A poeira da espera socalca as tuas mãos
urdidas de luas e de poentes que se desvanecem
na amargura lenta e sombria dos dias de Outono.
Por que não ouves o latejar da aurora
calma e serena a oferecer o seu corpo de luz
aos teus dedos de barro? Perdeste a bússola?
Perdeste o norte da caminhada dos iniciados?
Não soçobres as tuas lágrimas na vertigem do abismo
a hora ainda não chegou, Orfeu ainda não se revelou
e a tua tarefa de prata, de liberdade clandestina,
um dia à criação o seu cântico entoará, e nesse dia
a alegria dos sonhos esquecidos da penumbra brotará.
Em literatura tropismos são movimentos indefiníveis que deslizam rapidamente aos limites da nossa consciência. Estão na origem dos nossos gestos, palavras e sentimentos manifestados, que acreditamos sentir e ser possível de definir. Os tropismos são a fonte secreta da nossa consciência.
Saturday, July 08, 2006
A poeira da espera
Monday, July 03, 2006
Sentir

(O enigma sem fim - Salvador Dali)
Sentir é uma medida lunissolar airosa
na fenda do coração cicatrizado
que inspira e expira flores e gumes de cera
numa cadência muito própria, muito pessoal.
Não se pode governar barco sem leme
nem marear oceano sem embarcação.
Mas como, sem batuta, dirigir a sensação?
Talvez sentir seja ser rio, fluindo, algures
sem arrimos, mas ir movendo as pulsões até um destino
sempre certo, sempre seguro de que tudo converge ao seu encontro.
Tuesday, June 20, 2006
Thursday, June 15, 2006
Tuesday, June 13, 2006
FELIZ ANIVERSÁRIO

Poeta-médium
Ouço as vozes que por ti passaram
como brisas argentadas a colorirem a Verdade
nas suas faces múltiplas, nos seus ângulos infinitos.
Caeiro, Soares, Reis ou Campos, qual o poeta
imbuído da limpidez dos anjos, de bocas redondas?
Qual deles, nobre Poeta, te fez sentir mais tu que outro
ou talvez mais outros que tu próprio?
As vibrações ressoaram em ti como música hialina
e os sopros de além-terra te guiaram às portas da origem,
único sítio onde a diversidade se torna una
lá, onde a unidade é a junção dos elos separados
e por ti, em poesia, num grande Poema reconfigurado.
Há luzes que não se finam, nem nunca se perdem
nos limbos da criação extrorsa e tu, poeta-médium,
foste o elo basilar das Vozes que ousaram regressar à terra.
Monday, June 12, 2006
Friday, June 09, 2006
Saber olhar
para perceber que as veias salientes do silêncio
se desdobram na veste sem fim da íris láctea
e que tudo nasce mais fundo e mais além do que se julga
e que a génese são meia dúzia de chamas e de gotas
que se espalharam na fronte do sopro universal,
crescendo como hastes transparentes que se avistam
na noite do sono, luar do pensamento,
e que toda a matriz dos elementos é tão misteriosa
como o sibilar do vento: ignoto no seu palrar.
Thursday, June 08, 2006
UMA CEGUEIRA NUNCA VEM SÓ - Parte I
(um conto feito a partir do Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago)
Nunca ninguém conseguiu explicar o fenómeno que acontecera. Uma cegueira geral, contagiosa ao olhar e, ainda por cima, branca como o leite. De facto, o mundo andou muito estranho durante aquelas semanas de cegueira. Os melhores especialistas nada descobriram, mas os devotos de Deus, e de outras religiões, esses, não se calaram. Tudo fora um castigo terrível para punir o ser humano, e uma segunda oportunidade tinha-lhes sido concedida. Mas, infelizmente, uma cegueira nunca vem só…
*
A ordem na cidade não ocorreu de um dia para o outro, como devem d’ imaginar. A imundice era tanta que nem as cidades da idade média tinham tal aspecto. O ar tinha um cheiro fétido, misturado com uma fragrância recente, a alegria da população sobrevivente.
Os primeiros dias foram de festa, as pessoas pulavam e dançavam a torto e a direito. Nunca tal coisa tinha acontecido na história da humanidade. Já houve muitas calamidades, como tufões, terramotos, bombas nucleares, mas nunca uma cegueira geral, muito menos branca. Morreram muitas pessoas durante aquelas semanas. O número era incalculável. Corpos em estado de decomposição jaziam nas avenidas e estradas das cidades. O mesmo acontecia nos centros comerciais, onde a fome e o vandalismo tinham dilapidado os bens das grandes superfícies. Lentamente as pessoas voltavam para os seus postos de trabalho, pelo menos os que tinham sobrevivido ou cujo local de trabalho ainda existisse.
