Saturday, July 29, 2006

colei um búzio junto às tuas recordações
falou-lhes de sonho e de esperança a quererem desabrochar

Friday, July 28, 2006

eu sei que tu não sabes que eu sei que pensas saber
eu sei que tu não ouves o que eu sei ouvir sem saberes
pára, não me ouças, é a tua tristeza a querer desaparecer

não queiras queimar a tua respiração na minha pele
um sussurro de giz desenha a minha vontade no teu corpo

para onde vão os teus lábios?
que me sorvem como raiz de água
e se insinuam no peito à madrugada

não me calo, não me posso calar
é a minha boca a querer dançar nos teus lábios

prefiro que não me olhes
prefiro que não sejas sol a marulhar
ou lua a arfar os raios da noite

prefiro ser um suspiro
na tua boca

a transportar-me para longe

na tua pele a lua tece o orvalho matutino
uma mão cheia de luz te pega
te rodopia lentamente para avistares o sonho
e ali, tão distante, mas tão perto, te observo

ali, tão longinquamente perto, te respiro
até sentir crescer em ti o meu coração

Thursday, July 27, 2006

A estrela que se sentia só - parte VI



VI

- Onde estamos? – perguntou Samara, cujos olhos e coração brilhavam de curiosidade.

- Estamos no Átrio dos Caminhos Possíveis. Este é o local onde tudo acontece – respondeu Hadi com a sua cauda a abanar.

Samara e Hadi encontravam-se numa espécie de pátio com três grandes portas. Duas das três portas estavam abertas e uma mantinha-se fechada. Uma bruma misteriosa envolvia as portas abertas e não permitia ver o que se encontrava por detrás das mesmas. Todo o sítio estava empregando de um ar misterioso e sagrado. Parecia que estavam no centro do mundo, como o centro de uma teia de aranha, onde tudo converge ao seu encontro. Junto às portas erguiam-se duas bétulas de tamanho imponente. Os ramos das árvores recobriam os lintéis, parte superior das portas, curvando-se numa espécie de abraço fraterno. A paisagem que a menina e o anjo-gato tinham à sua frente era, de facto, muito bonita. Tanto as portas, como as árvores, pareciam reluzir uma vida muito diferente daquela que nós conhecemos. A harmonia dos céus florescia naquele local e todos os sonhos do mundo vinham beber a serenidade daquele espaço.

- O que está por detrás das portas? – interrogou Samara, com a sua curiosidade a crescer de minuto em minuto – Diz-me, Hadi, o que é este Átrio dos Caminhos Possíveis?

- Vai ser difícil eu te explicar isto de maneira a que entendas toda a importância deste local, mas vou tentar. As três portas que tu vês são as entradas que dão para três jardins. Do teu lado direito tens o Jardim das Flores Eternas. Ao centro, a porta que se mantém fechada, dá acesso ao Jardim do Esquecimento, onde nem eu tenho autorização para entrar. E, por fim, do teu lado esquerdo, tens o Jardim das Estrelas, o qual iremos brevemente atravessar.

- Por que é que a porta do Jardim do Esquecimento se mantém fechada? Tu, que és um anjo, devias poder passar por todas as portas, não achas?

Hadi sorriu amavelmente para Samara e, sem avisar, saltou para cima do ombro direito da menina, quase fazendo-a cair. Felizmente, ela conseguiu segura-lo sem se desequilibrar. O anjo-gato ainda teve direito a umas festinhas dadas com muito carinho.

- Nós, os anjos – sussurrou ao ouvido de Samara – não temos acesso a todo o conhecimento. Nós sabemos muitas coisas sobre como a vida funciona, a tua e a de todos os seres vivos na Terra, mas há coisas que nos são veladas. Um dia, talvez, se eu o merecer, terei direito a entrar pela porta do Jardim do Esquecimento. Dizem anjos muito respeitados na nossa comunidade, e que muito têm reflectido sobre o assunto, que este jardim é o jardim do início de tudo. Dizem que esquecer é renascer. Lamento não te poder responder melhor do que isto à tua pergunta, mas deixo-te imaginar uma resposta, a tua resposta.

- E os outros dois jardins, para que servem?

