Qual dia esvaziando-se das suas cores, a solidão irrompe como uma lua púrpura, avassalando cada nesga de luminosidade ainda cintilante, cada recanto do ser à procura de ar respirável e regenerador. É um ambiente fétido e corrosivo que ergue os seus ramos frondosos nos vidros embaciados do olhar. As lágrimas soturnas acompanham a cadência do pulsar da vida, uma vida esmagada, uma vida sem matizes alegres, sem vontade de bradar o grito da liberdade.
Hoje não me apetece escovar os dentes. Hoje nem me apetece tomar o duche que tantas vezes me limpa dos meus pensamentos sombrios. Hoje, de nada me vale sair de casa e ter o mínimo de cuidado com a minha higiene física, pois a minha sanidade emocional está torcida e tudo me parece turvo, como águas sujas e sem transparência.
De onde me virá essa dor que pareço alimentar? Será do emprego? Será dos meus amigos? Amigos? Colegas de trabalho… Eu não tenho amigos, tenho colegas, que se alegram com o meu trabalho. Como não haveriam de se alegrar quando tantas vezes os desenrasco nas tarefas burocráticas, que a empresa continua a alimentar como se alimenta um ogre. Papeis para aqui, papeis para acolá. Requisitar a autorização para isto, para aquilo. É nisto que o tempo se evapora, nas tarefas enfadonhas da rotina quotidiana. Mas será que o meu mal-estar me vem mesmo dos cinismo e egoísmo que cinco dias por semana vivo? Se olhar bem fundo para dentro de mim sinto que resposta não será tão simples…
Não sou o único a sentir-me abandonado. Basta ligar o televisor e olhar para o horror que diariamente nos avassala. São bombas a explodir, pessoas a morrer injustamente por causa de causas que eu nunca compreenderei, crianças a morrer de fome porque o investimento militar continua a ser mais importante do que a saciedade do estômago. Afinal, não sou o único a sentir-me só… O mundo só pode estar muito só. Há pessoas que, desesperadamente, gritam para serem ouvidas, mas ninguém as quer ouvir, elas não são rentáveis, elas não serão ouvidas… Mas eu, o meu mal-estar, a minha sensação exacerbada de solidão, será que me vem de todos estes motivos? Eu nem conheço as pessoas que vejo na televisão, eu nem sinto na pele o choro convulsivo de quem tudo perde na vida, até a própria vontade de se manter vivo. Então? De onde me vem esta escuridão interior? Eu? Uma criança mal tratada? Já fui, isso já passou… Só durou enquanto a minha mãe se manteve casada com aquele tipo a quem devia de tratar por pai; que estranha palavra no meu dicionário mental, tão feia, tão cruel… Não, isso são águas passadas, as costas exangue, a cara entumecida das chapadas que a minha raiva amparava, isso é tudo passado. Só durou até aos meus 12 anos. Agora tenho 30, já lá vai um tempo.
Deve de haver outra explicação para o meu estado emocional. Deve de haver algo que os meus sonhos me ocultam. Aquele barco que tão recorrentemente me aparece, no meio da tempestade, com a sua vela completamente desfeita, mas que se aguenta com coragem, deve de querer dizer mais do que aquilo que parece. Já não posso confiar nos meus sonhos. Eles não me ajudam. Dilaceram-me ainda mais, quando o que eu preciso é de uma mão amiga que me tire desse barco e me resgate para uma praia solarenga.
Pensar incomoda-me. Em vezes de encontrar soluções, sofro com ainda mais amargura o meu estado soturno. Tenho de acabar com isso, tenho de pôr fim ao meu sofrimento, tudo tem um fim…
Há aquele site que tive a ver no outro dia. Há aquelas pessoas que, como eu, querem uma solução final, a derradeira solução a todos os males do mundo. Sim, eis a solução, eis o caminho que me libertará… Mas tem de ser rápido e limpo, não me apetece sujar por fora o que por dentro já é uma imundice. Tenho de manter a minha dor concentrada. Tenho de manter por fora um ar limpo e feliz, porque vou ser feliz, porque vou deixar de chorar sobre a minha condição de ser humano. Vai ser hoje. Tem de ser hoje. Já não aguento mais. Mas tenho de tomar um banho, tenho de fazer a barba e lavar os dentes. Vamos lá a isso. Agora tenho um bom motivo para sair do meu marasmo. Mãos à obra!