O mundo parecia ter saído de uma idade das trevas. A electricidade voltou a funcionar, os computadores e os automóveis também voltaram a entrar ao serviço do homem. Mas algo estava diferente. Algo tinha mudado e as pessoas não o notavam…
*
Convém, talvez, informar o leitor que um caos nunca vem só e que a ordem encontra sempre uma forma de se organizar, apesar de tudo parecer estranhamente confuso e desordenado.
Num dos bairros da cidade, onde a cegueira branca pela primeira vez irrompera, um grupo de sobreviventes recompunha-se da desgraça sofrida. Um bombeiro, uma enfermeira, um professor de literatura, uma empregada de mesa e duas crianças, uma menina de 12 e um rapaz de 9 anos, separados das suas famílias, obravam em conjunto para se reorganizarem, como o haviam feito aquando da epidemia.
Poderem ver-se uns aos outros era como se descobrissem um mundo totalmente novo, passar da noite escura para a luz clara do dia. Ver a fisionomia das vozes que ouviam, mas que só a imaginação conseguia arquitectar era, de facto, algo de inédito e de estimulante.
A voz meiga e suave da enfermeira não correspondia propriamente ao que o bombeiro imaginara dela. Sempre imaginara uma mulher bonita e pequena, uma morena simpática, permanentemente ao dispor dos seus pacientes, como fora o caso durante aquelas semanas angustiantes. Infelizmente para ele, a realidade trouxera-lhe outra perspectiva, não que a enfermeira deixasse de corresponder interiormente à doce filigrana da sua voz, mas, digamos que não correspondia ao perfil idealizado. Era rechonchuda, tinha o cabelo preto e liso, e um belo par de olhos castanhos. Porque será que uns quilinhos a mais ofuscam a visibilidade de quem pretende conhecer a verdadeira beleza de uma pessoa? Vá-se lá saber! O homem precisa do seu sentido mais apurado para tirar as suas ilações, a saber, os olhos…
O bombeiro tinha presença. Ele fora um elemento chave durante o período de sobrevivência. Era alto e magro, tinha um porte atlético, não como certos bombeiros voluntários barrigudos e desleixados; corajosos, mas, para certas situações, incapazes de cumprir plenamente a sua missão, devido a limitações físicas obvias. Ele vivia o seu ofício intensamente. Era todo ele fogo no seu interior; acção em combustão, um contra-fogo para os fogos da vida real. Os seus olhos tinham a cor do mar e o seu cabelo era cor de palha. Era um homem com temperamento difícil, agitado como as ondas do oceano. Tinha os defeitos que tem, rabugento, teimoso, e por vezes antipático, mas nunca deixava de ajudar quem precisasse, e não era por ser bombeiro. Há pessoas assim, por baixo de uma carapaça de pedra, vive uma pequena chama que acalenta o coração de quem necessita. Mas, vá-se lá perceber a razão dos feitios serem o que são? Talvez sejam a réplica do universo, gazes em constante confronto, que explodem e implodem, e a partir dos quais os planetas e as galáxia se formam e se disformam, na grande impermanência da vida. Ou talvez sejam o resultado de muitas quedas na vida, obrigando constantemente a uma mudança mais defensiva, uma espécie de muralha protectora, transparente para certas pessoas, como é o caso da menina…
A menina do grupo era a pessoa mais calada. Por vezes, o silêncio que se formava à volta dela era tão intenso que parecia ter desaparecido da superfície da terra. Havia uma ligação muito interessante entre ela e o bombeiro. O bombeiro não conseguia evitar uma atitude paternal perante a menina, crescera dentro dele uma ponte invisível, que o ligava a ela de uma forma muito peculiar, algo de seguro e firme ao mesmo tempo. Parecia que se conheciam há imenso tempo, como se as suas relações fossem fruto de um conhecimento mútuo, desenvolvido durante várias vidas passadas. Era estranho, mas ambos nutriam o mesmo sentimento e ninguém o questionava. Ela via através dele, como se vê através de uma janela, isto apesar de ser cega à nascença e de nunca ter visto uma única vez os raios do sol. A escuridão era o mundo dela, e ouvir falar em cegueira branca era confuso para ela. Primeiro, porque o seu vocabulário conhecia as palavras relacionadas com a cor, mas não as entendia. E, depois, porque a verdadeira cegueira não tem cor. Ela conhecia a cegueira do mundo, aquela cegueira que todos se recusavam a ver. De certa forma, durante a epidemia branca, ela sentia-se com peixe na água, mas, ao mesmo tempo, não conseguia evitar um certo desconforto que a situação lhe causara. Perdera os pais como muitas crianças, e a dor ferira-lhe o coração como a lança de Longinus, o centurião que espetara o flanco de Cristo. Mas esse desconforto, essa dor que emergira no mais profundo de si mesma, era algo que estava pr’além da perda dos seus pais. Não sabia explicar. Sentia-se como aquele gigante que transportava o peso do mundo em cima dos seus ombros. Ela sentira que aquela cegueira não tinha sido uma cegueira normal. Sempre soube que acabaria por passar.
