Thursday, July 27, 2006

A estrela que se sentia só - parte VI



VI

- Onde estamos? – perguntou Samara, cujos olhos e coração brilhavam de curiosidade.

- Estamos no Átrio dos Caminhos Possíveis. Este é o local onde tudo acontece – respondeu Hadi com a sua cauda a abanar.

Samara e Hadi encontravam-se numa espécie de pátio com três grandes portas. Duas das três portas estavam abertas e uma mantinha-se fechada. Uma bruma misteriosa envolvia as portas abertas e não permitia ver o que se encontrava por detrás das mesmas. Todo o sítio estava empregando de um ar misterioso e sagrado. Parecia que estavam no centro do mundo, como o centro de uma teia de aranha, onde tudo converge ao seu encontro. Junto às portas erguiam-se duas bétulas de tamanho imponente. Os ramos das árvores recobriam os lintéis, parte superior das portas, curvando-se numa espécie de abraço fraterno. A paisagem que a menina e o anjo-gato tinham à sua frente era, de facto, muito bonita. Tanto as portas, como as árvores, pareciam reluzir uma vida muito diferente daquela que nós conhecemos. A harmonia dos céus florescia naquele local e todos os sonhos do mundo vinham beber a serenidade daquele espaço.

- O que está por detrás das portas? – interrogou Samara, com a sua curiosidade a crescer de minuto em minuto – Diz-me, Hadi, o que é este Átrio dos Caminhos Possíveis?

- Vai ser difícil eu te explicar isto de maneira a que entendas toda a importância deste local, mas vou tentar. As três portas que tu vês são as entradas que dão para três jardins. Do teu lado direito tens o Jardim das Flores Eternas. Ao centro, a porta que se mantém fechada, dá acesso ao Jardim do Esquecimento, onde nem eu tenho autorização para entrar. E, por fim, do teu lado esquerdo, tens o Jardim das Estrelas, o qual iremos brevemente atravessar.

- Por que é que a porta do Jardim do Esquecimento se mantém fechada? Tu, que és um anjo, devias poder passar por todas as portas, não achas?

Hadi sorriu amavelmente para Samara e, sem avisar, saltou para cima do ombro direito da menina, quase fazendo-a cair. Felizmente, ela conseguiu segura-lo sem se desequilibrar. O anjo-gato ainda teve direito a umas festinhas dadas com muito carinho.

- Nós, os anjos – sussurrou ao ouvido de Samara – não temos acesso a todo o conhecimento. Nós sabemos muitas coisas sobre como a vida funciona, a tua e a de todos os seres vivos na Terra, mas há coisas que nos são veladas. Um dia, talvez, se eu o merecer, terei direito a entrar pela porta do Jardim do Esquecimento. Dizem anjos muito respeitados na nossa comunidade, e que muito têm reflectido sobre o assunto, que este jardim é o jardim do início de tudo. Dizem que esquecer é renascer. Lamento não te poder responder melhor do que isto à tua pergunta, mas deixo-te imaginar uma resposta, a tua resposta.

- E os outros dois jardins, para que servem?

- O Jardim das Flores Eternas é um jardim sem fim, onde cada flor representa uma vida já nascida ou por nascer. Digamos que cada alma tem direito a ser representada por uma flor, sem excepções, quer sejas bom ou mau. Nesse jardim não se fazem distinções entre as flores. São todas diferentes. A única coisa que as liga é a terra onde estão plantadas. É ela que lhes fornece o alimento para crescerem, a água, se preferires. Mas, como deves imaginar, aqui, a vida não funciona bem da mesma forma que na Terra, mesmo sendo muito semelhante.

- Queres tu dizer que algures naquele jardim sem fim, povoado de milhões e milhões de flores, está a minha flor, eu?

Hadi sorriu. O anjo-gato tinha engraçado com a sua protegida. Via todo o seu interesse nos grandes mistérios da Vida e isso animava-o. Já tinha sentido que Samara era muito grande por dentro e ajudá-la a desenvolver ainda mais o seu interior era uma honra à qual ele não queria falhar.

- Sim, tu és uma flor e estás naquele jardim. Mas também eu e a tua mãe estamos representados por uma flor no mesmo jardim.

- A minha mãe? – perguntou surpreendida Samara – Mas, a minha mãe… morreu…

- Então Samara? Tu sabes perfeitamente que ainda está viva. É claro que já não está contigo fisicamente. É claro que os teus olhos já não a podem ver. É claro, tudo isso! Mas também é claro que tens conversado muito com ela. É claro, também, que a sentes contigo, no teu coração, mesmo não a vendo. E também é claro que a morte não é um fim em si, mas uma mudança, como uma lagarta que se transforma numa bela borboleta. Eu sei que já sabes isso tudo, mas a tua tristeza impede-te de aceitar o que dentro de ti sentes há quase um ano.

Samara esgalhou um sorriso e deu um beijinho ao seu amigo Hadi. Uma cumplicidade muito bonita estava a crescer entre os dois. Tal como os gatos que conheces, também Hadi gosta de mimos e nunca se priva deles. Quanto mais melhor. O coração aquece sempre com a ternura que lhe é ofertada. E quem não gosta de miminhos?

- E a nossa porta, a que nos vai levar para o Jardim das Estrelas, o que é ao certo?

- O Jardim das Estrelas é o jardim que alberga todas as estrelas do universo. E no vasto universo existe uma estrela que te quero apresentar, pois todos nós temos uma estrela, a nossa estrela. A tua estrela precisa de ti, bem como tu precisas dela. Esta é a porta que nos pode levar a qualquer sitio do mundo num piscar de olhos. É por aqui que passo, quando as minhas viagens ficam muito afastadas do planeta Terra. Anda, vamos entrar…

- Não se vê nada, Hadi. A bruma não me deixa ver nada!

- Não tenhas medo, entra! A bruma vai dissipar-se.

Hadi e Samara atravessaram em conjunto a porta do Jardim das Estrelas e pararam numa espécie de pedestal que se erguia de um vazio sem horizonte avistável. À sua frente, milhões de estrelas estavam penduradas, como bolas de natal que se colocam nos pinheiros. A paisagem era maravilhosa. Imagina-te no espaço, envolvido por milhares de estrelas. Seria lindo, não seria?

Samara sentira lentamente os seus pés descolarem do pedestal e o seu corpo girar para uma direcção ainda desconhecida. Com os seus braços fingia ser uma águia cósmica, uma águia conhecedora de todos os recantos do céu, uma águia capaz de atravessar todo o universo sem qualquer dificuldade. Uma alegria intensa e um sentimento de liberdade animavam as suas asas imaginadas. Hadi também já se encontrava a flutuar no vazio. Com as suas mãos, a menina agarrou no rabo do anjo-gato e deixou-se guiar pelo seu amigo e pelo brilho das estrelas. A viagem tinha começado. Os dois amigos encontravam-se a caminho da mais jovem das estrelas do céu.

Wednesday, July 26, 2006

O choro dos anjos



Soturnamente, os anjos regressam a casa
depois de mil lágrimas abafadas pela noite
daqueles que não acreditam em anjos
nem em guias de luz vindos de além.
São dores afiadas como sabres samurais
que seminam os sonhos destes seres
que ao nosso lado tudo acompanham.
Pudessem eles transmutar o homem em criança,
reavivar a esperança duma crença divina
talvez então o coração abraçasse a paz
e os canhões reluzentes disparassem alegria.

P.S - este poema foi escrito na altura da guerra do Irak, mas hoje, infelizmente, continua a fazer sentido...

Sunday, July 23, 2006

A estrela que se sentia só - parte V

Sol vermelho - Juan Miró




V

Não muito longe da nossa estrela, mora um sol que ainda não falou com a mais jovem das estrelas do espaço.

Salimor é um pequeno sol vermelho que adora ler! Sim, ouviste bem. Ele adora ler. Não lê livros como tu e eu, mas lê ideias. Sim, ideias. Todo o universo é composto de milhares e milhares de ideias que passam pelo sol como um rebanho de ovelhas. Salimor nunca as contou, pois as contas nunca foram o seu forte e de tanto contar já teria enlouquecido.

O sol da nossa história adora o silêncio, como a maioria dos sóis. Ajuda-o a concentrar-se nas ideias e a recolhê-las na sua barriga de fogo. Como bom sol que é aquece todos os planetas e estrelas à sua volta. Mas Salimor não se limita a essa tarefa. Salimor também reenvia para a sua vizinhança as ideias que conseguiu recolher. Ele sabe que as ideias fazem parte de algo muito importante para o universo: a imaginação.

