábios porque foi precisamente nessa altura que a luz me envolveu, a luz dos meus amigos, a luz de quem sempre me quis bem. E o que ainda hoje me surpreende é o estado de cegueira no qual me encontrava. Não sabia que tinha tantas pessoas a querem o meu bem, sem nada pedirem em troca, a não ser a minha amizade.
O tempo passa, o rio segue o seu curso, assim as vivências que através de nós flúem. Rostos novos erguem-se nas nossas vidas para nos mostrar um jardim feito de diversidade, de cores e de feições diferentes. Novas amizades e amores rebentam das suas sementes para se enrodilharem à volta do nosso coração.
Dou graças a Deus por ter os amigos que tenho e dou graças ao Céu pelos que ainda me faltam descobrir. Do pouco que até agora aprendi, fica uma certeza: nunca se está completamente só, nem os obstáculos são tão espinhosos como inicialmente imaginamos. E com amigos, tudo é suportável, tudo é superável, até mesmo as doenças da alma.

Compreender o sagrado

Quem não vê o sagrado na textura de uma folha,
no chilrear de um pássaro vivo e alegre,
não sabe o que é Sagrado, não pode compreender!
O sagrado manifesta-se nas formas, mas é Essência,
é uma dinâmica muito subtil que se move,
que flui e reflui pelo crepitar do sangue cálido
tão vermelho no seu rosto, tão reluzente na sua vida.
Para sentir a energia dos laivos da existência perene
é preciso não ser, não ver, e eclodir a visão interior
como uma flor dos bosques em busca do calor
ou uma andorinha melodiosa a namorar o sol.
Nem tudo se compreende, nem tudo se avista
e somente a nobreza da alma consegue ser espelho
das revelações interiores, exteriores no reino vegetal,
união de opostos que se completam nas suas formas
como um tálamo, um misterioso anel de prata dourada.

Tuesday, October 11, 2005

Ser

Porquanto a medida do que somos está na medida do que sonhamos

Reflexão para fora, vista de dentro

Recostado na poltrona do meu espírito, penso nos dias que passam, mas que não sinto passar. Ontem tinha vinte anos, hoje, somo outros tantos, e continuo sem saber se vivi ou se sobrevivi ao estado elanguescente da vida mundana.
Não sei se o tempo é igual para todos, ou se o meu, por ser meu, me parece diferente daquele que nos envolve. Talvez possa conjecturar dois tipos de tempo: um, colectivo, outro, individual. Quando me revejo na idade onde o limite era o infinito, penso nesse tempo que me perpassava, mais colectivo do que individual, daí eu hoje sentir o peso das rugas que o meu coração carrega. Tudo era possível. Tudo estava ao alcance de um pestanejar de olhos. Algo de maior dava-me a força de sonhar e, por isso, de me sentir parte da grande engrenagem que nos move. Mas hoje, tudo mudou! O vigor dos meus sonhos retraiu-se à esfera do meu carpir, que reclama um tempo mais justo e menos doloroso. Eu não sou velho, mas a idade do tempo individual é a responsabilidade de meditar sobre o edifício que construí. Olho ao meu redor e não sei, não sei se construí. Não sei se estagnei com o receio que me inibiu de altear um castelo que parecia flutuar nas nuvens. Nada sei, mas disse-me o tempo, ao longo da minha caminhada que construir e plantar era dever de qualquer ser. Assim como a abelha que recolhe o pólen das flores e o traduz em mel ou a aranha que fia a sua teia para capturar mosquitos e outros parasitas incómodos, todos temos de obrar para um tempo maior, um tempo interior. Talvez o interior seja o mais difícil de alcançar, mas por isso mais belo e mais preparado para enfrentar as dificuldades intempestivas do destino. Nada sei, a não ser talvez que construir é o único acto imbuído de vida ou vontade de permanecer vivo nas veias do tempo.