A terra tem maneiras muito estranhas de comunicar e de exprimir a sua vontade. O mal-estar não desaparecera com o flagelo que os assolara, mas aninhara-se confortavelmente no seu imo; à espera, à espera de quê?
O professor analisara tudo sobre todos os ângulos analisáveis. Fizera um grande esforço intelectual para perceber o que provavelmente nunca terá explicação. Durante a cegueira, quando a temperatura começava a baixar, e todos pela hipotética noite aguardavam, contava-lhes as muitas estórias de mitologia grega que conhecia, pois desde pequeno sempre nutrira um grande fascínio pelas alegorias dos gregos. Quem de todos o ouvira sempre com redobrada atenção eram as crianças, mais especificamente a menina, que parecia registar tudo na sua cabeça, como um computador. A estória de Édipo fora naturalmente contada, pois é um dos cegos mais conhecidos e estudados no mundo da literatura e da psicanálise.
Horas nocturnas do ser
Sombrios são os recessos do Ser que albergam os sonhos da aurora. São lugares ignotos num mundo sem forma, onde luz e treva se mesclam para produzir o lume da quintessência. É estranho ouvir a voz do Nada. É estranho sentir os laivos da energia criadora percorrer a carne putrefacta, como se os sentidos enganadores pudessem reencaminhar a Voz até à lura da revelação. Algo de imortal persiste na vida mais ínfima do corpo. Algo se recolhe nos poros da respiração e expira o sopro da primeira manhã, que se incrustou na íris de todos os olhares, tez de todas as cores. É esse algo que se alberga e que se revela sem que a mente o capte e apreenda. É uma beleza que se ausenta para melhor fundir e confundir os que um dia serão tocados pelo raio superior. E algures, disseminado por toda a parte, um espírito retido no seu casulo se prepara, para a viagem, um caminho iniciático enraizado nas brumas encasteladas da alma.
A luz inominável
Uma vela arde na noite do silêncio e obriga o Oleiro a imaginar o seu rosto de fogo, os seus braços de papel incendiado. Algo de invisível soergue-se do seu íntimo e incita-o a moldar o barro esquecido. Algo que não sabe nomear. Talvez o Belo. Talvez a chama inicial, quando as estrelas ainda não eram estrelas mas pó seduzido pela forma, gelada e perene. Ele não sabe explicar. Ouve e recorda-se com o coração o que os olhos jamais avistaram. Ele sabe, no seu íntimo, que sempre houve uma chama a fulgir uma aurora insone, mesmo ténue e atormentada pelas dores que a afligem. Por isso se tornou Oleiro, por isso burila a massa que são lágrimas de um anjo, um ser que sofre por ser fogo e não queimar.
A criança e o girassol
Certo dia, uma criança que adorava brincar com as flores do seu jardim olhou fixamente para um belo girassol. Era grande e tinha umas pétalas fulvas, torradas de tanto espreitar o sol. Era diferente de todas as outras flores, não só por causa da sua dimensão, uma corola mais ampla, com umas pétalas a lembrar labaredas a adornar o seu centro, e um caule alto e rijo a erguer a majestade da sua postura, solar por natureza.
A criança aproximou-se do girassol para inalar a sua fragrância e com a sua mão direita ceifou-lhe o caule. Pegou com cuidado nesse pequeno tesouro que queria guardar só para si e sentou-se num tronco de madeira perto do jardim. Ergueu o girassol e girou-o lentamente na claridade do dia. Os seus olhos contemplavam a beleza desse pequeno ser vegetal que, misteriosamente, a fascinava.
- Também tu gostas do meu girassol? perguntou-lhe a Voz…
- Sim… Tem algo que não consigo explicar… Porque será que gosto tanto desta flor? retorquiu-lhe a criança com um ar muito cândido, mas ao mesmo tempo intrigado.
- Talvez por seres precisamente como essa flor… O girassol é uma das minhas criações mais devotas, a sua sinceridade é genuína e a sua entrega total.
