VI
- Onde estamos? – perguntou Samara, cujos olhos e coração brilhavam de curiosidade.
- Estamos no Átrio dos Caminhos Possíveis. Este é o local onde tudo acontece – respondeu Hadi com a sua cauda a abanar.
Samara e Hadi encontravam-se numa espécie de pátio com três grandes portas. Duas das três portas estavam abertas e uma mantinha-se fechada. Uma bruma misteriosa envolvia as portas abertas e não permitia ver o que se encontrava por detrás das mesmas. Todo o sítio estava empregando de um ar misterioso e sagrado. Parecia que estavam no centro do mundo, como o centro de uma teia de aranha, onde tudo converge ao seu encontro. Junto às portas erguiam-se duas bétulas de tamanho imponente. Os ramos das árvores recobriam os lintéis, parte superior das portas, curvando-se numa espécie de abraço fraterno. A paisagem que a menina e o anjo-gato tinham à sua frente era, de facto, muito bonita. Tanto as portas, como as árvores, pareciam reluzir uma vida muito diferente daquela que nós conhecemos. A harmonia dos céus florescia naquele local e todos os sonhos do mundo vinham beber a serenidade daquele espaço.
- O que está por detrás das portas? – interrogou Samara, com a sua curiosidade a crescer de minuto em minuto – Diz-me, Hadi, o que é este Átrio dos Caminhos Possíveis?
- Vai ser difícil eu te explicar isto de maneira a que entendas toda a importância deste local, mas vou tentar. As três portas que tu vês são as entradas que dão para três jardins. Do teu lado direito tens o Jardim das Flores Eternas. Ao centro, a porta que se mantém fechada, dá acesso ao Jardim do Esquecimento, onde nem eu tenho autorização para entrar. E, por fim, do teu lado esquerdo, tens o Jardim das Estrelas, o qual iremos brevemente atravessar.
- Por que é que a porta do Jardim do Esquecimento se mantém fechada? Tu, que és um anjo, devias poder passar por todas as portas, não achas?
Hadi sorriu amavelmente para Samara e, sem avisar, saltou para cima do ombro direito da menina, quase fazendo-a cair. Felizmente, ela conseguiu segura-lo sem se desequilibrar. O anjo-gato ainda teve direito a umas festinhas dadas com muito carinho.
- Nós, os anjos – sussurrou ao ouvido de Samara – não temos acesso a todo o conhecimento. Nós sabemos muitas coisas sobre como a vida funciona, a tua e a de todos os seres vivos na Terra, mas há coisas que nos são veladas. Um dia, talvez, se eu o merecer, terei direito a entrar pela porta do Jardim do Esquecimento. Dizem anjos muito respeitados na nossa comunidade, e que muito têm reflectido sobre o assunto, que este jardim é o jardim do início de tudo. Dizem que esquecer é renascer. Lamento não te poder responder melhor do que isto à tua pergunta, mas deixo-te imaginar uma resposta, a tua resposta.
- E os outros dois jardins, para que servem?
- O Jardim das Flores Eternas é um jardim sem fim, onde cada flor representa uma vida já nascida ou por nascer. Digamos que cada alma tem direito a ser representada por uma flor, sem excepções, quer sejas bom ou mau. Nesse jardim não se fazem distinções entre as flores. São todas diferentes. A única coisa que as liga é a terra onde estão plantadas. É ela que lhes fornece o alimento para crescerem, a água, se preferires. Mas, como deves imaginar, aqui, a vida não funciona bem da mesma forma que na Terra, mesmo sendo muito semelhante.
- Queres tu dizer que algures naquele jardim sem fim, povoado de milhões e milhões de flores, está a minha flor, eu?
Hadi sorriu. O anjo-gato tinha engraçado com a sua protegida. Via todo o seu interesse nos grandes mistérios da Vida e isso animava-o. Já tinha sentido que Samara era muito grande por dentro e ajudá-la a desenvolver ainda mais o seu interior era uma honra à qual ele não queria falhar.
- Sim, tu és uma flor e estás naquele jardim. Mas também eu e a tua mãe estamos representados por uma flor no mesmo jardim.
- A minha mãe? – perguntou surpreendida Samara – Mas, a minha mãe… morreu…
- Então Samara? Tu sabes perfeitamente que ainda está viva. É claro que já não está contigo fisicamente. É claro que os teus olhos já não a podem ver. É claro, tudo isso! Mas também é claro que tens conversado muito com ela. É claro, também, que a sentes contigo, no teu coração, mesmo não a vendo. E também é claro que a morte não é um fim em si, mas uma mudança, como uma lagarta que se transforma numa bela borboleta. Eu sei que já sabes isso tudo, mas a tua tristeza impede-te de aceitar o que dentro de ti sentes há quase um ano.
Samara esgalhou um sorriso e deu um beijinho ao seu amigo Hadi. Uma cumplicidade muito bonita estava a crescer entre os dois. Tal como os gatos que conheces, também Hadi gosta de mimos e nunca se priva deles. Quanto mais melhor. O coração aquece sempre com a ternura que lhe é ofertada. E quem não gosta de miminhos?
- E a nossa porta, a que nos vai levar para o Jardim das Estrelas, o que é ao certo?
- O Jardim das Estrelas é o jardim que alberga todas as estrelas do universo. E no vasto universo existe uma estrela que te quero apresentar, pois todos nós temos uma estrela, a nossa estrela. A tua estrela precisa de ti, bem como tu precisas dela. Esta é a porta que nos pode levar a qualquer sitio do mundo num piscar de olhos. É por aqui que passo, quando as minhas viagens ficam muito afastadas do planeta Terra. Anda, vamos entrar…
- Não se vê nada, Hadi. A bruma não me deixa ver nada!
- Não tenhas medo, entra! A bruma vai dissipar-se.
Hadi e Samara atravessaram em conjunto a porta do Jardim das Estrelas e pararam numa espécie de pedestal que se erguia de um vazio sem horizonte avistável. À sua frente, milhões de estrelas estavam penduradas, como bolas de natal que se colocam nos pinheiros. A paisagem era maravilhosa. Imagina-te no espaço, envolvido por milhares de estrelas. Seria lindo, não seria?
Samara sentira lentamente os seus pés descolarem do pedestal e o seu corpo girar para uma direcção ainda desconhecida. Com os seus braços fingia ser uma águia cósmica, uma águia conhecedora de todos os recantos do céu, uma águia capaz de atravessar todo o universo sem qualquer dificuldade. Uma alegria intensa e um sentimento de liberdade animavam as suas asas imaginadas. Hadi também já se encontrava a flutuar no vazio. Com as suas mãos, a menina agarrou no rabo do anjo-gato e deixou-se guiar pelo seu amigo e pelo brilho das estrelas. A viagem tinha começado. Os dois amigos encontravam-se a caminho da mais jovem das estrelas do céu.