Sem imaginação, querido leitor, não há crescimento interior. É por isso que as crianças são muito grandes, porque têm muita imaginação e que, apesar de terem um tamanho físico pequeno, são gigantes por dentro. O sol sabe quão importante é partilhar o fermento das ideias. Por isso, nunca falha na distribuição dessas pequenas sementes que as ideias são, na esperança de um dia as ver crescer e desabrochar num belo jardim de estrelas.

Hoje, após um longo período de silêncio, Salimor decidiu falar com Aanisa. Vamos ver como é que as coisas vão correr.

- Aanisa! Sou eu, Salimor, o sol vermelho – disse o astro de fogo com muita presença, como um rei.

- Então, agora já me ligas? Chamei por ti tantas e tantas vezes e nunca me respondeste! Por que me falas agora? – respondeu a estrela um pouco chateada com o sol.

- Aanisa, eu sou um sol e um sol sabe sempre quando deve falar. Não tinha ainda chegado a altura certa para conversarmos. Mas agora, sim, agora vamo-nos conhecer e nos tornar bons amigos.

- Por que será que quando te ouço falar me lembro do meu anjo da guarda ressonador? Devem de ter tido o mesmo professor. Já sei que tenho de ter paciência. Penso que foi uma das poucas coisas que me quis dizer, antes de se enfiar neste sono barulhento. Já tenho saudades dos meus dias de sossego.

- Sim, ele sabe ressonar. É, como Hadi diz, um profissional… disse Salimor e começou-se a rir, como já não se ria há imenso tempo, criando uma gargalhada tão barulhenta que parecia que o espaço tinha sofrido um tremor de terra. A estrela ficou pálida, assustada com o fenómeno. Pensou para si - os meus primeiros amigos são mesmo barulhentos, um ressona desalmadamente e o outro, parece que vai dar cabo do universo quando se ri.

Depois de um riso memorável, Salimor acalmou-se e conseguiu retomar a conversa com a estrela.

- Desculpa, Aanisa, mas não me ria assim há dois mil anos. Tens de compreender. Estas coisas são raras, mas quando me acontecem são a valer.

- Pois, deu para perceber isso… Mas, qual é a razão de tu me falares agora e não quando por ti chamava?

Depois de um momento de silêncio, Salimor respondeu-lhe:

- Há sempre uma altura para falar e outra para se manter calado. Hoje decidi que era a altura certa para começar a falar contigo. Eu sei que as minhas palavras não devem fazer muito sentido para ti, mas acredita que um dia tudo entenderás. Quando esse dia chegar, o véu será levantado – disse o sol vermelho com o tom de voz que caracteriza os anciões.

- Estou rodeada de mistérios – queixou-se a estrela - Primeiro, o meu anjo da guarda, ainda ferrado a dormir, que não me esclarece as minhas dúvidas e agora tu, que também não me contas a razão do teu silêncio antes do dia de hoje. Como posso compreender as coisas se ninguém mas explica?

- Aanisa, tu ainda és uma jovem estrela. Eu e Hadi vamos participar no teu crescimento. Podes sempre contar connosco, mas há coisas que preferimos que descubras por ti própria. Afinal, és uma estrela, a transformar-se num belo planeta.

A estrela não ficou muito satisfeita com a resposta enigmática do sol. Ela sabia que os seus dois primeiros amigos não lhe contavam o que queria saber. Ainda por cima, o roncar de Hadi causara-lhe as suas primeiras dores de cabeça. Apesar das coisas não lhe correrem como queria, Aanisa deixou-se embalar pela centena de ideias que vinham ter com ela. Era a primeira vez que as sentia. Salimor, com certeza, não devia de ser alheio a esse novo fenómeno que só agora Aanisa descobrira.

Pela primeira vez da sua curta existência, uma sede insaciável apoderou-se da estrela, a sede de imaginar.

Thursday, July 20, 2006


(tela sem nome: de Zéro Zoo)

Se sabes que o destino é um relógio sem horas
Porque continuas a dar-lhe corda?
Porque buscas o tempo que ainda não sucedeu?
Eu não tenho horas porque nunca tive relógio
Eu não quero relógio porque cultivo as desoras

Sunday, July 16, 2006

Caminhar


(tela de Cruzeiro Seixas)

O sítio onde quero chegar é um sítio onde ninguém antes de mim conseguiu chegar. Como o poderiam? O lugar para onde caminho é meu e somente meu. Se não lá chegar será esse o meu caminhar, tentar, intentar as rotas do alheio e procurar o certo, a chave das portas por destrancar.
Caminhar é preciso, nem que por isso não chegue a lado algum. O caminhar é o meu lugar e por isso não chegarei onde pretendo chegar. É no limiar que se traça o meu destino. No limiar sei que consigo circular à volta da Verdade, olhando-a de forma oblíqua, como qualquer verdade digna de ser apreciada.
Mas caminhar sem ter sítio algum onde possa repousar cansa-me, cansa-me como um passeio à beira-mar, agradável mas cansativo… O melhor é não pensar e prosseguir o que me resta por caminhar…

Friday, July 14, 2006

A estrela que se sentia só - partes III + IV




III

- Miaaaau – exclamou o anjo-gato, como se tivesse despertado de um sono profundo - Está aí alguém?

- Quem és tu? – perguntou com muita admiração a estrela, que entretanto deixara de chorar. Um misto de alegria e de estranheza envolviam-lhe a voz. A sua voz entoara directamente da árvore. Era a primeira vez que via um gato. Nem sabia que existam gatos.

- Eu sou Hadi, o teu anjo da guarda e vim apresentar-me ao serviço.

- Hadi? O meu anjo da guarda? Tens de me explicar isso? Para começar, é a primeira vez que falo com alguém. Fico feliz por teres um nome pois eu ainda tenho. E segundo, o que é um anjo da guarda?

Os olhos do gato começaram a inspeccionar toda a árvore e estenderam-se ao resto da montanha e da água circundante. Com a sua pata esquerda esfregou os seus bigodes e lambeu a sua mão. Depois, tossiu, como tosse uma pessoa, e sentou-se confortavelmente em cima do pedaço de terra que se encontrava em frente à árvore.

- Tu tens um nome e sou eu que to vou dar.

- Um nome? Eu tenho um nome? Depressa, diz-me como me chamo. Não me faças mais esperar, pois devo ser a única estrela do céu que ainda não tem nome.

- Aanisa é o teu nome! – disse Hadi, com a calma que caracteriza os gatos.

- Aanisa – murmurou a estrela, como se quisesse experimentar o seu nome, como se experimenta umas calças ou uma casaca, para ver se nos fica bem, se está à nossa medida – Aanisa, parece-me bem – finalizou a estrela.

- Tem mesmo de te agradar porque não to vou mudar. Quando escolho um nome não volto atrás. Eu sou assim, não ando cá com rodeios. Sou zeloso na minha profissão.

- Profissão? – perguntou Aanisa sem perceber muito bem o seu primeiro amigo.

- Ah, pois! Nunca me lembro que vocês, as estrelas, depois de nascerem, têm de ser ensinadas em quase tudo. É que um dia saberás tantas coisas que serei eu a vir-te fazer perguntas. Tenho uma estrela amiga, Thamir, da galáxia do norte, que me tem ensinado tanta coisa, que nem imaginas. Apesar de eu ser um anjo, há coisas que não sei. Também tenho de aprender. Em relação à minha profissão, isso significa que passo a minha vida a visitar estrelas e crianças e que as venho ajudar naquilo que precisam. Com esta resposta também te respondi à pergunta o que é um anjo da guarda.

- Vens-me ajudar? Mas em quê? E como?

- É importante perceberes uma coisa; nunca estás sozinha. Mesmo que não me vejas eu estou sempre contigo. Basta chamares por mim para que eu venha ter contigo, mas não vale a pena chamares-me a torto e a direito, só por te apetecer. Só venho se achar que precisas mesmo de mim ou se me apetecer estar contigo. Por isso, não vale a pena chamares por mim todos os dias, senão faço como Salimor, o sol vermelho, aquele que nunca te responde.

- Queres dizer que o sol vermelho tem nome! E fala? Ele não me tem ligado nenhuma. Porquê?

- Isso, saberás em devida altura. Ainda não chegou o tempo para responder a essa pergunta. O tempo, jovem estrela, fornece todas as respostas. Miaaaau – miou o anjo-gato, esfregando o focinho com a sua pata direita – Acho que está na altura de ir fazer um sesta…

- Uma sesta? Mas acabaste de chegar? Já queres ir dormir? Eu ainda tenho muitas perguntas para te fazer. Ainda não me respondeste a tudo o que preciso de saber – respondeu Aanisa, desorientada com a atitude do seu recém amigo anjo da guarda, um pouco estranho, diga já de passagem.