- Sinceridade? Entrega total? O que queres dizer com isso? Estamos a falar de uma flor, não de uma pessoa! Posso ainda ser uma criança e não saber muita coisa, mas isso eu sei!
- O teu coração apaixonou-se por esta flor como uma mãe se apaixona pelo seu recém-nascido. Não houve grande diferença na intensidade do sentimento que acalentaste. Todos os seres contêm a virtude do meu amor. Todos os seres amam. Não penses que amar é um dom exclusivo do ser humano. A minha beleza é múltipla e está espalhada em toda a minha criação. Assim como tu, que também fazes parte da minha beleza.
- Mas… Como pode esta flor servir-te? Como pode ela se entregar a Ti? indagava a criança num tom perplexo, desconcertada pelo que acabara de ouvir…
- O girassol é uma das poucas flores que incansavelmente me buscam. Onde eu estou, ela por mim procura. O seu olhar essencial acompanha-me onde quer que eu esteja, mesmo nos dias em que não me deixo ver por ninguém. E são vários os dias em que me torno invisível, mas sempre presente, sempre ao lado de quem me requisita. O que o olhar deixa de ver a alma o absorve, como este girassol, que empala dentro de si o meu amor. E isso comove-me, essa entrega, essa devoção!
A criança pensava em como podia ser possível comover-se com um ser inanimado. Não que não gostasse de flores, antes pelo contrário, mas ao ponto de se comover…?
- Comoves-te?! Com a tua própria criação?! afirmava a criança em jeito de pergunta.
- Sim, comovo-me sempre quando vejo a direcção que um dos meus filhos escolheu. Tens de entender algo de importante. Eu crio, mas quem decide do percurso que quer seguir não sou eu. Eu dou a liberdade de escolher para onde e como querem crescer. Não interfiro nas evoluções individuais. Deixo as minhas criações descobrirem-se e descobrirem-me. Estou sempre presente, observo-as constantemente, mesmo quando me acham ausente. E o girassol é um belo exemplo de um ser que me compreende. Um ser que se alimenta da minha luz. Por isso, serve de exemplo a quem o quer seguir. Talvez seja essa a razão do teu fascínio por esta minha flor…
- Queres dizer que sou como o girassol? Que te procura incansavelmente? Que eu olho para ti mesmo nos dias em que não te vejo ou não me respondes?
- Sim… A luz que te anima, a pureza que o teu coração por mim nutre, é a tua vontade de seguir a vereda da luz, aquela que te levará até ao meu lar. E as tuas acções são o testemunho da luz que te habita. Contemplas o que te rodeia com candura e serves com compaixão quem a ti recorre. E seres criança em nada diminui a tua tarefa. O beijo de reconforto que deste à tua mãe, no dia que ela estava triste, foi a expressão do meu afecto, que através de ti se realizou. Deixaste-me falar através de ti, nesse dia, como noutros.
O carinho que nutres aos que te rodeiam permite-te seres como o girassol. Fiquei muito feliz quando te tornaste amiga daquela criança cigana que os teus colegas na escola maltratavam. Ofereceste-lhe o teu lanche, apesar da fome que o teu estômago sentia, porque sabias que ela ainda não tinha comido nada durante todo o dia. Puseste em prática, sem o saberes, alguns dos meus ensinamentos mais importantes…
- Quais?! queria saber a criança, surpreendida por, sem o saber, conhecer alguns dos seus ensinamentos.
- Independentemente da opinião colectiva dos teus colegas na escola, não hesitaste em ir em auxílio a quem precisava, e não é preciso muito para ajudar alguém. Às vezes, basta um sorriso, um gesto, ou uma palavra amiga. Não hesitaste em abraçar quem era diferente de ti, porque percebeste que o meu amor não escolhe raças ou crenças. Eu sou o Criador e amo toda a minha criação, sem excepções, da mesma forma. Puseste em prática um dos meus ensinamentos mais importantes! Ajudar o outro é ajudar-se a si próprio. E ajudar-se a si próprio é aproximar-se de Mim.
Este jardim que tantas vezes vens contemplar não é só composto de girassóis. Está repleto de outras flores e plantas que também me servem, ao servirem-te a ti e aos teus. O meu reino é maior do que tudo o podes imaginar, mas neste simples jardim está em exposição uma pequena parte do meu reino e a forma como funciona. Se souberes olhar, entenderás. Quando entenderás serás verdadeiramente livre!
A criança percebera que por detrás das formas existe uma dimensão oculta e vasta. E que uma simples flor pode representar todo um jardim. E, sobretudo, que tudo no seu jardim foi criado com um propósito. Nada foi deixado ao acaso. E uma simples flor pode significar imenso, desde que se entenda o seu contributo e o lugar que tem no mundo.