- O Jardim das Flores Eternas é um jardim sem fim, onde cada flor representa uma vida já nascida ou por nascer. Digamos que cada alma tem direito a ser representada por uma flor, sem excepções, quer sejas bom ou mau. Nesse jardim não se fazem distinções entre as flores. São todas diferentes. A única coisa que as liga é a terra onde estão plantadas. É ela que lhes fornece o alimento para crescerem, a água, se preferires. Mas, como deves imaginar, aqui, a vida não funciona bem da mesma forma que na Terra, mesmo sendo muito semelhante.

- Queres tu dizer que algures naquele jardim sem fim, povoado de milhões e milhões de flores, está a minha flor, eu?

Hadi sorriu. O anjo-gato tinha engraçado com a sua protegida. Via todo o seu interesse nos grandes mistérios da Vida e isso animava-o. Já tinha sentido que Samara era muito grande por dentro e ajudá-la a desenvolver ainda mais o seu interior era uma honra à qual ele não queria falhar.

- Sim, tu és uma flor e estás naquele jardim. Mas também eu e a tua mãe estamos representados por uma flor no mesmo jardim.

- A minha mãe? – perguntou surpreendida Samara – Mas, a minha mãe… morreu…

- Então Samara? Tu sabes perfeitamente que ainda está viva. É claro que já não está contigo fisicamente. É claro que os teus olhos já não a podem ver. É claro, tudo isso! Mas também é claro que tens conversado muito com ela. É claro, também, que a sentes contigo, no teu coração, mesmo não a vendo. E também é claro que a morte não é um fim em si, mas uma mudança, como uma lagarta que se transforma numa bela borboleta. Eu sei que já sabes isso tudo, mas a tua tristeza impede-te de aceitar o que dentro de ti sentes há quase um ano.

Samara esgalhou um sorriso e deu um beijinho ao seu amigo Hadi. Uma cumplicidade muito bonita estava a crescer entre os dois. Tal como os gatos que conheces, também Hadi gosta de mimos e nunca se priva deles. Quanto mais melhor. O coração aquece sempre com a ternura que lhe é ofertada. E quem não gosta de miminhos?

- E a nossa porta, a que nos vai levar para o Jardim das Estrelas, o que é ao certo?

- O Jardim das Estrelas é o jardim que alberga todas as estrelas do universo. E no vasto universo existe uma estrela que te quero apresentar, pois todos nós temos uma estrela, a nossa estrela. A tua estrela precisa de ti, bem como tu precisas dela. Esta é a porta que nos pode levar a qualquer sitio do mundo num piscar de olhos. É por aqui que passo, quando as minhas viagens ficam muito afastadas do planeta Terra. Anda, vamos entrar…

- Não se vê nada, Hadi. A bruma não me deixa ver nada!

- Não tenhas medo, entra! A bruma vai dissipar-se.

Hadi e Samara atravessaram em conjunto a porta do Jardim das Estrelas e pararam numa espécie de pedestal que se erguia de um vazio sem horizonte avistável. À sua frente, milhões de estrelas estavam penduradas, como bolas de natal que se colocam nos pinheiros. A paisagem era maravilhosa. Imagina-te no espaço, envolvido por milhares de estrelas. Seria lindo, não seria?

Samara sentira lentamente os seus pés descolarem do pedestal e o seu corpo girar para uma direcção ainda desconhecida. Com os seus braços fingia ser uma águia cósmica, uma águia conhecedora de todos os recantos do céu, uma águia capaz de atravessar todo o universo sem qualquer dificuldade. Uma alegria intensa e um sentimento de liberdade animavam as suas asas imaginadas. Hadi também já se encontrava a flutuar no vazio. Com as suas mãos, a menina agarrou no rabo do anjo-gato e deixou-se guiar pelo seu amigo e pelo brilho das estrelas. A viagem tinha começado. Os dois amigos encontravam-se a caminho da mais jovem das estrelas do céu.

Wednesday, July 26, 2006

O choro dos anjos



Soturnamente, os anjos regressam a casa
depois de mil lágrimas abafadas pela noite
daqueles que não acreditam em anjos
nem em guias de luz vindos de além.
São dores afiadas como sabres samurais
que seminam os sonhos destes seres
que ao nosso lado tudo acompanham.
Pudessem eles transmutar o homem em criança,
reavivar a esperança duma crença divina
talvez então o coração abraçasse a paz
e os canhões reluzentes disparassem alegria.