- Miauuu, estou exausto. Deixa-me lá ver onde me vou deitar – disse o gato com uma grande cara de sono, como se não tivesse prestado atenção nenhuma ao que a estrela lhe acabara de dizer.

- Estás a gozar comigo! Só pode ser! Dizes ser o meu anjo da guarda e não me tens ajudado nada. Para além disso és mole e só pensas em dormir. Não tens vergonha? Onde está o teu zelo profissional?

Já deitado em cima de um ramo da árvore, depois de uma escalada muito fácil para um bicho tão ágil como ele, lambeu cuidadosamente todo o seu pelo, antes de responder à estrela e de iniciar a sua sesta.

- Aanisa, não me julgues pelas aparências, elas enganam. Falaremos novamente depois do meu descanso. A paciência nunca foi o forte dos jovens. Não te esqueças que o tempo será o teu professor. Aprende a ver. Aprende a ouvir. Miauuuu, é desta! – bocejou Hadi - Estou mesmo a deslizar para o reino do sono.

E assim foi, Hadi encetou a sua sesta em cima de um dos ramos da árvore da estrela e começou a roncar, como o motor de um carro. Nem imaginas o barulho que Hadi estava a fazer, incomodando a estrela, que estava sem saber o que pensar de toda a situação.

- Não explica quase nada, dorme como um prego e faz mais baralho que sei lá o quê – pensou para consigo Aanisa – Onde é que já se viu isto? Que estranha maneira de travar uma amizade. Espero que não ronque assim todos os dias, senão vou dar em doida.

IV

Longe da estrela e do seu novo amigo, cá em baixo, no nosso planeta Terra, uma criança de 9 anos estava encostada ao umbral da sua janela, olhando atentante para o céu estrelado. As estrelas pareciam pequenos alfinetes a brilhar na vastidão do espaço.

Samara é o nome da menina de olhos castanhos, como a pele da madeira. Usa elástico para prender o seu cabelo e é magrinha, um palito diz a sua tia Sara. Vive sozinha com o seu pai, José, depois de ter sofrido uma dor muito grande na sua vida. O que aconteceu a Samara é muito triste, mas tenho de o contar para que percebas a história. Já alguma vez leste uma história triste? Se não, prepara-te, pois eu sei que já estás pronto(a) para perceber certas coisas.

Samara perdeu a mãe num acidente de viação, há pouco menos de um ano. Não foi só a sua mãe que perdeu, a menina também perdeu o seu sorriso e a alegria que faziam de Samara um verdadeiro sol vivo. Como deves de imaginar, uma vida sem mãe é sempre uma vida difícil. As saudades são mais que muitas, até dos ralhetes para ir escovar os dentes ou da comida que a boca não conseguiu engolir à refeição. Mas a morte de um ente querido não deve ser o fim da nossa felicidade. A lembrança faz com que a morte deixe de existir e Samara tem muita lembrança no coração. Nunca deixou de falar com a mãe, sobretudo à noite, quando olha para as estrelas, antes de se ir deitar. Ou quando está triste, por seu dia na escola não ter corrido bem ou outra qualquer situação semelhante onde a presença da mãe é sempre convocada.

Esta noite, Samara fixa as estrelas de uma forma mais intensa, como se suspeitasse de algo. Talvez uma estrela lhe caia do céu e a menina, com a presença luminosa no seu regaço, lhe cante uma cantiga de embalar. Seria engraçado podermos ter uma estrela nos nossos braços, não achas? O que farias com uma estrela? Eu, pediria um desejo, mas não qualquer desejo. Tinha de ser um desejo com o qual outra pessoa também beneficiasse. Qual? Não sei, talvez pedisse que fosse feliz e que Samara apanhasse a boleia da minha felicidade. Parece-te bem?

Enquanto Samara estava longe em pensamento do seu quarto, o nosso amigo Hadi, o anjo-gato, instalara-se confortavelmente em cima da cama de Samara, lustrando o seu pelo com a língua. A menina ainda não o tinha visto, mas isso não parecia incomoda-lo, pois o seu à-vontade era tal que nada o importunava.

Quando Samara virou o seu corpo em direcção à cama, sem se assustar, olhou para Hadi como se olha para um novo amigo, com sentimento.

- Perdeste-te no meu quarto, gatinho. Como é que vieste cá parar? – murmurou Samara passando a sua mão sobre o pêlo recém lambido de Hadi.

- É um truque de magia. Consigo aparecer e desaparecer onde bem me apetece – sorriu Hadi, à espera da reacção da menina.

- Demoraste muito! – reclamou Samara, fixando os olhos do gato.

Surpreendido, o anjo-gato girou as orelhas para os lados, como se quisesse capturar as estranhas palavras que a menina soltara. Não era comum Hadi ser surpreendido. Geralmente era ele que surpreendia os seus visitantes. Intrigado, mas sem dar parte de fraco, respondeu com a sua calma habitual.

- Estas coisas levam tempo! Não sou eu que tomo certas decisões. Mas, diz-me lá, há quanto tempo estás à espera?

- Há quase um ano… - respondeu Samara, com uma lágrima no canto do olho.

- Estou a ver... Quem foi que te avisou?

- A minha mãe. Foi ela que me disse para aguardar por ti. Só não me disse que serias um gato.

- Pois, gosto do fato dos gatos, mas já usei outros. Geralmente, as crianças gostam de gatos, o que é o teu caso. Se não gostasses teria de me vestir de outra maneira, pois é importante não teres medo de mim.

- Eu não tenho medo de anjos. Eu vejo anjos há muito tempo, mas nunca tinha visto o meu anjo da guarda. É a primeira vez – disse Samara, soltando um sorriso.

- Confesso, estou surpreendido contigo. Já sabia que eras uma menina especial. Observo-te desde o teu nascimento, mas não tinha reparado que eras tão especial. É engraçado…

- Mas como é que tu te chamas?

- Eu sou Hadi, e como já o sabes sou o teu anjo da guarda.

- O que vieste fazer? – perguntou Samara que perdera o sorriso de há pouco. As lágrimas secaram, mas o seu coração continuava a chorar.

- Vim ajudar-te. Estou cá para te dar o alento que precisas. Eu quero que sejas uma criança muito feliz. A tristeza enche a barriga de amargura, a alegria de luz. Quero atear o lume que tens no teu coração, que está frouxo, muito frouxo…

- Espero que tenhas trazido muita lenha, pois, caso contrário, não vais conseguir fazer arder a chama de que falas.

Hadi observou as linhas do rosto da sua protegida e olhou dentro do seu coração, pois os anjos são mestres nessas coisas de verem dentro dos corações. Fechou os olhos e suspirou.

- Isto está grave, muito grave. Estás doente! – disse Hadi com muita seriedade, como se fosse um médico.

- Adoeci desde a morte da minha mamã. A minha alegria foi-se embora com ela – respondeu Samara com uma voz seca, como uma planta à míngua de água.

- Eu entendo, mas como te disse vim para te ajudar. E tenho uma surpresa para ti. Espero que gostes de surpresas. Esta vai ser a valer…

Monday, July 10, 2006

A estrela que se sentia só - II


(Petite boule - Paul Journet)

II

A milhares de anos-luz afastados do nosso planeta vivia uma estrela. Era redondinha como uma melancia e azul como o mar. Nascera há pouco tempo e ainda não sabia nada da vida. Sentia-se muito só, como uma rosa no meio de um deserto. Todos os seus dias eram passados a choramingar. Todos os dias ela expunha a sua tristeza a um belo sol vermelho que morava na mesma aldeia do seu espaço. Até hoje, nunca houve resposta. A estrela não sabia se o sol não a ouvia ou se, simplesmente, era mudo. Tudo isso aumentava ainda mais o seu desespero e foi assim que as suas lágrimas criaram um grande oceano.

O mar de lágrimas que a estrela chorou recobriu quase a totalidade da terra que a compunha. Digo quase porque permaneceu intacto o cume de uma montanha onde a água ainda não tinha chegado. Nesse cume erguia-se uma árvore frondosa, a única árvore em toda a extensão da estrela. A sua raiz era tão grande que passava por baixo da montanha e do oceano. A raiz fazia lembrar uma mão com dedos muito compridos. A árvore nasceu mais ou menos na mesma altura que a própria estrela. Eu até te vou confessar um segredo, a árvore não é mais do que o coração da estrela, um coração jovem e cheio de vontade de conhecer os lábios da alegria.