- E tudo isto por causa de um girassol…?!
Num tom carinhoso, mas paternal ao mesmo tempo, a Voz exprimira a sua última observação:
- Minha querida filha, o girassol oculta muito mais do que aparenta. Todos vós ocultais sentimentos e esperanças que ainda desconhecem. Mas se procurarem, ser-vos-á revelado o meu Ser, e como o girassol, ser-vos-á possível participar no grande desígnio que é a Vida, a verdadeira vida, a do céu e da terra.
Apesar da conversa não ter ficado completamente clara para a criança, ela sabia que algo acabara de ser semeado dentro dela e aguardava que esse algo, um dia, florescesse, e, à semelhança do girassol, se virasse para a Fonte de onde toda a luz dimana…
Hora grave
Qual dia esvaziando-se das suas cores, a solidão irrompe como uma lua púrpura, avassalando cada nesga de luminosidade ainda cintilante, cada recanto do ser à procura de ar respirável e regenerador. É um ambiente fétido e corrosivo que ergue os seus ramos frondosos nos vidros embaciados do olhar. As lágrimas soturnas acompanham a cadência do pulsar da vida, uma vida esmagada, uma vida sem matizes alegres, sem vontade de bradar o grito da liberdade.
Hoje não me apetece escovar os dentes. Hoje nem me apetece tomar o duche que tantas vezes me limpa dos meus pensamentos sombrios. Hoje, de nada me vale sair de casa e ter o mínimo de cuidado com a minha higiene física, pois a minha sanidade emocional está torcida e tudo me parece turvo, como águas sujas e sem transparência.
De onde me virá essa dor que pareço alimentar? Será do emprego? Será dos meus amigos? Amigos? Colegas de trabalho… Eu não tenho amigos, tenho colegas, que se alegram com o meu trabalho. Como não haveriam de se alegrar quando tantas vezes os desenrasco nas tarefas burocráticas, que a empresa continua a alimentar como se alimenta um ogre. Papeis para aqui, papeis para acolá. Requisitar a autorização para isto, para aquilo. É nisto que o tempo se evapora, nas tarefas enfadonhas da rotina quotidiana. Mas será que o meu mal-estar me vem mesmo dos cinismo e egoísmo que cinco dias por semana vivo? Se olhar bem fundo para dentro de mim sinto que resposta não será tão simples…
Não sou o único a sentir-me abandonado. Basta ligar o televisor e olhar para o horror que diariamente nos avassala. São bombas a explodir, pessoas a morrer injustamente por causa de causas que eu nunca compreenderei, crianças a morrer de fome porque o investimento militar continua a ser mais importante do que a saciedade do estômago. Afinal, não sou o único a sentir-me só… O mundo só pode estar muito só. Há pessoas que, desesperadamente, gritam para serem ouvidas, mas ninguém as quer ouvir, elas não são rentáveis, elas não serão ouvidas… Mas eu, o meu mal-estar, a minha sensação exacerbada de solidão, será que me vem de todos estes motivos? Eu nem conheço as pessoas que vejo na televisão, eu nem sinto na pele o choro convulsivo de quem tudo perde na vida, até a própria vontade de se manter vivo. Então? De onde me vem esta escuridão interior? Eu? Uma criança mal tratada? Já fui, isso já passou… Só durou enquanto a minha mãe se manteve casada com aquele tipo a quem devia de tratar por pai; que estranha palavra no meu dicionário mental, tão feia, tão cruel… Não, isso são águas passadas, as costas exangue, a cara entumecida das chapadas que a minha raiva amparava, isso é tudo passado. Só durou até aos meus 12 anos. Agora tenho 30, já lá vai um tempo.
Deve de haver outra explicação para o meu estado emocional. Deve de haver algo que os meus sonhos me ocultam. Aquele barco que tão recorrentemente me aparece, no meio da tempestade, com a sua vela completamente desfeita, mas que se aguenta com coragem, deve de querer dizer mais do que aquilo que parece. Já não posso confiar nos meus sonhos. Eles não me ajudam. Dilaceram-me ainda mais, quando o que eu preciso é de uma mão amiga que me tire desse barco e me resgate para uma praia solarenga.
