

III
- Miaaaau – exclamou o anjo-gato, como se tivesse despertado de um sono profundo - Está aí alguém?
- Quem és tu? – perguntou com muita admiração a estrela, que entretanto deixara de chorar. Um misto de alegria e de estranheza envolviam-lhe a voz. A sua voz entoara directamente da árvore. Era a primeira vez que via um gato. Nem sabia que existam gatos.
- Eu sou Hadi, o teu anjo da guarda e vim apresentar-me ao serviço.
- Hadi? O meu anjo da guarda? Tens de me explicar isso? Para começar, é a primeira vez que falo com alguém. Fico feliz por teres um nome pois eu ainda tenho. E segundo, o que é um anjo da guarda?
Os olhos do gato começaram a inspeccionar toda a árvore e estenderam-se ao resto da montanha e da água circundante. Com a sua pata esquerda esfregou os seus bigodes e lambeu a sua mão. Depois, tossiu, como tosse uma pessoa, e sentou-se confortavelmente em cima do pedaço de terra que se encontrava em frente à árvore.
- Tu tens um nome e sou eu que to vou dar.
- Um nome? Eu tenho um nome? Depressa, diz-me como me chamo. Não me faças mais esperar, pois devo ser a única estrela do céu que ainda não tem nome.
- Aanisa é o teu nome! – disse Hadi, com a calma que caracteriza os gatos.
- Aanisa – murmurou a estrela, como se quisesse experimentar o seu nome, como se experimenta umas calças ou uma casaca, para ver se nos fica bem, se está à nossa medida – Aanisa, parece-me bem – finalizou a estrela.
- Tem mesmo de te agradar porque não to vou mudar. Quando escolho um nome não volto atrás. Eu sou assim, não ando cá com rodeios. Sou zeloso na minha profissão.
- Profissão? – perguntou Aanisa sem perceber muito bem o seu primeiro amigo.
- Ah, pois! Nunca me lembro que vocês, as estrelas, depois de nascerem, têm de ser ensinadas em quase tudo. É que um dia saberás tantas coisas que serei eu a vir-te fazer perguntas. Tenho uma estrela amiga, Thamir, da galáxia do norte, que me tem ensinado tanta coisa, que nem imaginas. Apesar de eu ser um anjo, há coisas que não sei. Também tenho de aprender. Em relação à minha profissão, isso significa que passo a minha vida a visitar estrelas e crianças e que as venho ajudar naquilo que precisam. Com esta resposta também te respondi à pergunta o que é um anjo da guarda.
- Vens-me ajudar? Mas em quê? E como?
- É importante perceberes uma coisa; nunca estás sozinha. Mesmo que não me vejas eu estou sempre contigo. Basta chamares por mim para que eu venha ter contigo, mas não vale a pena chamares-me a torto e a direito, só por te apetecer. Só venho se achar que precisas mesmo de mim ou se me apetecer estar contigo. Por isso, não vale a pena chamares por mim todos os dias, senão faço como Salimor, o sol vermelho, aquele que nunca te responde.
- Queres dizer que o sol vermelho tem nome! E fala? Ele não me tem ligado nenhuma. Porquê?
- Isso, saberás em devida altura. Ainda não chegou o tempo para responder a essa pergunta. O tempo, jovem estrela, fornece todas as respostas. Miaaaau – miou o anjo-gato, esfregando o focinho com a sua pata direita – Acho que está na altura de ir fazer um sesta…
- Uma sesta? Mas acabaste de chegar? Já queres ir dormir? Eu ainda tenho muitas perguntas para te fazer. Ainda não me respondeste a tudo o que preciso de saber – respondeu Aanisa, desorientada com a atitude do seu recém amigo anjo da guarda, um pouco estranho, diga já de passagem.
- Miauuu, estou exausto. Deixa-me lá ver onde me vou deitar – disse o gato com uma grande cara de sono, como se não tivesse prestado atenção nenhuma ao que a estrela lhe acabara de dizer.
- Estás a gozar comigo! Só pode ser! Dizes ser o meu anjo da guarda e não me tens ajudado nada. Para além disso és mole e só pensas em dormir. Não tens vergonha? Onde está o teu zelo profissional?
Já deitado em cima de um ramo da árvore, depois de uma escalada muito fácil para um bicho tão ágil como ele, lambeu cuidadosamente todo o seu pelo, antes de responder à estrela e de iniciar a sua sesta.
- Aanisa, não me julgues pelas aparências, elas enganam. Falaremos novamente depois do meu descanso. A paciência nunca foi o forte dos jovens. Não te esqueças que o tempo será o teu professor. Aprende a ver. Aprende a ouvir. Miauuuu, é desta! – bocejou Hadi - Estou mesmo a deslizar para o reino do sono.
E assim foi, Hadi encetou a sua sesta em cima de um dos ramos da árvore da estrela e começou a roncar, como o motor de um carro. Nem imaginas o barulho que Hadi estava a fazer, incomodando a estrela, que estava sem saber o que pensar de toda a situação.
- Não explica quase nada, dorme como um prego e faz mais baralho que sei lá o quê – pensou para consigo Aanisa – Onde é que já se viu isto? Que estranha maneira de travar uma amizade. Espero que não ronque assim todos os dias, senão vou dar em doida.
IV
Longe da estrela e do seu novo amigo, cá em baixo, no nosso planeta Terra, uma criança de 9 anos estava encostada ao umbral da sua janela, olhando atentante para o céu estrelado. As estrelas pareciam pequenos alfinetes a brilhar na vastidão do espaço.