Um dia, enquanto a estrela se lamentava da sua sorte, uma bola luminosa apareceu junto da árvore. Era um anjo. Será que consegues imaginar um anjo? Será que tem asas, como vem descrito na maioria das histórias? O que é um anjo? É uma pessoa ou a imagem de uma pessoa querida? Deve ser difícil de imaginar um anjo, mas eu vou-te ajudar porque o anjo da nossa história não tem nada a ver com os anjos que conhecemos. O nosso anjo não tem asas e ainda por cima é peludo. Sim, peludo, e tem uns bigodes brancos compridos, da cor das suas patas e da sua barriga. O resto do seu corpo é revestido por um cinzento claro, com umas listas pretas. E os seus olhos, esses, são azuis como o céu. Já adivinhaste? O nosso anjo é um gato. Sim, um gato. Parece-te estranho? Porquê? Eu nunca vi um anjo! E tu? Vamos lá então conhecê-lo.

Sunday, July 09, 2006

A estrela que se sentia só - uma estória para crianças e crescidos


(A grande família - René Magritte)

Parte I


Nem sempre o que parece estar longe o está realmente. Nem sempre o que temos ao nosso lado está ao nosso alcance. A história que te vou contar é a história de uma estrela que vivia muito longe de nós, mas que, afinal, não estava assim tão longe. O coração sabe do que estou a falar. Ele encurta todas as distâncias, sobretudo quando se trata de uma estrela.

A estrela da nossa história ainda não tem nome. Ela não teve a felicidade de ter um pai e uma mãe que a criassem. As estrelas não nascem como nós. O nascimento de uma estrela é algo de maravilhoso, como um fogo de artifício. É como se houvesse uma explosão de cores: muitas cores e muito brilho para darem origem a uma nova vida. Infelizmente, o que as pessoas grandes ainda não sabem é que as estrelas são muito choronas, como os bebés. É verdade! Quando uma estrela vem ao mundo ela traz na mala do seu coração uma tristeza muito grande. Porquê? Isso é o que vamos tentar descobrir com a história que vos vou contar.

Saturday, July 08, 2006

A poeira da espera


(Roda Festiva - Espiga Pinto)

A poeira da espera socalca as tuas mãos
urdidas de luas e de poentes que se desvanecem
na amargura lenta e sombria dos dias de Outono.
Por que não ouves o latejar da aurora
calma e serena a oferecer o seu corpo de luz
aos teus dedos de barro? Perdeste a bússola?
Perdeste o norte da caminhada dos iniciados?
Não soçobres as tuas lágrimas na vertigem do abismo
a hora ainda não chegou, Orfeu ainda não se revelou
e a tua tarefa de prata, de liberdade clandestina,
um dia à criação o seu cântico entoará, e nesse dia
a alegria dos sonhos esquecidos da penumbra brotará.

Monday, July 03, 2006

Sentir
















(O enigma sem fim - Salvador Dali)

Sentir é uma medida lunissolar airosa
na fenda do coração cicatrizado
que inspira e expira flores e gumes de cera
numa cadência muito própria, muito pessoal.
Não se pode governar barco sem leme
nem marear oceano sem embarcação.
Mas como, sem batuta, dirigir a sensação?
Talvez sentir seja ser rio, fluindo, algures
sem arrimos, mas ir movendo as pulsões até um destino

sempre certo, sempre seguro de que tudo converge ao seu encontro.

Tuesday, June 20, 2006

Que rosto se esconde por detrás da imagem do espelho? Que alma oculta desenha os traços da luz sem a essência revelar? Não posso deixar de me olhar e de me espantar com as linhas de um rosto que me parecem estranhas. Será que é mesmo esse o meu verdadeiro rosto: meus olhos, meu sorriso, minhas lágrimas?! Nada sei do que vejo. Nenhuma certeza me aporta o coração com o alívio da luz. Revisto o âmago com sangue e ossos e pele para o proteger, mas nada passa de uma veste demasiado frágil, momento sereno da nossa eterna debilidade. E de tudo o que julgo ver são os meus olhos que mais me intrigam. Talvez seja da íris, da cor do ébano, a exultar a profundidade do meu ser. Talvez seja do brilho ignoto a dimanar uma linguagem esquecida. Não sei… Dizem que os olhos são as portas da alma, mas se fossem portas significaria que teriam entrada e saída. E eu não vejo nem entrada nem saída. Vejo uma imobilidade rutilante, uma vida presa numa esfera a dizer-me algo que as palavras não entendem. Angustia-me não saber decifrar o mistério do brilho. Magoa-me olhar para um reflexo que tudo me venda. Talvez a visão seja somente outra forma de cegueira e Rimbaud tivesse razão: a verdadeira vida está alhures; alhures onde as formas não têm feições e onde a vida é uma fonte sadia a brotar uma desconhecida harmonia.

Thursday, June 15, 2006

Mesclado

Ouvi um choro arrastar-se do fundo da noite

Eras tu? ...

Senti uma lâmina rasgar uma alma em fiapos

Também sentiste?...

Não acordei do sonho que continuas sonhando

Mas sonho ouvir a esperança de um dia te acordar

(tela de Paul Journet: LAME DE FOND)


Ele não queria ter corpo porque era espírito

Era espírito mas não sabia o que era ter corpo

Ele era corpo e não sabia o que era ser espírito

Ele queria ser espírito para deixar o seu corpo



(tela de Paul Journet: SILHOUETTE CREPUSCULAIRE)

Tuesday, June 13, 2006

FELIZ ANIVERSÁRIO




















Poeta-médium

Ouço as vozes que por ti passaram
como brisas argentadas a colorirem a Verdade
nas suas faces múltiplas, nos seus ângulos infinitos.
Caeiro, Soares, Reis ou Campos, qual o poeta
imbuído da limpidez dos anjos, de bocas redondas?
Qual deles, nobre Poeta, te fez sentir mais tu que outro
ou talvez mais outros que tu próprio?
As vibrações ressoaram em ti como música hialina
e os sopros de além-terra te guiaram às portas da origem,
único sítio onde a diversidade se torna una
lá, onde a unidade é a junção dos elos separados
e por ti, em poesia, num grande Poema reconfigurado.
Há luzes que não se finam, nem nunca se perdem
nos limbos da criação extrorsa e tu, poeta-médium,
foste o elo basilar das Vozes que ousaram regressar à terra.

Monday, June 12, 2006

Jacek Jerka
O símbolo revela o que está aquém da nossa vista e além do nosso entendimento.




Jacek Jerka

pintor polaco

tela: Erozja

Tantos caminhos possíveis para ir desaguar num só e mesmo sítio....

Friday, June 09, 2006

Saber olhar


Talvez me baste fitar o latejar sorridente das estrelas
para perceber que as veias salientes do silêncio
se desdobram na veste sem fim da íris láctea
e que tudo nasce mais fundo e mais além do que se julga
e que a génese são meia dúzia de chamas e de gotas
que se espalharam na fronte do sopro universal,
crescendo como hastes transparentes que se avistam
na noite do sono, luar do pensamento,
e que toda a matriz dos elementos é tão misteriosa
como o sibilar do vento: ignoto no seu palrar.

Thursday, June 08, 2006

UMA CEGUEIRA NUNCA VEM SÓ - Parte I

(um conto feito a partir do Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago)

Nunca ninguém conseguiu explicar o fenómeno que acontecera. Uma cegueira geral, contagiosa ao olhar e, ainda por cima, branca como o leite. De facto, o mundo andou muito estranho durante aquelas semanas de cegueira. Os melhores especialistas nada descobriram, mas os devotos de Deus, e de outras religiões, esses, não se calaram. Tudo fora um castigo terrível para punir o ser humano, e uma segunda oportunidade tinha-lhes sido concedida. Mas, infelizmente, uma cegueira nunca vem só…

*

A ordem na cidade não ocorreu de um dia para o outro, como devem d’ imaginar. A imundice era tanta que nem as cidades da idade média tinham tal aspecto. O ar tinha um cheiro fétido, misturado com uma fragrância recente, a alegria da população sobrevivente.

Os primeiros dias foram de festa, as pessoas pulavam e dançavam a torto e a direito. Nunca tal coisa tinha acontecido na história da humanidade. Já houve muitas calamidades, como tufões, terramotos, bombas nucleares, mas nunca uma cegueira geral, muito menos branca. Morreram muitas pessoas durante aquelas semanas. O número era incalculável. Corpos em estado de decomposição jaziam nas avenidas e estradas das cidades. O mesmo acontecia nos centros comerciais, onde a fome e o vandalismo tinham dilapidado os bens das grandes superfícies. Lentamente as pessoas voltavam para os seus postos de trabalho, pelo menos os que tinham sobrevivido ou cujo local de trabalho ainda existisse.