P.S - este poema foi escrito na altura da guerra do Irak, mas hoje, infelizmente, continua a fazer sentido...

Sunday, July 23, 2006

A estrela que se sentia só - parte V

Sol vermelho - Juan Miró




V

Não muito longe da nossa estrela, mora um sol que ainda não falou com a mais jovem das estrelas do espaço.

Salimor é um pequeno sol vermelho que adora ler! Sim, ouviste bem. Ele adora ler. Não lê livros como tu e eu, mas lê ideias. Sim, ideias. Todo o universo é composto de milhares e milhares de ideias que passam pelo sol como um rebanho de ovelhas. Salimor nunca as contou, pois as contas nunca foram o seu forte e de tanto contar já teria enlouquecido.

O sol da nossa história adora o silêncio, como a maioria dos sóis. Ajuda-o a concentrar-se nas ideias e a recolhê-las na sua barriga de fogo. Como bom sol que é aquece todos os planetas e estrelas à sua volta. Mas Salimor não se limita a essa tarefa. Salimor também reenvia para a sua vizinhança as ideias que conseguiu recolher. Ele sabe que as ideias fazem parte de algo muito importante para o universo: a imaginação.

Sem imaginação, querido leitor, não há crescimento interior. É por isso que as crianças são muito grandes, porque têm muita imaginação e que, apesar de terem um tamanho físico pequeno, são gigantes por dentro. O sol sabe quão importante é partilhar o fermento das ideias. Por isso, nunca falha na distribuição dessas pequenas sementes que as ideias são, na esperança de um dia as ver crescer e desabrochar num belo jardim de estrelas.

Hoje, após um longo período de silêncio, Salimor decidiu falar com Aanisa. Vamos ver como é que as coisas vão correr.

- Aanisa! Sou eu, Salimor, o sol vermelho – disse o astro de fogo com muita presença, como um rei.

- Então, agora já me ligas? Chamei por ti tantas e tantas vezes e nunca me respondeste! Por que me falas agora? – respondeu a estrela um pouco chateada com o sol.

- Aanisa, eu sou um sol e um sol sabe sempre quando deve falar. Não tinha ainda chegado a altura certa para conversarmos. Mas agora, sim, agora vamo-nos conhecer e nos tornar bons amigos.

- Por que será que quando te ouço falar me lembro do meu anjo da guarda ressonador? Devem de ter tido o mesmo professor. Já sei que tenho de ter paciência. Penso que foi uma das poucas coisas que me quis dizer, antes de se enfiar neste sono barulhento. Já tenho saudades dos meus dias de sossego.

- Sim, ele sabe ressonar. É, como Hadi diz, um profissional… disse Salimor e começou-se a rir, como já não se ria há imenso tempo, criando uma gargalhada tão barulhenta que parecia que o espaço tinha sofrido um tremor de terra. A estrela ficou pálida, assustada com o fenómeno. Pensou para si - os meus primeiros amigos são mesmo barulhentos, um ressona desalmadamente e o outro, parece que vai dar cabo do universo quando se ri.

Depois de um riso memorável, Salimor acalmou-se e conseguiu retomar a conversa com a estrela.

- Desculpa, Aanisa, mas não me ria assim há dois mil anos. Tens de compreender. Estas coisas são raras, mas quando me acontecem são a valer.

- Pois, deu para perceber isso… Mas, qual é a razão de tu me falares agora e não quando por ti chamava?

Depois de um momento de silêncio, Salimor respondeu-lhe:

- Há sempre uma altura para falar e outra para se manter calado. Hoje decidi que era a altura certa para começar a falar contigo. Eu sei que as minhas palavras não devem fazer muito sentido para ti, mas acredita que um dia tudo entenderás. Quando esse dia chegar, o véu será levantado – disse o sol vermelho com o tom de voz que caracteriza os anciões.

- Estou rodeada de mistérios – queixou-se a estrela - Primeiro, o meu anjo da guarda, ainda ferrado a dormir, que não me esclarece as minhas dúvidas e agora tu, que também não me contas a razão do teu silêncio antes do dia de hoje. Como posso compreender as coisas se ninguém mas explica?