Pensar incomoda-me. Em vezes de encontrar soluções, sofro com ainda mais amargura o meu estado soturno. Tenho de acabar com isso, tenho de pôr fim ao meu sofrimento, tudo tem um fim…
Há aquele site que tive a ver no outro dia. Há aquelas pessoas que, como eu, querem uma solução final, a derradeira solução a todos os males do mundo. Sim, eis a solução, eis o caminho que me libertará… Mas tem de ser rápido e limpo, não me apetece sujar por fora o que por dentro já é uma imundice. Tenho de manter a minha dor concentrada. Tenho de manter por fora um ar limpo e feliz, porque vou ser feliz, porque vou deixar de chorar sobre a minha condição de ser humano. Vai ser hoje. Tem de ser hoje. Já não aguento mais. Mas tenho de tomar um banho, tenho de fazer a barba e lavar os dentes. Vamos lá a isso. Agora tenho um bom motivo para sair do meu marasmo. Mãos à obra!
A campainha está a tocar. Quem será? Quem pode a esta hora da manhã querer falar comigo? Será a vizinha? Que me quer ela? Vou abrir a porta…
- Bom dia, o senhor é o Marco Rosa Fernandes?
- Sim, é o próprio.
- Então assine aqui por favor, isto é para si.
- Obrigado sr. Carteiro.
- De nada, e passe um bom dia!
Uma caixa endereçada ao meu cuidado. Mas de quem? Uma Marta Santos… Marta Santos, não, não pode ser da Marta, a Marta, a Marta da escola primária, a Marta que mudou de cidade com os seus pais quando éramos tão amigo. A Marta, a minha amiga de infância, a que sempre me ouvira e me consolava nos meus momentos de dor.
Rasguei a caixa num ápice, o meu coração pulsava a mil à hora, todo o meu ser estava concentrado naquela pequena caixa de cartão.
Um livro e uma carta. Eis o conteúdo. Os miseráveis, de Victor Hugo. Acho que já ouvi falar. Mas por que será que me manda um livro? Abro a carta ainda mais depressa que a caixa.
«Meu querido amigo Marco,
Deves ter recebido esta encomenda com grande surpresa. Foi com alguma dificuldade que consegui obter a tua morada. Depois de tantos anos passados, voltei ao Porto, e não podia deixar passar a oportunidade de restabelecer a nossa amizade. Confesso que, apesar da nossa terna idade, nunca me esqueci de ti. Como prometido, ficaste sempre no meu coração. Nunca te consegui esquecer. Agora que arranjei trabalho numa farmácia da baixa, e que vivo de forma independente, achei que era o momento oportuno para voltarmos a falar. Deves ter mudado muito. Eu mudei, agora uso o cabelo mais curto e com madeixas. Tornei-me numa mulher, que ainda anda à procura do seu príncipe encantado. Espero que tu estejas bem e que a tua vida seja feliz.
Não tenho muito jeito para cartas. Não sei muito bem o que te dizer e acredita que tenho tanto para te contar. Gostaria de te ver. Espero que tenhas disponibilidade. O meu número de telemóvel é o seguinte: 93 260 45 04.
Liga-me assim que puderes, estou ansiosa por te rever.
O livro que te mandei li-o há uns meses. É impressionante Marco, lê-o, vais ver, vale a pena!
Despeço-me de ti com um grande beijo cheio de saudade, esperando voltar a ver-te depressa.
- P.s Aqui vai um poema que achei que devias ler, dum poeta alemão, Rainer Maria Rilke. Boas leituras! Até breve!»
Hora grave
Quem agora chora algures no mundo,
sem razão chora no mundo,
chora por mim.
Quem agora ri algures na noite,
quem, sem razão, ri na noite,
ri-se de mim.
Quem agora vagueia pelo mundo,
sem razão vagueia pelo mundo,
vem para mim.
Quem agora morre algures no mundo,
sem razão morre no mundo,
olha pra mim.
Os meus olhos não queriam acreditar no que acontecera. As lágrimas que os revestiam tinham um sabor a sal, o sal do mar majestoso que parece não ter fronteiras. O sal que condimenta a comida e que lhe dá outro sabor. Os meus olhos choraram de alegria e um arco-íris de corres garridas iluminou o meu rosto. A Marta lembrou-se de mim. Alguém que eu amei e que a vida me retirara voltou a irromper em mim como um feixe de sol.
Cheio de vida e de esperança agarrei no telemóvel e compus -9-3-2-6-0…
A paisagem das horas varia os seus ponteiros consoante o olhar que as observa. Há sempre uma hora que não se revela, há sempre um minuto que não ouvimos, há sempre um segundo para mudar o trajecto de uma vida…
Partilha
Quero hastear com o sopro um diadema de orvalho
e pousa-lo na copa de uma flor, à beira de um rio
e ouvir o secreto marulho das fadas da água
que se deliciam com a luz dos sonhos esquecidos.