O mundo parecia ter saído de uma idade das trevas. A electricidade voltou a funcionar, os computadores e os automóveis também voltaram a entrar ao serviço do homem. Mas algo estava diferente. Algo tinha mudado e as pessoas não o notavam…

*

Convém, talvez, informar o leitor que um caos nunca vem só e que a ordem encontra sempre uma forma de se organizar, apesar de tudo parecer estranhamente confuso e desordenado.

Num dos bairros da cidade, onde a cegueira branca pela primeira vez irrompera, um grupo de sobreviventes recompunha-se da desgraça sofrida. Um bombeiro, uma enfermeira, um professor de literatura, uma empregada de mesa e duas crianças, uma menina de 12 e um rapaz de 9 anos, separados das suas famílias, obravam em conjunto para se reorganizarem, como o haviam feito aquando da epidemia.

Poderem ver-se uns aos outros era como se descobrissem um mundo totalmente novo, passar da noite escura para a luz clara do dia. Ver a fisionomia das vozes que ouviam, mas que só a imaginação conseguia arquitectar era, de facto, algo de inédito e de estimulante.

A voz meiga e suave da enfermeira não correspondia propriamente ao que o bombeiro imaginara dela. Sempre imaginara uma mulher bonita e pequena, uma morena simpática, permanentemente ao dispor dos seus pacientes, como fora o caso durante aquelas semanas angustiantes. Infelizmente para ele, a realidade trouxera-lhe outra perspectiva, não que a enfermeira deixasse de corresponder interiormente à doce filigrana da sua voz, mas, digamos que não correspondia ao perfil idealizado. Era rechonchuda, tinha o cabelo preto e liso, e um belo par de olhos castanhos. Porque será que uns quilinhos a mais ofuscam a visibilidade de quem pretende conhecer a verdadeira beleza de uma pessoa? Vá-se lá saber! O homem precisa do seu sentido mais apurado para tirar as suas ilações, a saber, os olhos…

O bombeiro tinha presença. Ele fora um elemento chave durante o período de sobrevivência. Era alto e magro, tinha um porte atlético, não como certos bombeiros voluntários barrigudos e desleixados; corajosos, mas, para certas situações, incapazes de cumprir plenamente a sua missão, devido a limitações físicas obvias. Ele vivia o seu ofício intensamente. Era todo ele fogo no seu interior; acção em combustão, um contra-fogo para os fogos da vida real. Os seus olhos tinham a cor do mar e o seu cabelo era cor de palha. Era um homem com temperamento difícil, agitado como as ondas do oceano. Tinha os defeitos que tem, rabugento, teimoso, e por vezes antipático, mas nunca deixava de ajudar quem precisasse, e não era por ser bombeiro. Há pessoas assim, por baixo de uma carapaça de pedra, vive uma pequena chama que acalenta o coração de quem necessita. Mas, vá-se lá perceber a razão dos feitios serem o que são? Talvez sejam a réplica do universo, gazes em constante confronto, que explodem e implodem, e a partir dos quais os planetas e as galáxia se formam e se disformam, na grande impermanência da vida. Ou talvez sejam o resultado de muitas quedas na vida, obrigando constantemente a uma mudança mais defensiva, uma espécie de muralha protectora, transparente para certas pessoas, como é o caso da menina…

A menina do grupo era a pessoa mais calada. Por vezes, o silêncio que se formava à volta dela era tão intenso que parecia ter desaparecido da superfície da terra. Havia uma ligação muito interessante entre ela e o bombeiro. O bombeiro não conseguia evitar uma atitude paternal perante a menina, crescera dentro dele uma ponte invisível, que o ligava a ela de uma forma muito peculiar, algo de seguro e firme ao mesmo tempo. Parecia que se conheciam há imenso tempo, como se as suas relações fossem fruto de um conhecimento mútuo, desenvolvido durante várias vidas passadas. Era estranho, mas ambos nutriam o mesmo sentimento e ninguém o questionava. Ela via através dele, como se vê através de uma janela, isto apesar de ser cega à nascença e de nunca ter visto uma única vez os raios do sol. A escuridão era o mundo dela, e ouvir falar em cegueira branca era confuso para ela. Primeiro, porque o seu vocabulário conhecia as palavras relacionadas com a cor, mas não as entendia. E, depois, porque a verdadeira cegueira não tem cor. Ela conhecia a cegueira do mundo, aquela cegueira que todos se recusavam a ver. De certa forma, durante a epidemia branca, ela sentia-se com peixe na água, mas, ao mesmo tempo, não conseguia evitar um certo desconforto que a situação lhe causara. Perdera os pais como muitas crianças, e a dor ferira-lhe o coração como a lança de Longinus, o centurião que espetara o flanco de Cristo. Mas esse desconforto, essa dor que emergira no mais profundo de si mesma, era algo que estava pr’além da perda dos seus pais. Não sabia explicar. Sentia-se como aquele gigante que transportava o peso do mundo em cima dos seus ombros. Ela sentira que aquela cegueira não tinha sido uma cegueira normal. Sempre soube que acabaria por passar.

A terra tem maneiras muito estranhas de comunicar e de exprimir a sua vontade. O mal-estar não desaparecera com o flagelo que os assolara, mas aninhara-se confortavelmente no seu imo; à espera, à espera de quê?

O professor analisara tudo sobre todos os ângulos analisáveis. Fizera um grande esforço intelectual para perceber o que provavelmente nunca terá explicação. Durante a cegueira, quando a temperatura começava a baixar, e todos pela hipotética noite aguardavam, contava-lhes as muitas estórias de mitologia grega que conhecia, pois desde pequeno sempre nutrira um grande fascínio pelas alegorias dos gregos. Quem de todos o ouvira sempre com redobrada atenção eram as crianças, mais especificamente a menina, que parecia registar tudo na sua cabeça, como um computador. A estória de Édipo fora naturalmente contada, pois é um dos cegos mais conhecidos e estudados no mundo da literatura e da psicanálise.

Horas nocturnas do ser

Sombrios são os recessos do Ser que albergam os sonhos da aurora. São lugares ignotos num mundo sem forma, onde luz e treva se mesclam para produzir o lume da quintessência. É estranho ouvir a voz do Nada. É estranho sentir os laivos da energia criadora percorrer a carne putrefacta, como se os sentidos enganadores pudessem reencaminhar a Voz até à lura da revelação. Algo de imortal persiste na vida mais ínfima do corpo. Algo se recolhe nos poros da respiração e expira o sopro da primeira manhã, que se incrustou na íris de todos os olhares, tez de todas as cores. É esse algo que se alberga e que se revela sem que a mente o capte e apreenda. É uma beleza que se ausenta para melhor fundir e confundir os que um dia serão tocados pelo raio superior. E algures, disseminado por toda a parte, um espírito retido no seu casulo se prepara, para a viagem, um caminho iniciático enraizado nas brumas encasteladas da alma.

A luz inominável

Uma vela arde na noite do silêncio e obriga o Oleiro a imaginar o seu rosto de fogo, os seus braços de papel incendiado. Algo de invisível soergue-se do seu íntimo e incita-o a moldar o barro esquecido. Algo que não sabe nomear. Talvez o Belo. Talvez a chama inicial, quando as estrelas ainda não eram estrelas mas pó seduzido pela forma, gelada e perene. Ele não sabe explicar. Ouve e recorda-se com o coração o que os olhos jamais avistaram. Ele sabe, no seu íntimo, que sempre houve uma chama a fulgir uma aurora insone, mesmo ténue e atormentada pelas dores que a afligem. Por isso se tornou Oleiro, por isso burila a massa que são lágrimas de um anjo, um ser que sofre por ser fogo e não queimar.

A criança e o girassol

Certo dia, uma criança que adorava brincar com as flores do seu jardim olhou fixamente para um belo girassol. Era grande e tinha umas pétalas fulvas, torradas de tanto espreitar o sol. Era diferente de todas as outras flores, não só por causa da sua dimensão, uma corola mais ampla, com umas pétalas a lembrar labaredas a adornar o seu centro, e um caule alto e rijo a erguer a majestade da sua postura, solar por natureza.

A criança aproximou-se do girassol para inalar a sua fragrância e com a sua mão direita ceifou-lhe o caule. Pegou com cuidado nesse pequeno tesouro que queria guardar só para si e sentou-se num tronco de madeira perto do jardim. Ergueu o girassol e girou-o lentamente na claridade do dia. Os seus olhos contemplavam a beleza desse pequeno ser vegetal que, misteriosamente, a fascinava.