- Aanisa, tu ainda és uma jovem estrela. Eu e Hadi vamos participar no teu crescimento. Podes sempre contar connosco, mas há coisas que preferimos que descubras por ti própria. Afinal, és uma estrela, a transformar-se num belo planeta.

A estrela não ficou muito satisfeita com a resposta enigmática do sol. Ela sabia que os seus dois primeiros amigos não lhe contavam o que queria saber. Ainda por cima, o roncar de Hadi causara-lhe as suas primeiras dores de cabeça. Apesar das coisas não lhe correrem como queria, Aanisa deixou-se embalar pela centena de ideias que vinham ter com ela. Era a primeira vez que as sentia. Salimor, com certeza, não devia de ser alheio a esse novo fenómeno que só agora Aanisa descobrira.

Pela primeira vez da sua curta existência, uma sede insaciável apoderou-se da estrela, a sede de imaginar.

Thursday, July 20, 2006


(tela sem nome: de Zéro Zoo)

Se sabes que o destino é um relógio sem horas
Porque continuas a dar-lhe corda?
Porque buscas o tempo que ainda não sucedeu?
Eu não tenho horas porque nunca tive relógio
Eu não quero relógio porque cultivo as desoras

Sunday, July 16, 2006

Caminhar


(tela de Cruzeiro Seixas)

O sítio onde quero chegar é um sítio onde ninguém antes de mim conseguiu chegar. Como o poderiam? O lugar para onde caminho é meu e somente meu. Se não lá chegar será esse o meu caminhar, tentar, intentar as rotas do alheio e procurar o certo, a chave das portas por destrancar.
Caminhar é preciso, nem que por isso não chegue a lado algum. O caminhar é o meu lugar e por isso não chegarei onde pretendo chegar. É no limiar que se traça o meu destino. No limiar sei que consigo circular à volta da Verdade, olhando-a de forma oblíqua, como qualquer verdade digna de ser apreciada.
Mas caminhar sem ter sítio algum onde possa repousar cansa-me, cansa-me como um passeio à beira-mar, agradável mas cansativo… O melhor é não pensar e prosseguir o que me resta por caminhar…

Friday, July 14, 2006

A estrela que se sentia só - partes III + IV




III

- Miaaaau – exclamou o anjo-gato, como se tivesse despertado de um sono profundo - Está aí alguém?

- Quem és tu? – perguntou com muita admiração a estrela, que entretanto deixara de chorar. Um misto de alegria e de estranheza envolviam-lhe a voz. A sua voz entoara directamente da árvore. Era a primeira vez que via um gato. Nem sabia que existam gatos.

- Eu sou Hadi, o teu anjo da guarda e vim apresentar-me ao serviço.

- Hadi? O meu anjo da guarda? Tens de me explicar isso? Para começar, é a primeira vez que falo com alguém. Fico feliz por teres um nome pois eu ainda tenho. E segundo, o que é um anjo da guarda?

Os olhos do gato começaram a inspeccionar toda a árvore e estenderam-se ao resto da montanha e da água circundante. Com a sua pata esquerda esfregou os seus bigodes e lambeu a sua mão. Depois, tossiu, como tosse uma pessoa, e sentou-se confortavelmente em cima do pedaço de terra que se encontrava em frente à árvore.

- Tu tens um nome e sou eu que to vou dar.

- Um nome? Eu tenho um nome? Depressa, diz-me como me chamo. Não me faças mais esperar, pois devo ser a única estrela do céu que ainda não tem nome.

- Aanisa é o teu nome! – disse Hadi, com a calma que caracteriza os gatos.

- Aanisa – murmurou a estrela, como se quisesse experimentar o seu nome, como se experimenta umas calças ou uma casaca, para ver se nos fica bem, se está à nossa medida – Aanisa, parece-me bem – finalizou a estrela.

- Tem mesmo de te agradar porque não to vou mudar. Quando escolho um nome não volto atrás. Eu sou assim, não ando cá com rodeios. Sou zeloso na minha profissão.

- Profissão? – perguntou Aanisa sem perceber muito bem o seu primeiro amigo.