Sim, quero falar com o ar, a terra e o fogo
e invocar a secreta linguagem da cidade invisível
porque sou uno no vasto universo, disperso
no seu todo, a recolher o pólen de além-terra
para partilhar com descrentes a verve pura do sol azul
O amigo d'infância (Uma homenagem)
É muito provável que a minha infância tenha sido irremediavelmente marcada por essas personagens, saídas dos melhores livros de ficção literária. E sinto-me feliz por ter participado na grande aventura e, sobretudo, por tê-lo conhecido e ter tido com ele uma relação de amizade. O ensinamento que melhor recordo é o de nada dizer. Era esse silêncio, por vezes constrangedor, que cultivava.
“Não interrompas as palavras do Silêncio. Ele está a recordar a infância da Palavra, e se lhe prestares atenção, ele retribuir-te-á o círio da revelação” dizia ele na sua voz suave, voz de neve a derreter sob o arfar luminoso do sol. Ficava perplexo. Os meus doze anos de idade tinham um efeito paradoxal. Por um lado, percebia perfeitamente o que queria dizer, principalmente depois de termos ido ao mar ouvir as ondas rebentarem e as gaivotas emitirem aqueles sons estridentes, próprios da sua linguagem. Por outro lado, achava tudo isso estranho de mais para mim, como se tivesse aterrado ao lado de um ser vindo de outro planeta. Talvez até fosse de outro planeta e eu o que se encontrava na terra errada. Todavia, a aura que dimanava, não me deixava indiferente e sentia-me atraído pelo seu misterioso saber.
Nunca mais ouvi alguém falar da montanha, dos prados, dos bichos, dos insectos e das plantas como ele. Parecia que ele e a natureza formavam um só e mesmo ser. Sentava-se à beira das árvores e inalava vagarosamente o aroma da natureza, até embriagar-se da sua substância. Ora transformava-se numa raiz, ora num ramo, ora num tronco ou pétala, sentindo-se sempre parte de um todo, maior do que tudo o que se pode imaginar. Atrevo-me a compará-lo a um poema. Sim, um poema, porque o poema é a mais bela e mais perfeita forma de expressão, um organismo harmonioso a revelar as suas epifanias.
A sua alma remia os segredos mais belos que uma mente pode arquitectar. Tenho saudades desse tempo de enlevo. Tenho saudades do meu amigo poeta que sabia mais do que os meus professores e que compreendia o rodopiar do mundo, feito de luz e de sombras, e por isso tão belo e tão redentor.
Hoje esforço-me por preservar a sua memória e tornar-me como ele num pastor do mundo, e ouvir a água escorrer as suas mágoas e o vento ciciar as ladainhas do futuro. Hoje sinto-me um ramo de árvore a mistura-se com a quintessência que nos envolve. Hoje, finalmente, libertei-me das opressões que me dominavam.
Tuesday, November 01, 2005
A igreja circular
sem pedras, artefactos ou religião.
É uma folha de salgueiro, uma concha,
um sussurro vindo do rio ou
a presença de uma flor que se pode amar.
Circular é a minha Religião
que se estende pelos feixes da luz
que rodopia na sua crença partilhada
e no ocaso de todos os amanhãs
renasce brotada numa filigrana de poesia azul.
Friday, October 28, 2005
A dor estava estampada no seu rosto. Queria dissimula-la, mas, quando a água ultrapassa os diques que a sustêm, é difícil permanecer com um ar sereno, ou camuflar as costuras incicatrizáveis que o coração ostenta.
A sua vida mudara, a sua dor trouxera-lhe virtudes e amarguras, muitas amarguras… Aprendera a lidar com o silêncio de si próprio. E é tão difícil escutar-se! Não que o silêncio seja algo de pernicioso, não, simplesmente são poucos os que entendem a linguagem misteriosa. Tornou-se poeta! Eu sei, que ideia errada de pensar que todos os poetas são seres tristes e melancólicos, mas a verdade é que ele se tornou mesmo num poeta. E dizem os entendidos que ninguém fala como ele da alma e dos seus desígnios. Diz o ditado popular que “Deus tira de um lado para dar do outro”. Todavia, algumas perguntas persistem: quantos poetas teriam trocado a sua infelicidade por uma vida normal, um casamento, uns filhos e uma esposa (esposo), para amarem e serem amados? Mas se tal tivesse acontecido, será que, muito graças a eles, conheceríamos o interior do nosso ser como o conhecemos hoje? E a dor, não será a dor uma força motora tão grande e tão importante como o próprio amor? As dúvidas mantém-se, bem como os remédios da alma, ainda por inventar…
Tratado da Amizade
Existe, no mais profundo de cada um de nós, um poço repleto de água, uma água que, por vezes, os feixes do sol não acariciam, porque a vontade do nosso ser o não permite. As razões que o outorgam a tal comportamento nunca são razões claras ou explícitas. Florescem sentimentos em nós, à semelhança dos poetas que transportam em si a mágoa do mundo ou de mães que nos seus ventres filhos acalentam. Quem de nós, durante a sua caminhada, nunca transportou um filho da tristeza? Quem de nós nunca abafou a sua voz por já não conseguir falar?