- Também tu gostas do meu girassol? perguntou-lhe a Voz…

- Sim… Tem algo que não consigo explicar… Porque será que gosto tanto desta flor? retorquiu-lhe a criança com um ar muito cândido, mas ao mesmo tempo intrigado.

- Talvez por seres precisamente como essa flor… O girassol é uma das minhas criações mais devotas, a sua sinceridade é genuína e a sua entrega total.

- Sinceridade? Entrega total? O que queres dizer com isso? Estamos a falar de uma flor, não de uma pessoa! Posso ainda ser uma criança e não saber muita coisa, mas isso eu sei!

- O teu coração apaixonou-se por esta flor como uma mãe se apaixona pelo seu recém-nascido. Não houve grande diferença na intensidade do sentimento que acalentaste. Todos os seres contêm a virtude do meu amor. Todos os seres amam. Não penses que amar é um dom exclusivo do ser humano. A minha beleza é múltipla e está espalhada em toda a minha criação. Assim como tu, que também fazes parte da minha beleza.

- Mas… Como pode esta flor servir-te? Como pode ela se entregar a Ti? indagava a criança num tom perplexo, desconcertada pelo que acabara de ouvir…

- O girassol é uma das poucas flores que incansavelmente me buscam. Onde eu estou, ela por mim procura. O seu olhar essencial acompanha-me onde quer que eu esteja, mesmo nos dias em que não me deixo ver por ninguém. E são vários os dias em que me torno invisível, mas sempre presente, sempre ao lado de quem me requisita. O que o olhar deixa de ver a alma o absorve, como este girassol, que empala dentro de si o meu amor. E isso comove-me, essa entrega, essa devoção!

A criança pensava em como podia ser possível comover-se com um ser inanimado. Não que não gostasse de flores, antes pelo contrário, mas ao ponto de se comover…?

- Comoves-te?! Com a tua própria criação?! afirmava a criança em jeito de pergunta.

- Sim, comovo-me sempre quando vejo a direcção que um dos meus filhos escolheu. Tens de entender algo de importante. Eu crio, mas quem decide do percurso que quer seguir não sou eu. Eu dou a liberdade de escolher para onde e como querem crescer. Não interfiro nas evoluções individuais. Deixo as minhas criações descobrirem-se e descobrirem-me. Estou sempre presente, observo-as constantemente, mesmo quando me acham ausente. E o girassol é um belo exemplo de um ser que me compreende. Um ser que se alimenta da minha luz. Por isso, serve de exemplo a quem o quer seguir. Talvez seja essa a razão do teu fascínio por esta minha flor…

- Queres dizer que sou como o girassol? Que te procura incansavelmente? Que eu olho para ti mesmo nos dias em que não te vejo ou não me respondes?

- Sim… A luz que te anima, a pureza que o teu coração por mim nutre, é a tua vontade de seguir a vereda da luz, aquela que te levará até ao meu lar. E as tuas acções são o testemunho da luz que te habita. Contemplas o que te rodeia com candura e serves com compaixão quem a ti recorre. E seres criança em nada diminui a tua tarefa. O beijo de reconforto que deste à tua mãe, no dia que ela estava triste, foi a expressão do meu afecto, que através de ti se realizou. Deixaste-me falar através de ti, nesse dia, como noutros.

O carinho que nutres aos que te rodeiam permite-te seres como o girassol. Fiquei muito feliz quando te tornaste amiga daquela criança cigana que os teus colegas na escola maltratavam. Ofereceste-lhe o teu lanche, apesar da fome que o teu estômago sentia, porque sabias que ela ainda não tinha comido nada durante todo o dia. Puseste em prática, sem o saberes, alguns dos meus ensinamentos mais importantes…

- Quais?! queria saber a criança, surpreendida por, sem o saber, conhecer alguns dos seus ensinamentos.

- Independentemente da opinião colectiva dos teus colegas na escola, não hesitaste em ir em auxílio a quem precisava, e não é preciso muito para ajudar alguém. Às vezes, basta um sorriso, um gesto, ou uma palavra amiga. Não hesitaste em abraçar quem era diferente de ti, porque percebeste que o meu amor não escolhe raças ou crenças. Eu sou o Criador e amo toda a minha criação, sem excepções, da mesma forma. Puseste em prática um dos meus ensinamentos mais importantes! Ajudar o outro é ajudar-se a si próprio. E ajudar-se a si próprio é aproximar-se de Mim.

Este jardim que tantas vezes vens contemplar não é só composto de girassóis. Está repleto de outras flores e plantas que também me servem, ao servirem-te a ti e aos teus. O meu reino é maior do que tudo o podes imaginar, mas neste simples jardim está em exposição uma pequena parte do meu reino e a forma como funciona. Se souberes olhar, entenderás. Quando entenderás serás verdadeiramente livre!

A criança percebera que por detrás das formas existe uma dimensão oculta e vasta. E que uma simples flor pode representar todo um jardim. E, sobretudo, que tudo no seu jardim foi criado com um propósito. Nada foi deixado ao acaso. E uma simples flor pode significar imenso, desde que se entenda o seu contributo e o lugar que tem no mundo.

- E tudo isto por causa de um girassol…?!

Num tom carinhoso, mas paternal ao mesmo tempo, a Voz exprimira a sua última observação:

- Minha querida filha, o girassol oculta muito mais do que aparenta. Todos vós ocultais sentimentos e esperanças que ainda desconhecem. Mas se procurarem, ser-vos-á revelado o meu Ser, e como o girassol, ser-vos-á possível participar no grande desígnio que é a Vida, a verdadeira vida, a do céu e da terra.

Apesar da conversa não ter ficado completamente clara para a criança, ela sabia que algo acabara de ser semeado dentro dela e aguardava que esse algo, um dia, florescesse, e, à semelhança do girassol, se virasse para a Fonte de onde toda a luz dimana…

Hora grave

Qual dia esvaziando-se das suas cores, a solidão irrompe como uma lua púrpura, avassalando cada nesga de luminosidade ainda cintilante, cada recanto do ser à procura de ar respirável e regenerador. É um ambiente fétido e corrosivo que ergue os seus ramos frondosos nos vidros embaciados do olhar. As lágrimas soturnas acompanham a cadência do pulsar da vida, uma vida esmagada, uma vida sem matizes alegres, sem vontade de bradar o grito da liberdade.

Hoje não me apetece escovar os dentes. Hoje nem me apetece tomar o duche que tantas vezes me limpa dos meus pensamentos sombrios. Hoje, de nada me vale sair de casa e ter o mínimo de cuidado com a minha higiene física, pois a minha sanidade emocional está torcida e tudo me parece turvo, como águas sujas e sem transparência.

De onde me virá essa dor que pareço alimentar? Será do emprego? Será dos meus amigos? Amigos? Colegas de trabalho… Eu não tenho amigos, tenho colegas, que se alegram com o meu trabalho. Como não haveriam de se alegrar quando tantas vezes os desenrasco nas tarefas burocráticas, que a empresa continua a alimentar como se alimenta um ogre. Papeis para aqui, papeis para acolá. Requisitar a autorização para isto, para aquilo. É nisto que o tempo se evapora, nas tarefas enfadonhas da rotina quotidiana. Mas será que o meu mal-estar me vem mesmo dos cinismo e egoísmo que cinco dias por semana vivo? Se olhar bem fundo para dentro de mim sinto que resposta não será tão simples…

Não sou o único a sentir-me abandonado. Basta ligar o televisor e olhar para o horror que diariamente nos avassala. São bombas a explodir, pessoas a morrer injustamente por causa de causas que eu nunca compreenderei, crianças a morrer de fome porque o investimento militar continua a ser mais importante do que a saciedade do estômago. Afinal, não sou o único a sentir-me só… O mundo só pode estar muito só. Há pessoas que, desesperadamente, gritam para serem ouvidas, mas ninguém as quer ouvir, elas não são rentáveis, elas não serão ouvidas… Mas eu, o meu mal-estar, a minha sensação exacerbada de solidão, será que me vem de todos estes motivos? Eu nem conheço as pessoas que vejo na televisão, eu nem sinto na pele o choro convulsivo de quem tudo perde na vida, até a própria vontade de se manter vivo. Então? De onde me vem esta escuridão interior? Eu? Uma criança mal tratada? Já fui, isso já passou… Só durou enquanto a minha mãe se manteve casada com aquele tipo a quem devia de tratar por pai; que estranha palavra no meu dicionário mental, tão feia, tão cruel… Não, isso são águas passadas, as costas exangue, a cara entumecida das chapadas que a minha raiva amparava, isso é tudo passado. Só durou até aos meus 12 anos. Agora tenho 30, já lá vai um tempo.

