(um conto feito a partir do Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago)
Nunca ninguém conseguiu explicar o fenómeno que acontecera. Uma cegueira geral, contagiosa ao olhar e, ainda por cima, branca como o leite. De facto, o mundo andou muito estranho durante aquelas semanas de cegueira. Os melhores especialistas nada descobriram, mas os devotos de Deus, e de outras religiões, esses, não se calaram. Tudo fora um castigo terrível para punir o ser humano, e uma segunda oportunidade tinha-lhes sido concedida. Mas, infelizmente, uma cegueira nunca vem só…
*
A ordem na cidade não ocorreu de um dia para o outro, como devem d’ imaginar. A imundice era tanta que nem as cidades da idade média tinham tal aspecto. O ar tinha um cheiro fétido, misturado com uma fragrância recente, a alegria da população sobrevivente.
Os primeiros dias foram de festa, as pessoas pulavam e dançavam a torto e a direito. Nunca tal coisa tinha acontecido na história da humanidade. Já houve muitas calamidades, como tufões, terramotos, bombas nucleares, mas nunca uma cegueira geral, muito menos branca. Morreram muitas pessoas durante aquelas semanas. O número era incalculável. Corpos em estado de decomposição jaziam nas avenidas e estradas das cidades. O mesmo acontecia nos centros comerciais, onde a fome e o vandalismo tinham dilapidado os bens das grandes superfícies. Lentamente as pessoas voltavam para os seus postos de trabalho, pelo menos os que tinham sobrevivido ou cujo local de trabalho ainda existisse.
O mundo parecia ter saído de uma idade das trevas. A electricidade voltou a funcionar, os computadores e os automóveis também voltaram a entrar ao serviço do homem. Mas algo estava diferente. Algo tinha mudado e as pessoas não o notavam…
*
Convém, talvez, informar o leitor que um caos nunca vem só e que a ordem encontra sempre uma forma de se organizar, apesar de tudo parecer estranhamente confuso e desordenado.
Num dos bairros da cidade, onde a cegueira branca pela primeira vez irrompera, um grupo de sobreviventes recompunha-se da desgraça sofrida. Um bombeiro, uma enfermeira, um professor de literatura, uma empregada de mesa e duas crianças, uma menina de 12 e um rapaz de 9 anos, separados das suas famílias, obravam em conjunto para se reorganizarem, como o haviam feito aquando da epidemia.
Poderem ver-se uns aos outros era como se descobrissem um mundo totalmente novo, passar da noite escura para a luz clara do dia. Ver a fisionomia das vozes que ouviam, mas que só a imaginação conseguia arquitectar era, de facto, algo de inédito e de estimulante.
A voz meiga e suave da enfermeira não correspondia propriamente ao que o bombeiro imaginara dela. Sempre imaginara uma mulher bonita e pequena, uma morena simpática, permanentemente ao dispor dos seus pacientes, como fora o caso durante aquelas semanas angustiantes. Infelizmente para ele, a realidade trouxera-lhe outra perspectiva, não que a enfermeira deixasse de corresponder interiormente à doce filigrana da sua voz, mas, digamos que não correspondia ao perfil idealizado. Era rechonchuda, tinha o cabelo preto e liso, e um belo par de olhos castanhos. Porque será que uns quilinhos a mais ofuscam a visibilidade de quem pretende conhecer a verdadeira beleza de uma pessoa? Vá-se lá saber! O homem precisa do seu sentido mais apurado para tirar as suas ilações, a saber, os olhos…
O bombeiro tinha presença. Ele fora um elemento chave durante o período de sobrevivência. Era alto e magro, tinha um porte atlético, não como certos bombeiros voluntários barrigudos e desleixados; corajosos, mas, para certas situações, incapazes de cumprir plenamente a sua missão, devido a limitações físicas obvias. Ele vivia o seu ofício intensamente. Era todo ele fogo no seu interior; acção em combustão, um contra-fogo para os fogos da vida real. Os seus olhos tinham a cor do mar e o seu cabelo era cor de palha. Era um homem com temperamento difícil, agitado como as ondas do oceano. Tinha os defeitos que tem, rabugento, teimoso, e por vezes antipático, mas nunca deixava de ajudar quem precisasse, e não era por ser bombeiro. Há pessoas assim, por baixo de uma carapaça de pedra, vive uma pequena chama que acalenta o coração de quem necessita. Mas, vá-se lá perceber a razão dos feitios serem o que são? Talvez sejam a réplica do universo, gazes em constante confronto, que explodem e implodem, e a partir dos quais os planetas e as galáxia se formam e se disformam, na grande impermanência da vida. Ou talvez sejam o resultado de muitas quedas na vida, obrigando constantemente a uma mudança mais defensiva, uma espécie de muralha protectora, transparente para certas pessoas, como é o caso da menina…
A menina do grupo era a pessoa mais calada. Por vezes, o silêncio que se formava à volta dela era tão intenso que parecia ter desaparecido da superfície da terra. Havia uma ligação muito interessante entre ela e o bombeiro. O bombeiro não conseguia evitar uma atitude paternal perante a menina, crescera dentro dele uma ponte invisível, que o ligava a ela de uma forma muito peculiar, algo de seguro e firme ao mesmo tempo. Parecia que se conheciam há imenso tempo, como se as suas relações fossem fruto de um conhecimento mútuo, desenvolvido durante várias vidas passadas. Era estranho, mas ambos nutriam o mesmo sentimento e ninguém o questionava. Ela via através dele, como se vê através de uma janela, isto apesar de ser cega à nascença e de nunca ter visto uma única vez os raios do sol. A escuridão era o mundo dela, e ouvir falar em cegueira branca era confuso para ela. Primeiro, porque o seu vocabulário conhecia as palavras relacionadas com a cor, mas não as entendia. E, depois, porque a verdadeira cegueira não tem cor. Ela conhecia a cegueira do mundo, aquela cegueira que todos se recusavam a ver. De certa forma, durante a epidemia branca, ela sentia-se com peixe na água, mas, ao mesmo tempo, não conseguia evitar um certo desconforto que a situação lhe causara. Perdera os pais como muitas crianças, e a dor ferira-lhe o coração como a lança de Longinus, o centurião que espetara o flanco de Cristo. Mas esse desconforto, essa dor que emergira no mais profundo de si mesma, era algo que estava pr’além da perda dos seus pais. Não sabia explicar. Sentia-se como aquele gigante que transportava o peso do mundo em cima dos seus ombros. Ela sentira que aquela cegueira não tinha sido uma cegueira normal. Sempre soube que acabaria por passar.
A terra tem maneiras muito estranhas de comunicar e de exprimir a sua vontade. O mal-estar não desaparecera com o flagelo que os assolara, mas aninhara-se confortavelmente no seu imo; à espera, à espera de quê?
O professor analisara tudo sobre todos os ângulos analisáveis. Fizera um grande esforço intelectual para perceber o que provavelmente nunca terá explicação. Durante a cegueira, quando a temperatura começava a baixar, e todos pela hipotética noite aguardavam, contava-lhes as muitas estórias de mitologia grega que conhecia, pois desde pequeno sempre nutrira um grande fascínio pelas alegorias dos gregos. Quem de todos o ouvira sempre com redobrada atenção eram as crianças, mais especificamente a menina, que parecia registar tudo na sua cabeça, como um computador. A estória de Édipo fora naturalmente contada, pois é um dos cegos mais conhecidos e estudados no mundo da literatura e da psicanálise.