- Ah, pois! Nunca me lembro que vocês, as estrelas, depois de nascerem, têm de ser ensinadas em quase tudo. É que um dia saberás tantas coisas que serei eu a vir-te fazer perguntas. Tenho uma estrela amiga, Thamir, da galáxia do norte, que me tem ensinado tanta coisa, que nem imaginas. Apesar de eu ser um anjo, há coisas que não sei. Também tenho de aprender. Em relação à minha profissão, isso significa que passo a minha vida a visitar estrelas e crianças e que as venho ajudar naquilo que precisam. Com esta resposta também te respondi à pergunta o que é um anjo da guarda.

- Vens-me ajudar? Mas em quê? E como?

- É importante perceberes uma coisa; nunca estás sozinha. Mesmo que não me vejas eu estou sempre contigo. Basta chamares por mim para que eu venha ter contigo, mas não vale a pena chamares-me a torto e a direito, só por te apetecer. Só venho se achar que precisas mesmo de mim ou se me apetecer estar contigo. Por isso, não vale a pena chamares por mim todos os dias, senão faço como Salimor, o sol vermelho, aquele que nunca te responde.

- Queres dizer que o sol vermelho tem nome! E fala? Ele não me tem ligado nenhuma. Porquê?

- Isso, saberás em devida altura. Ainda não chegou o tempo para responder a essa pergunta. O tempo, jovem estrela, fornece todas as respostas. Miaaaau – miou o anjo-gato, esfregando o focinho com a sua pata direita – Acho que está na altura de ir fazer um sesta…

- Uma sesta? Mas acabaste de chegar? Já queres ir dormir? Eu ainda tenho muitas perguntas para te fazer. Ainda não me respondeste a tudo o que preciso de saber – respondeu Aanisa, desorientada com a atitude do seu recém amigo anjo da guarda, um pouco estranho, diga já de passagem.

- Miauuu, estou exausto. Deixa-me lá ver onde me vou deitar – disse o gato com uma grande cara de sono, como se não tivesse prestado atenção nenhuma ao que a estrela lhe acabara de dizer.

- Estás a gozar comigo! Só pode ser! Dizes ser o meu anjo da guarda e não me tens ajudado nada. Para além disso és mole e só pensas em dormir. Não tens vergonha? Onde está o teu zelo profissional?

Já deitado em cima de um ramo da árvore, depois de uma escalada muito fácil para um bicho tão ágil como ele, lambeu cuidadosamente todo o seu pelo, antes de responder à estrela e de iniciar a sua sesta.

- Aanisa, não me julgues pelas aparências, elas enganam. Falaremos novamente depois do meu descanso. A paciência nunca foi o forte dos jovens. Não te esqueças que o tempo será o teu professor. Aprende a ver. Aprende a ouvir. Miauuuu, é desta! – bocejou Hadi - Estou mesmo a deslizar para o reino do sono.

E assim foi, Hadi encetou a sua sesta em cima de um dos ramos da árvore da estrela e começou a roncar, como o motor de um carro. Nem imaginas o barulho que Hadi estava a fazer, incomodando a estrela, que estava sem saber o que pensar de toda a situação.

- Não explica quase nada, dorme como um prego e faz mais baralho que sei lá o quê – pensou para consigo Aanisa – Onde é que já se viu isto? Que estranha maneira de travar uma amizade. Espero que não ronque assim todos os dias, senão vou dar em doida.

IV

Longe da estrela e do seu novo amigo, cá em baixo, no nosso planeta Terra, uma criança de 9 anos estava encostada ao umbral da sua janela, olhando atentante para o céu estrelado. As estrelas pareciam pequenos alfinetes a brilhar na vastidão do espaço.

Samara é o nome da menina de olhos castanhos, como a pele da madeira. Usa elástico para prender o seu cabelo e é magrinha, um palito diz a sua tia Sara. Vive sozinha com o seu pai, José, depois de ter sofrido uma dor muito grande na sua vida. O que aconteceu a Samara é muito triste, mas tenho de o contar para que percebas a história. Já alguma vez leste uma história triste? Se não, prepara-te, pois eu sei que já estás pronto(a) para perceber certas coisas.