Deve de haver outra explicação para o meu estado emocional. Deve de haver algo que os meus sonhos me ocultam. Aquele barco que tão recorrentemente me aparece, no meio da tempestade, com a sua vela completamente desfeita, mas que se aguenta com coragem, deve de querer dizer mais do que aquilo que parece. Já não posso confiar nos meus sonhos. Eles não me ajudam. Dilaceram-me ainda mais, quando o que eu preciso é de uma mão amiga que me tire desse barco e me resgate para uma praia solarenga.

Pensar incomoda-me. Em vezes de encontrar soluções, sofro com ainda mais amargura o meu estado soturno. Tenho de acabar com isso, tenho de pôr fim ao meu sofrimento, tudo tem um fim…

Há aquele site que tive a ver no outro dia. Há aquelas pessoas que, como eu, querem uma solução final, a derradeira solução a todos os males do mundo. Sim, eis a solução, eis o caminho que me libertará… Mas tem de ser rápido e limpo, não me apetece sujar por fora o que por dentro já é uma imundice. Tenho de manter a minha dor concentrada. Tenho de manter por fora um ar limpo e feliz, porque vou ser feliz, porque vou deixar de chorar sobre a minha condição de ser humano. Vai ser hoje. Tem de ser hoje. Já não aguento mais. Mas tenho de tomar um banho, tenho de fazer a barba e lavar os dentes. Vamos lá a isso. Agora tenho um bom motivo para sair do meu marasmo. Mãos à obra!

A campainha está a tocar. Quem será? Quem pode a esta hora da manhã querer falar comigo? Será a vizinha? Que me quer ela? Vou abrir a porta…

- Bom dia, o senhor é o Marco Rosa Fernandes?

- Sim, é o próprio.

- Então assine aqui por favor, isto é para si.

- Obrigado sr. Carteiro.

- De nada, e passe um bom dia!

Uma caixa endereçada ao meu cuidado. Mas de quem? Uma Marta Santos… Marta Santos, não, não pode ser da Marta, a Marta, a Marta da escola primária, a Marta que mudou de cidade com os seus pais quando éramos tão amigo. A Marta, a minha amiga de infância, a que sempre me ouvira e me consolava nos meus momentos de dor.

Rasguei a caixa num ápice, o meu coração pulsava a mil à hora, todo o meu ser estava concentrado naquela pequena caixa de cartão.

Um livro e uma carta. Eis o conteúdo. Os miseráveis, de Victor Hugo. Acho que já ouvi falar. Mas por que será que me manda um livro? Abro a carta ainda mais depressa que a caixa.

«Meu querido amigo Marco,

Deves ter recebido esta encomenda com grande surpresa. Foi com alguma dificuldade que consegui obter a tua morada. Depois de tantos anos passados, voltei ao Porto, e não podia deixar passar a oportunidade de restabelecer a nossa amizade. Confesso que, apesar da nossa terna idade, nunca me esqueci de ti. Como prometido, ficaste sempre no meu coração. Nunca te consegui esquecer. Agora que arranjei trabalho numa farmácia da baixa, e que vivo de forma independente, achei que era o momento oportuno para voltarmos a falar. Deves ter mudado muito. Eu mudei, agora uso o cabelo mais curto e com madeixas. Tornei-me numa mulher, que ainda anda à procura do seu príncipe encantado. Espero que tu estejas bem e que a tua vida seja feliz.

Não tenho muito jeito para cartas. Não sei muito bem o que te dizer e acredita que tenho tanto para te contar. Gostaria de te ver. Espero que tenhas disponibilidade. O meu número de telemóvel é o seguinte: 93 260 45 04.

Liga-me assim que puderes, estou ansiosa por te rever.

O livro que te mandei li-o há uns meses. É impressionante Marco, lê-o, vais ver, vale a pena!

Despeço-me de ti com um grande beijo cheio de saudade, esperando voltar a ver-te depressa.

- P.s Aqui vai um poema que achei que devias ler, dum poeta alemão, Rainer Maria Rilke. Boas leituras! Até breve!»

Hora grave

Quem agora chora algures no mundo,

sem razão chora no mundo,

chora por mim.

Quem agora ri algures na noite,

quem, sem razão, ri na noite,

ri-se de mim.

Quem agora vagueia pelo mundo,

sem razão vagueia pelo mundo,

vem para mim.

Quem agora morre algures no mundo,

sem razão morre no mundo,

olha pra mim.

Os meus olhos não queriam acreditar no que acontecera. As lágrimas que os revestiam tinham um sabor a sal, o sal do mar majestoso que parece não ter fronteiras. O sal que condimenta a comida e que lhe dá outro sabor. Os meus olhos choraram de alegria e um arco-íris de corres garridas iluminou o meu rosto. A Marta lembrou-se de mim. Alguém que eu amei e que a vida me retirara voltou a irromper em mim como um feixe de sol.

Cheio de vida e de esperança agarrei no telemóvel e compus -9-3-2-6-0…

A paisagem das horas varia os seus ponteiros consoante o olhar que as observa. Há sempre uma hora que não se revela, há sempre um minuto que não ouvimos, há sempre um segundo para mudar o trajecto de uma vida…

Partilha

Quero hastear com o sopro um diadema de orvalho
e pousa-lo na copa de uma flor, à beira de um rio
e ouvir o secreto marulho das fadas da água
que se deliciam com a luz dos sonhos esquecidos.
Sim, quero falar com o ar, a terra e o fogo
e invocar a secreta linguagem da cidade invisível
porque sou uno no vasto universo, disperso
no seu todo, a recolher o pólen de além-terra
para partilhar com descrentes a verve pura do sol azul

O amigo d'infância (Uma homenagem)

Nessa altura, nunca percebera muito bem o que ele queria dizer com: um dia deixarei os cueiros da realidade para abraçar a Verdade. Ele era uma pessoa, no mínimo, estranha. Tudo o que fazia era sempre feito de maneira diferente, como se fosse incapaz de ser uma pessoa normal. Os óculos de armação escura e redonda davam-lhe um certo ar intelectual, isto apesar de só possuir a escolaridade mínima obrigatória. Sabia ler e escrever, e, claro, sabia do seu valor, e creio que outros, como o Mário, o Fernando, o Álvaro, ou ainda o Zélmada, também o sabiam, melhor do que ninguém. Eles adoravam passar as tardes no café do Martinho, todos juntos, a deambular pelas veigas da metafísica. Lunáticos? Loucos? Eu não lhes chamaria isso. Eram diferentes!
É muito provável que a minha infância tenha sido irremediavelmente marcada por essas personagens, saídas dos melhores livros de ficção literária. E sinto-me feliz por ter participado na grande aventura e, sobretudo, por tê-lo conhecido e ter tido com ele uma relação de amizade. O ensinamento que melhor recordo é o de nada dizer. Era esse silêncio, por vezes constrangedor, que cultivava.
“Não interrompas as palavras do Silêncio. Ele está a recordar a infância da Palavra, e se lhe prestares atenção, ele retribuir-te-á o círio da revelação” dizia ele na sua voz suave, voz de neve a derreter sob o arfar luminoso do sol. Ficava perplexo. Os meus doze anos de idade tinham um efeito paradoxal. Por um lado, percebia perfeitamente o que queria dizer, principalmente depois de termos ido ao mar ouvir as ondas rebentarem e as gaivotas emitirem aqueles sons estridentes, próprios da sua linguagem. Por outro lado, achava tudo isso estranho de mais para mim, como se tivesse aterrado ao lado de um ser vindo de outro planeta. Talvez até fosse de outro planeta e eu o que se encontrava na terra errada. Todavia, a aura que dimanava, não me deixava indiferente e sentia-me atraído pelo seu misterioso saber.
Nunca mais ouvi alguém falar da montanha, dos prados, dos bichos, dos insectos e das plantas como ele. Parecia que ele e a natureza formavam um só e mesmo ser. Sentava-se à beira das árvores e inalava vagarosamente o aroma da natureza, até embriagar-se da sua substância. Ora transformava-se numa raiz, ora num ramo, ora num tronco ou pétala, sentindo-se sempre parte de um todo, maior do que tudo o que se pode imaginar. Atrevo-me a compará-lo a um poema. Sim, um poema, porque o poema é a mais bela e mais perfeita forma de expressão, um organismo harmonioso a revelar as suas epifanias.
A sua alma remia os segredos mais belos que uma mente pode arquitectar. Tenho saudades desse tempo de enlevo. Tenho saudades do meu amigo poeta que sabia mais do que os meus professores e que compreendia o rodopiar do mundo, feito de luz e de sombras, e por isso tão belo e tão redentor.
Hoje esforço-me por preservar a sua memória e tornar-me como ele num pastor do mundo, e ouvir a água escorrer as suas mágoas e o vento ciciar as ladainhas do futuro. Hoje sinto-me um ramo de árvore a mistura-se com a quintessência que nos envolve. Hoje, finalmente, libertei-me das opressões que me dominavam.