A campainha está a tocar. Quem será? Quem pode a esta hora da manhã querer falar comigo? Será a vizinha? Que me quer ela? Vou abrir a porta…
- Bom dia, o senhor é o Marco Rosa Fernandes?
- Sim, é o próprio.
- Então assine aqui por favor, isto é para si.
- Obrigado sr. Carteiro.
- De nada, e passe um bom dia!
Uma caixa endereçada ao meu cuidado. Mas de quem? Uma Marta Santos… Marta Santos, não, não pode ser da Marta, a Marta, a Marta da escola primária, a Marta que mudou de cidade com os seus pais quando éramos tão amigo. A Marta, a minha amiga de infância, a que sempre me ouvira e me consolava nos meus momentos de dor.
Rasguei a caixa num ápice, o meu coração pulsava a mil à hora, todo o meu ser estava concentrado naquela pequena caixa de cartão.
Um livro e uma carta. Eis o conteúdo. Os miseráveis, de Victor Hugo. Acho que já ouvi falar. Mas por que será que me manda um livro? Abro a carta ainda mais depressa que a caixa.
«Meu querido amigo Marco,
Deves ter recebido esta encomenda com grande surpresa. Foi com alguma dificuldade que consegui obter a tua morada. Depois de tantos anos passados, voltei ao Porto, e não podia deixar passar a oportunidade de restabelecer a nossa amizade. Confesso que, apesar da nossa terna idade, nunca me esqueci de ti. Como prometido, ficaste sempre no meu coração. Nunca te consegui esquecer. Agora que arranjei trabalho numa farmácia da baixa, e que vivo de forma independente, achei que era o momento oportuno para voltarmos a falar. Deves ter mudado muito. Eu mudei, agora uso o cabelo mais curto e com madeixas. Tornei-me numa mulher, que ainda anda à procura do seu príncipe encantado. Espero que tu estejas bem e que a tua vida seja feliz.
Não tenho muito jeito para cartas. Não sei muito bem o que te dizer e acredita que tenho tanto para te contar. Gostaria de te ver. Espero que tenhas disponibilidade. O meu número de telemóvel é o seguinte: 93 260 45 04.
Liga-me assim que puderes, estou ansiosa por te rever.
O livro que te mandei li-o há uns meses. É impressionante Marco, lê-o, vais ver, vale a pena!
Despeço-me de ti com um grande beijo cheio de saudade, esperando voltar a ver-te depressa.
- P.s Aqui vai um poema que achei que devias ler, dum poeta alemão, Rainer Maria Rilke. Boas leituras! Até breve!»
Hora grave
Quem agora chora algures no mundo,
sem razão chora no mundo,
chora por mim.
Quem agora ri algures na noite,
quem, sem razão, ri na noite,
ri-se de mim.
Quem agora vagueia pelo mundo,
sem razão vagueia pelo mundo,
vem para mim.
Quem agora morre algures no mundo,
sem razão morre no mundo,
olha pra mim.
Os meus olhos não queriam acreditar no que acontecera. As lágrimas que os revestiam tinham um sabor a sal, o sal do mar majestoso que parece não ter fronteiras. O sal que condimenta a comida e que lhe dá outro sabor. Os meus olhos choraram de alegria e um arco-íris de corres garridas iluminou o meu rosto. A Marta lembrou-se de mim. Alguém que eu amei e que a vida me retirara voltou a irromper em mim como um feixe de sol.
Cheio de vida e de esperança agarrei no telemóvel e compus -9-3-2-6-0…
A paisagem das horas varia os seus ponteiros consoante o olhar que as observa. Há sempre uma hora que não se revela, há sempre um minuto que não ouvimos, há sempre um segundo para mudar o trajecto de uma vida…