Samara perdeu a mãe num acidente de viação, há pouco menos de um ano. Não foi só a sua mãe que perdeu, a menina também perdeu o seu sorriso e a alegria que faziam de Samara um verdadeiro sol vivo. Como deves de imaginar, uma vida sem mãe é sempre uma vida difícil. As saudades são mais que muitas, até dos ralhetes para ir escovar os dentes ou da comida que a boca não conseguiu engolir à refeição. Mas a morte de um ente querido não deve ser o fim da nossa felicidade. A lembrança faz com que a morte deixe de existir e Samara tem muita lembrança no coração. Nunca deixou de falar com a mãe, sobretudo à noite, quando olha para as estrelas, antes de se ir deitar. Ou quando está triste, por seu dia na escola não ter corrido bem ou outra qualquer situação semelhante onde a presença da mãe é sempre convocada.

Esta noite, Samara fixa as estrelas de uma forma mais intensa, como se suspeitasse de algo. Talvez uma estrela lhe caia do céu e a menina, com a presença luminosa no seu regaço, lhe cante uma cantiga de embalar. Seria engraçado podermos ter uma estrela nos nossos braços, não achas? O que farias com uma estrela? Eu, pediria um desejo, mas não qualquer desejo. Tinha de ser um desejo com o qual outra pessoa também beneficiasse. Qual? Não sei, talvez pedisse que fosse feliz e que Samara apanhasse a boleia da minha felicidade. Parece-te bem?

Enquanto Samara estava longe em pensamento do seu quarto, o nosso amigo Hadi, o anjo-gato, instalara-se confortavelmente em cima da cama de Samara, lustrando o seu pelo com a língua. A menina ainda não o tinha visto, mas isso não parecia incomoda-lo, pois o seu à-vontade era tal que nada o importunava.

Quando Samara virou o seu corpo em direcção à cama, sem se assustar, olhou para Hadi como se olha para um novo amigo, com sentimento.

- Perdeste-te no meu quarto, gatinho. Como é que vieste cá parar? – murmurou Samara passando a sua mão sobre o pêlo recém lambido de Hadi.

- É um truque de magia. Consigo aparecer e desaparecer onde bem me apetece – sorriu Hadi, à espera da reacção da menina.

- Demoraste muito! – reclamou Samara, fixando os olhos do gato.

Surpreendido, o anjo-gato girou as orelhas para os lados, como se quisesse capturar as estranhas palavras que a menina soltara. Não era comum Hadi ser surpreendido. Geralmente era ele que surpreendia os seus visitantes. Intrigado, mas sem dar parte de fraco, respondeu com a sua calma habitual.

- Estas coisas levam tempo! Não sou eu que tomo certas decisões. Mas, diz-me lá, há quanto tempo estás à espera?

- Há quase um ano… - respondeu Samara, com uma lágrima no canto do olho.

- Estou a ver... Quem foi que te avisou?

- A minha mãe. Foi ela que me disse para aguardar por ti. Só não me disse que serias um gato.

- Pois, gosto do fato dos gatos, mas já usei outros. Geralmente, as crianças gostam de gatos, o que é o teu caso. Se não gostasses teria de me vestir de outra maneira, pois é importante não teres medo de mim.

- Eu não tenho medo de anjos. Eu vejo anjos há muito tempo, mas nunca tinha visto o meu anjo da guarda. É a primeira vez – disse Samara, soltando um sorriso.

- Confesso, estou surpreendido contigo. Já sabia que eras uma menina especial. Observo-te desde o teu nascimento, mas não tinha reparado que eras tão especial. É engraçado…

- Mas como é que tu te chamas?

- Eu sou Hadi, e como já o sabes sou o teu anjo da guarda.

- O que vieste fazer? – perguntou Samara que perdera o sorriso de há pouco. As lágrimas secaram, mas o seu coração continuava a chorar.

- Vim ajudar-te. Estou cá para te dar o alento que precisas. Eu quero que sejas uma criança muito feliz. A tristeza enche a barriga de amargura, a alegria de luz. Quero atear o lume que tens no teu coração, que está frouxo, muito frouxo…

- Espero que tenhas trazido muita lenha, pois, caso contrário, não vais conseguir fazer arder a chama de que falas.