Felizmente, as experiências que o homem vai vivendo são experiências comuns: a perda de um ente querido, um amor desfeito, uma traição incompreensível, um sonho adiado… E digo felizmente, não por me abonar a causas que causam mágoa ou dor. Não, digo felizmente porque somos todos humanos. Que desgraça seria a nossa se nunca errássemos, que inglória seria a nossa nunca podermos sorrir de um feito alcançado com mérito, fruto de custo e dedicação. A evolução de todos os seres é pautada pela capacidade em lidar com a dificuldade e pela sua vontade em crer crescer e acariciar o rosto do sol.
Bem sabemos que o mundo está repleto de pessoas que sofrem de soledade. Mas também sabemos que nesse mesmo mundo existem companheiros de viagem, que nos acalentam o ânimo, que sabem olhar para além das aparências e dizer: Tu és uma pessoa bonita e o sorriso fica-te tão bem! Deixa-me ajudar-te, deixa-me juntar a ti mais um par de mãos e ser o guindaste que precisas.
Aceitar a ajuda de quem nos quer bem nem sempre é fácil. Nem sempre é fácil dizer quão só nos encontramos, e que, por mais bem que nos queiram, não há ajuda que nos liberte do nosso fardo. E quantas vezes não choramos compulsivamente dentro de nós?, náufragos de um barco que não escolhemos, reféns de uma ilha que não sabíamos sequer existir. Uns dirão que a vida não é fácil. Outros, que somos nós que dificultamos a vida, que a vida é bela se a soubermos sorver. A verdade de tudo isto é que ninguém escolhe voluntariamente a sua tristeza. E, por isso, se erguem os amigos, aqueles familiares escolhidos por nós, para nos relembrar que foram criadas tochas num mundo abalado pela escuridão.
Um dia, também eu fui abalado pela treva. Um dia, o meu lar desabou sobre mim e as paredes, então belas e sólidas, se transformaram em ruínas, as minhas ruínas… Sobrevivi. Sou um sobrevivente, como tantos que vejo passear pelas ruas. As minhas chagas cicatrizaram, o meu coração voltou a pulsar e a minha dor amainou.
Hoje, recordo esse tempo com um sorriso nos lábios porque foi precisamente nessa altura que a luz me envolveu, a luz dos meus amigos, a luz de quem sempre me quis bem. E o que ainda hoje me surpreende é o estado de cegueira no qual me encontrava. Não sabia que tinha tantas pessoas a querem o meu bem, sem nada pedirem em troca, a não ser a minha amizade.
O tempo passa, o rio segue o seu curso, assim as vivências que através de nós flúem. Rostos novos erguem-se nas nossas vidas para nos mostrar um jardim feito de diversidade, de cores e de feições diferentes. Novas amizades e amores rebentam das suas sementes para se enrodilharem à volta do nosso coração.
Dou graças a Deus por ter os amigos que tenho e dou graças ao Céu pelos que ainda me faltam descobrir. Do pouco que até agora aprendi, fica uma certeza: nunca se está completamente só, nem os obstáculos são tão espinhosos como inicialmente imaginamos. E com amigos, tudo é suportável, tudo é superável, até mesmo as doenças da alma.
Compreender o sagrado
Quem não vê o sagrado na textura de uma folha,
no chilrear de um pássaro vivo e alegre,
não sabe o que é Sagrado, não pode compreender!
O sagrado manifesta-se nas formas, mas é Essência,
é uma dinâmica muito subtil que se move,
que flui e reflui pelo crepitar do sangue cálido
tão vermelho no seu rosto, tão reluzente na sua vida.
Para sentir a energia dos laivos da existência perene
é preciso não ser, não ver, e eclodir a visão interior
como uma flor dos bosques em busca do calor
ou uma andorinha melodiosa a namorar o sol.
Nem tudo se compreende, nem tudo se avista
e somente a nobreza da alma consegue ser espelho
das revelações interiores, exteriores no reino vegetal,
união de opostos que se completam nas suas formas
como um tálamo, um misterioso anel de prata dourada.