Samara é o nome da menina de olhos castanhos, como a pele da madeira. Usa elástico para prender o seu cabelo e é magrinha, um palito diz a sua tia Sara. Vive sozinha com o seu pai, José, depois de ter sofrido uma dor muito grande na sua vida. O que aconteceu a Samara é muito triste, mas tenho de o contar para que percebas a história. Já alguma vez leste uma história triste? Se não, prepara-te, pois eu sei que já estás pronto(a) para perceber certas coisas.
Samara perdeu a mãe num acidente de viação, há pouco menos de um ano. Não foi só a sua mãe que perdeu, a menina também perdeu o seu sorriso e a alegria que faziam de Samara um verdadeiro sol vivo. Como deves de imaginar, uma vida sem mãe é sempre uma vida difícil. As saudades são mais que muitas, até dos ralhetes para ir escovar os dentes ou da comida que a boca não conseguiu engolir à refeição. Mas a morte de um ente querido não deve ser o fim da nossa felicidade. A lembrança faz com que a morte deixe de existir e Samara tem muita lembrança no coração. Nunca deixou de falar com a mãe, sobretudo à noite, quando olha para as estrelas, antes de se ir deitar. Ou quando está triste, por seu dia na escola não ter corrido bem ou outra qualquer situação semelhante onde a presença da mãe é sempre convocada.
Esta noite, Samara fixa as estrelas de uma forma mais intensa, como se suspeitasse de algo. Talvez uma estrela lhe caia do céu e a menina, com a presença luminosa no seu regaço, lhe cante uma cantiga de embalar. Seria engraçado podermos ter uma estrela nos nossos braços, não achas? O que farias com uma estrela? Eu, pediria um desejo, mas não qualquer desejo. Tinha de ser um desejo com o qual outra pessoa também beneficiasse. Qual? Não sei, talvez pedisse que fosse feliz e que Samara apanhasse a boleia da minha felicidade. Parece-te bem?
Enquanto Samara estava longe em pensamento do seu quarto, o nosso amigo Hadi, o anjo-gato, instalara-se confortavelmente em cima da cama de Samara, lustrando o seu pelo com a língua. A menina ainda não o tinha visto, mas isso não parecia incomoda-lo, pois o seu à-vontade era tal que nada o importunava.
Quando Samara virou o seu corpo em direcção à cama, sem se assustar, olhou para Hadi como se olha para um novo amigo, com sentimento.
- Perdeste-te no meu quarto, gatinho. Como é que vieste cá parar? – murmurou Samara passando a sua mão sobre o pêlo recém lambido de Hadi.
- É um truque de magia. Consigo aparecer e desaparecer onde bem me apetece – sorriu Hadi, à espera da reacção da menina.
- Demoraste muito! – reclamou Samara, fixando os olhos do gato.
Surpreendido, o anjo-gato girou as orelhas para os lados, como se quisesse capturar as estranhas palavras que a menina soltara. Não era comum Hadi ser surpreendido. Geralmente era ele que surpreendia os seus visitantes. Intrigado, mas sem dar parte de fraco, respondeu com a sua calma habitual.
- Estas coisas levam tempo! Não sou eu que tomo certas decisões. Mas, diz-me lá, há quanto tempo estás à espera?
- Há quase um ano… - respondeu Samara, com uma lágrima no canto do olho.
- Estou a ver... Quem foi que te avisou?
- A minha mãe. Foi ela que me disse para aguardar por ti. Só não me disse que serias um gato.
- Pois, gosto do fato dos gatos, mas já usei outros. Geralmente, as crianças gostam de gatos, o que é o teu caso. Se não gostasses teria de me vestir de outra maneira, pois é importante não teres medo de mim.
- Eu não tenho medo de anjos. Eu vejo anjos há muito tempo, mas nunca tinha visto o meu anjo da guarda. É a primeira vez – disse Samara, soltando um sorriso.
- Confesso, estou surpreendido contigo. Já sabia que eras uma menina especial. Observo-te desde o teu nascimento, mas não tinha reparado que eras tão especial. É engraçado…
- Mas como é que tu te chamas?
- Eu sou Hadi, e como já o sabes sou o teu anjo da guarda.
- O que vieste fazer? – perguntou Samara que perdera o sorriso de há pouco. As lágrimas secaram, mas o seu coração continuava a chorar.
- Vim ajudar-te. Estou cá para te dar o alento que precisas. Eu quero que sejas uma criança muito feliz. A tristeza enche a barriga de amargura, a alegria de luz. Quero atear o lume que tens no teu coração, que está frouxo, muito frouxo…
- Espero que tenhas trazido muita lenha, pois, caso contrário, não vais conseguir fazer arder a chama de que falas.
Hadi observou as linhas do rosto da sua protegida e olhou dentro do seu coração, pois os anjos são mestres nessas coisas de verem dentro dos corações. Fechou os olhos e suspirou.
- Isto está grave, muito grave. Estás doente! – disse Hadi com muita seriedade, como se fosse um médico.
- Adoeci desde a morte da minha mamã. A minha alegria foi-se embora com ela – respondeu Samara com uma voz seca, como uma planta à míngua de água.
- Eu entendo, mas como te disse vim para te ajudar. E tenho uma surpresa para ti. Espero que gostes de surpresas. Esta vai ser a valer…








