Certo dia, uma criança que adorava brincar com as flores do seu jardim olhou fixamente para um belo girassol. Era grande e tinha umas pétalas fulvas, torradas de tanto espreitar o sol. Era diferente de todas as outras flores, não só por causa da sua dimensão, uma corola mais ampla, com umas pétalas a lembrar labaredas a adornar o seu centro, e um caule alto e rijo a erguer a majestade da sua postura, solar por natureza.
A criança aproximou-se do girassol para inalar a sua fragrância e com a sua mão direita ceifou-lhe o caule. Pegou com cuidado nesse pequeno tesouro que queria guardar só para si e sentou-se num tronco de madeira perto do jardim. Ergueu o girassol e girou-o lentamente na claridade do dia. Os seus olhos contemplavam a beleza desse pequeno ser vegetal que, misteriosamente, a fascinava.
- Também tu gostas do meu girassol? perguntou-lhe a Voz…
- Sim… Tem algo que não consigo explicar… Porque será que gosto tanto desta flor? retorquiu-lhe a criança com um ar muito cândido, mas ao mesmo tempo intrigado.
- Talvez por seres precisamente como essa flor… O girassol é uma das minhas criações mais devotas, a sua sinceridade é genuína e a sua entrega total.
- Sinceridade? Entrega total? O que queres dizer com isso? Estamos a falar de uma flor, não de uma pessoa! Posso ainda ser uma criança e não saber muita coisa, mas isso eu sei!
- O teu coração apaixonou-se por esta flor como uma mãe se apaixona pelo seu recém-nascido. Não houve grande diferença na intensidade do sentimento que acalentaste. Todos os seres contêm a virtude do meu amor. Todos os seres amam. Não penses que amar é um dom exclusivo do ser humano. A minha beleza é múltipla e está espalhada em toda a minha criação. Assim como tu, que também fazes parte da minha beleza.
- Mas… Como pode esta flor servir-te? Como pode ela se entregar a Ti? indagava a criança num tom perplexo, desconcertada pelo que acabara de ouvir…
- O girassol é uma das poucas flores que incansavelmente me buscam. Onde eu estou, ela por mim procura. O seu olhar essencial acompanha-me onde quer que eu esteja, mesmo nos dias em que não me deixo ver por ninguém. E são vários os dias em que me torno invisível, mas sempre presente, sempre ao lado de quem me requisita. O que o olhar deixa de ver a alma o absorve, como este girassol, que empala dentro de si o meu amor. E isso comove-me, essa entrega, essa devoção!
A criança pensava em como podia ser possível comover-se com um ser inanimado. Não que não gostasse de flores, antes pelo contrário, mas ao ponto de se comover…?
- Comoves-te?! Com a tua própria criação?! afirmava a criança em jeito de pergunta.
- Sim, comovo-me sempre quando vejo a direcção que um dos meus filhos escolheu. Tens de entender algo de importante. Eu crio, mas quem decide do percurso que quer seguir não sou eu. Eu dou a liberdade de escolher para onde e como querem crescer. Não interfiro nas evoluções individuais. Deixo as minhas criações descobrirem-se e descobrirem-me. Estou sempre presente, observo-as constantemente, mesmo quando me acham ausente. E o girassol é um belo exemplo de um ser que me compreende. Um ser que se alimenta da minha luz. Por isso, serve de exemplo a quem o quer seguir. Talvez seja essa a razão do teu fascínio por esta minha flor…
- Queres dizer que sou como o girassol? Que te procura incansavelmente? Que eu olho para ti mesmo nos dias em que não te vejo ou não me respondes?
- Sim… A luz que te anima, a pureza que o teu coração por mim nutre, é a tua vontade de seguir a vereda da luz, aquela que te levará até ao meu lar. E as tuas acções são o testemunho da luz que te habita. Contemplas o que te rodeia com candura e serves com compaixão quem a ti recorre. E seres criança em nada diminui a tua tarefa. O beijo de reconforto que deste à tua mãe, no dia que ela estava triste, foi a expressão do meu afecto, que através de ti se realizou. Deixaste-me falar através de ti, nesse dia, como noutros.
O carinho que nutres aos que te rodeiam permite-te seres como o girassol. Fiquei muito feliz quando te tornaste amiga daquela criança cigana que os teus colegas na escola maltratavam. Ofereceste-lhe o teu lanche, apesar da fome que o teu estômago sentia, porque sabias que ela ainda não tinha comido nada durante todo o dia. Puseste em prática, sem o saberes, alguns dos meus ensinamentos mais importantes…
- Quais?! queria saber a criança, surpreendida por, sem o saber, conhecer alguns dos seus ensinamentos.
- Independentemente da opinião colectiva dos teus colegas na escola, não hesitaste em ir em auxílio a quem precisava, e não é preciso muito para ajudar alguém. Às vezes, basta um sorriso, um gesto, ou uma palavra amiga. Não hesitaste em abraçar quem era diferente de ti, porque percebeste que o meu amor não escolhe raças ou crenças. Eu sou o Criador e amo toda a minha criação, sem excepções, da mesma forma. Puseste em prática um dos meus ensinamentos mais importantes! Ajudar o outro é ajudar-se a si próprio. E ajudar-se a si próprio é aproximar-se de Mim.
Este jardim que tantas vezes vens contemplar não é só composto de girassóis. Está repleto de outras flores e plantas que também me servem, ao servirem-te a ti e aos teus. O meu reino é maior do que tudo o podes imaginar, mas neste simples jardim está em exposição uma pequena parte do meu reino e a forma como funciona. Se souberes olhar, entenderás. Quando entenderás serás verdadeiramente livre!
A criança percebera que por detrás das formas existe uma dimensão oculta e vasta. E que uma simples flor pode representar todo um jardim. E, sobretudo, que tudo no seu jardim foi criado com um propósito. Nada foi deixado ao acaso. E uma simples flor pode significar imenso, desde que se entenda o seu contributo e o lugar que tem no mundo.
- E tudo isto por causa de um girassol…?!
Num tom carinhoso, mas paternal ao mesmo tempo, a Voz exprimira a sua última observação:
- Minha querida filha, o girassol oculta muito mais do que aparenta. Todos vós ocultais sentimentos e esperanças que ainda desconhecem. Mas se procurarem, ser-vos-á revelado o meu Ser, e como o girassol, ser-vos-á possível participar no grande desígnio que é a Vida, a verdadeira vida, a do céu e da terra.
Apesar da conversa não ter ficado completamente clara para a criança, ela sabia que algo acabara de ser semeado dentro dela e aguardava que esse algo, um dia, florescesse, e, à semelhança do girassol, se virasse para a Fonte de onde toda a luz dimana…