Hadi observou as linhas do rosto da sua protegida e olhou dentro do seu coração, pois os anjos são mestres nessas coisas de verem dentro dos corações. Fechou os olhos e suspirou.

- Isto está grave, muito grave. Estás doente! – disse Hadi com muita seriedade, como se fosse um médico.

- Adoeci desde a morte da minha mamã. A minha alegria foi-se embora com ela – respondeu Samara com uma voz seca, como uma planta à míngua de água.

- Eu entendo, mas como te disse vim para te ajudar. E tenho uma surpresa para ti. Espero que gostes de surpresas. Esta vai ser a valer…

Monday, July 10, 2006

A estrela que se sentia só - II


(Petite boule - Paul Journet)

II

A milhares de anos-luz afastados do nosso planeta vivia uma estrela. Era redondinha como uma melancia e azul como o mar. Nascera há pouco tempo e ainda não sabia nada da vida. Sentia-se muito só, como uma rosa no meio de um deserto. Todos os seus dias eram passados a choramingar. Todos os dias ela expunha a sua tristeza a um belo sol vermelho que morava na mesma aldeia do seu espaço. Até hoje, nunca houve resposta. A estrela não sabia se o sol não a ouvia ou se, simplesmente, era mudo. Tudo isso aumentava ainda mais o seu desespero e foi assim que as suas lágrimas criaram um grande oceano.

O mar de lágrimas que a estrela chorou recobriu quase a totalidade da terra que a compunha. Digo quase porque permaneceu intacto o cume de uma montanha onde a água ainda não tinha chegado. Nesse cume erguia-se uma árvore frondosa, a única árvore em toda a extensão da estrela. A sua raiz era tão grande que passava por baixo da montanha e do oceano. A raiz fazia lembrar uma mão com dedos muito compridos. A árvore nasceu mais ou menos na mesma altura que a própria estrela. Eu até te vou confessar um segredo, a árvore não é mais do que o coração da estrela, um coração jovem e cheio de vontade de conhecer os lábios da alegria.

Um dia, enquanto a estrela se lamentava da sua sorte, uma bola luminosa apareceu junto da árvore. Era um anjo. Será que consegues imaginar um anjo? Será que tem asas, como vem descrito na maioria das histórias? O que é um anjo? É uma pessoa ou a imagem de uma pessoa querida? Deve ser difícil de imaginar um anjo, mas eu vou-te ajudar porque o anjo da nossa história não tem nada a ver com os anjos que conhecemos. O nosso anjo não tem asas e ainda por cima é peludo. Sim, peludo, e tem uns bigodes brancos compridos, da cor das suas patas e da sua barriga. O resto do seu corpo é revestido por um cinzento claro, com umas listas pretas. E os seus olhos, esses, são azuis como o céu. Já adivinhaste? O nosso anjo é um gato. Sim, um gato. Parece-te estranho? Porquê? Eu nunca vi um anjo! E tu? Vamos lá então conhecê-lo.

Sunday, July 09, 2006

A estrela que se sentia só - uma estória para crianças e crescidos


(A grande família - René Magritte)

Parte I


Nem sempre o que parece estar longe o está realmente. Nem sempre o que temos ao nosso lado está ao nosso alcance. A história que te vou contar é a história de uma estrela que vivia muito longe de nós, mas que, afinal, não estava assim tão longe. O coração sabe do que estou a falar. Ele encurta todas as distâncias, sobretudo quando se trata de uma estrela.

A estrela da nossa história ainda não tem nome. Ela não teve a felicidade de ter um pai e uma mãe que a criassem. As estrelas não nascem como nós. O nascimento de uma estrela é algo de maravilhoso, como um fogo de artifício. É como se houvesse uma explosão de cores: muitas cores e muito brilho para darem origem a uma nova vida. Infelizmente, o que as pessoas grandes ainda não sabem é que as estrelas são muito choronas, como os bebés. É verdade! Quando uma estrela vem ao mundo ela traz na mala do seu coração uma tristeza muito grande. Porquê? Isso é o que vamos tentar descobrir com a história que vos vou contar.