Tuesday, November 01, 2005

A igreja circular

Circular é a minha igreja
sem pedras, artefactos ou religião.
É uma folha de salgueiro, uma concha,
um sussurro vindo do rio ou
a presença de uma flor que se pode amar.
Circular é a minha Religião
que se estende pelos feixes da luz
que rodopia na sua crença partilhada
e no ocaso de todos os amanhãs
renasce brotada numa filigrana de poesia azul.

Friday, October 28, 2005

A dor estava estampada no seu rosto. Queria dissimula-la, mas, quando a água ultrapassa os diques que a sustêm, é difícil permanecer com um ar sereno, ou camuflar as costuras incicatrizáveis que o coração ostenta.
A sua vida mudara, a sua dor trouxera-lhe virtudes e amarguras, muitas amarguras… Aprendera a lidar com o silêncio de si próprio. E é tão difícil escutar-se! Não que o silêncio seja algo de pernicioso, não, simplesmente são poucos os que entendem a linguagem misteriosa. Tornou-se poeta! Eu sei, que ideia errada de pensar que todos os poetas são seres tristes e melancólicos, mas a verdade é que ele se tornou mesmo num poeta. E dizem os entendidos que ninguém fala como ele da alma e dos seus desígnios. Diz o ditado popular que “Deus tira de um lado para dar do outro”. Todavia, algumas perguntas persistem: quantos poetas teriam trocado a sua infelicidade por uma vida normal, um casamento, uns filhos e uma esposa (esposo), para amarem e serem amados? Mas se tal tivesse acontecido, será que, muito graças a eles, conheceríamos o interior do nosso ser como o conhecemos hoje? E a dor, não será a dor uma força motora tão grande e tão importante como o próprio amor? As dúvidas mantém-se, bem como os remédios da alma, ainda por inventar…

Tratado da Amizade

Existe, no mais profundo de cada um de nós, um poço repleto de água, uma água que, por vezes, os feixes do sol não acariciam, porque a vontade do nosso ser o não permite. As razões que o outorgam a tal comportamento nunca são razões claras ou explícitas. Florescem sentimentos em nós, à semelhança dos poetas que transportam em si a mágoa do mundo ou de mães que nos seus ventres filhos acalentam. Quem de nós, durante a sua caminhada, nunca transportou um filho da tristeza? Quem de nós nunca abafou a sua voz por já não conseguir falar?
Felizmente, as experiências que o homem vai vivendo são experiências comuns: a perda de um ente querido, um amor desfeito, uma traição incompreensível, um sonho adiado… E digo felizmente, não por me abonar a causas que causam mágoa ou dor. Não, digo felizmente porque somos todos humanos. Que desgraça seria a nossa se nunca errássemos, que inglória seria a nossa nunca podermos sorrir de um feito alcançado com mérito, fruto de custo e dedicação. A evolução de todos os seres é pautada pela capacidade em lidar com a dificuldade e pela sua vontade em crer crescer e acariciar o rosto do sol.
Bem sabemos que o mundo está repleto de pessoas que sofrem de soledade. Mas também sabemos que nesse mesmo mundo existem companheiros de viagem, que nos acalentam o ânimo, que sabem olhar para além das aparências e dizer: Tu és uma pessoa bonita e o sorriso fica-te tão bem! Deixa-me ajudar-te, deixa-me juntar a ti mais um par de mãos e ser o guindaste que precisas.
Aceitar a ajuda de quem nos quer bem nem sempre é fácil. Nem sempre é fácil dizer quão só nos encontramos, e que, por mais bem que nos queiram, não há ajuda que nos liberte do nosso fardo. E quantas vezes não choramos compulsivamente dentro de nós?, náufragos de um barco que não escolhemos, reféns de uma ilha que não sabíamos sequer existir. Uns dirão que a vida não é fácil. Outros, que somos nós que dificultamos a vida, que a vida é bela se a soubermos sorver. A verdade de tudo isto é que ninguém escolhe voluntariamente a sua tristeza. E, por isso, se erguem os amigos, aqueles familiares escolhidos por nós, para nos relembrar que foram criadas tochas num mundo abalado pela escuridão.
Um dia, também eu fui abalado pela treva. Um dia, o meu lar desabou sobre mim e as paredes, então belas e sólidas, se transformaram em ruínas, as minhas ruínas… Sobrevivi. Sou um sobrevivente, como tantos que vejo passear pelas ruas. As minhas chagas cicatrizaram, o meu coração voltou a pulsar e a minha dor amainou.
Hoje, recordo esse tempo com um sorriso nos lábios porque foi precisamente nessa altura que a luz me envolveu, a luz dos meus amigos, a luz de quem sempre me quis bem. E o que ainda hoje me surpreende é o estado de cegueira no qual me encontrava. Não sabia que tinha tantas pessoas a querem o meu bem, sem nada pedirem em troca, a não ser a minha amizade.
O tempo passa, o rio segue o seu curso, assim as vivências que através de nós flúem. Rostos novos erguem-se nas nossas vidas para nos mostrar um jardim feito de diversidade, de cores e de feições diferentes. Novas amizades e amores rebentam das suas sementes para se enrodilharem à volta do nosso coração.
Dou graças a Deus por ter os amigos que tenho e dou graças ao Céu pelos que ainda me faltam descobrir. Do pouco que até agora aprendi, fica uma certeza: nunca se está completamente só, nem os obstáculos são tão espinhosos como inicialmente imaginamos. E com amigos, tudo é suportável, tudo é superável, até mesmo as doenças da alma.

Compreender o sagrado

Quem não vê o sagrado na textura de uma folha,
no chilrear de um pássaro vivo e alegre,
não sabe o que é Sagrado, não pode compreender!
O sagrado manifesta-se nas formas, mas é Essência,
é uma dinâmica muito subtil que se move,
que flui e reflui pelo crepitar do sangue cálido
tão vermelho no seu rosto, tão reluzente na sua vida.
Para sentir a energia dos laivos da existência perene
é preciso não ser, não ver, e eclodir a visão interior
como uma flor dos bosques em busca do calor
ou uma andorinha melodiosa a namorar o sol.
Nem tudo se compreende, nem tudo se avista
e somente a nobreza da alma consegue ser espelho
das revelações interiores, exteriores no reino vegetal,
união de opostos que se completam nas suas formas
como um tálamo, um misterioso anel de prata dourada.

Tuesday, October 11, 2005

Ser

Porquanto a medida do que somos está na medida do que sonhamos

Reflexão para fora, vista de dentro

Recostado na poltrona do meu espírito, penso nos dias que passam, mas que não sinto passar. Ontem tinha vinte anos, hoje, somo outros tantos, e continuo sem saber se vivi ou se sobrevivi ao estado elanguescente da vida mundana.
Não sei se o tempo é igual para todos, ou se o meu, por ser meu, me parece diferente daquele que nos envolve. Talvez possa conjecturar dois tipos de tempo: um, colectivo, outro, individual. Quando me revejo na idade onde o limite era o infinito, penso nesse tempo que me perpassava, mais colectivo do que individual, daí eu hoje sentir o peso das rugas que o meu coração carrega. Tudo era possível. Tudo estava ao alcance de um pestanejar de olhos. Algo de maior dava-me a força de sonhar e, por isso, de me sentir parte da grande engrenagem que nos move. Mas hoje, tudo mudou! O vigor dos meus sonhos retraiu-se à esfera do meu carpir, que reclama um tempo mais justo e menos doloroso. Eu não sou velho, mas a idade do tempo individual é a responsabilidade de meditar sobre o edifício que construí. Olho ao meu redor e não sei, não sei se construí. Não sei se estagnei com o receio que me inibiu de altear um castelo que parecia flutuar nas nuvens. Nada sei, mas disse-me o tempo, ao longo da minha caminhada que construir e plantar era dever de qualquer ser. Assim como a abelha que recolhe o pólen das flores e o traduz em mel ou a aranha que fia a sua teia para capturar mosquitos e outros parasitas incómodos, todos temos de obrar para um tempo maior, um tempo interior. Talvez o interior seja o mais difícil de alcançar, mas por isso mais belo e mais preparado para enfrentar as dificuldades intempestivas do destino. Nada sei, a não ser talvez que construir é o único acto imbuído de vida ou vontade de permanecer vivo nas veias do tempo.