Saturday, July 08, 2006

A poeira da espera


(Roda Festiva - Espiga Pinto)

A poeira da espera socalca as tuas mãos
urdidas de luas e de poentes que se desvanecem
na amargura lenta e sombria dos dias de Outono.
Por que não ouves o latejar da aurora
calma e serena a oferecer o seu corpo de luz
aos teus dedos de barro? Perdeste a bússola?
Perdeste o norte da caminhada dos iniciados?
Não soçobres as tuas lágrimas na vertigem do abismo
a hora ainda não chegou, Orfeu ainda não se revelou
e a tua tarefa de prata, de liberdade clandestina,
um dia à criação o seu cântico entoará, e nesse dia
a alegria dos sonhos esquecidos da penumbra brotará.

Monday, July 03, 2006

Sentir
















(O enigma sem fim - Salvador Dali)

Sentir é uma medida lunissolar airosa
na fenda do coração cicatrizado
que inspira e expira flores e gumes de cera
numa cadência muito própria, muito pessoal.
Não se pode governar barco sem leme
nem marear oceano sem embarcação.
Mas como, sem batuta, dirigir a sensação?
Talvez sentir seja ser rio, fluindo, algures
sem arrimos, mas ir movendo as pulsões até um destino

sempre certo, sempre seguro de que tudo converge ao seu encontro.

Tuesday, June 20, 2006

Que rosto se esconde por detrás da imagem do espelho? Que alma oculta desenha os traços da luz sem a essência revelar? Não posso deixar de me olhar e de me espantar com as linhas de um rosto que me parecem estranhas. Será que é mesmo esse o meu verdadeiro rosto: meus olhos, meu sorriso, minhas lágrimas?! Nada sei do que vejo. Nenhuma certeza me aporta o coração com o alívio da luz. Revisto o âmago com sangue e ossos e pele para o proteger, mas nada passa de uma veste demasiado frágil, momento sereno da nossa eterna debilidade. E de tudo o que julgo ver são os meus olhos que mais me intrigam. Talvez seja da íris, da cor do ébano, a exultar a profundidade do meu ser. Talvez seja do brilho ignoto a dimanar uma linguagem esquecida. Não sei… Dizem que os olhos são as portas da alma, mas se fossem portas significaria que teriam entrada e saída. E eu não vejo nem entrada nem saída. Vejo uma imobilidade rutilante, uma vida presa numa esfera a dizer-me algo que as palavras não entendem. Angustia-me não saber decifrar o mistério do brilho. Magoa-me olhar para um reflexo que tudo me venda. Talvez a visão seja somente outra forma de cegueira e Rimbaud tivesse razão: a verdadeira vida está alhures; alhures onde as formas não têm feições e onde a vida é uma fonte sadia a brotar uma desconhecida harmonia.

Thursday, June 15, 2006

Mesclado

Ouvi um choro arrastar-se do fundo da noite

Eras tu? ...

Senti uma lâmina rasgar uma alma em fiapos

Também sentiste?...

Não acordei do sonho que continuas sonhando

Mas sonho ouvir a esperança de um dia te acordar

(tela de Paul Journet: LAME DE FOND)


Ele não queria ter corpo porque era espírito

Era espírito mas não sabia o que era ter corpo

Ele era corpo e não sabia o que era ser espírito

Ele queria ser espírito para deixar o seu corpo



(tela de Paul Journet: SILHOUETTE CREPUSCULAIRE)

Tuesday, June 13, 2006

FELIZ ANIVERSÁRIO




















Poeta-médium

Ouço as vozes que por ti passaram
como brisas argentadas a colorirem a Verdade
nas suas faces múltiplas, nos seus ângulos infinitos.
Caeiro, Soares, Reis ou Campos, qual o poeta
imbuído da limpidez dos anjos, de bocas redondas?
Qual deles, nobre Poeta, te fez sentir mais tu que outro
ou talvez mais outros que tu próprio?
As vibrações ressoaram em ti como música hialina
e os sopros de além-terra te guiaram às portas da origem,
único sítio onde a diversidade se torna una
lá, onde a unidade é a junção dos elos separados
e por ti, em poesia, num grande Poema reconfigurado.
Há luzes que não se finam, nem nunca se perdem
nos limbos da criação extrorsa e tu, poeta-médium,
foste o elo basilar das Vozes que ousaram regressar à terra.