
[Melancolia: Albrecht Dürer]
Muito agradecido lhe sou pela generosa partilha das suas prístinas palavras.
Ontem, uma delas, a mais traquina, enfiou-se-me sorrateiramente pelo vestíbulo do meu olhar. Galgou rosto acima como um potro sem freio e sem vergonha. Não demorou muito a encontrar o que com tanto zelo procurava. Espantada, a anfitriã, levantou-se estremunhada do seu pranto e, de imediato, enfiou a sua mais bela túnica, toda ela luz e amanhecer. Mas, a palavra, ainda que imberbe para alguns, não se deixou seduzir pelo aparato ilusório da sua visita desprevenida. Agarrou-a pelas mãos, despiu-a dos seus trajes faustosos e empurrou-a rosto abaixo.
Resultado: sem querer e sem saber, a melancolia envasou numa série de letras (des)ordenadas, linhas a emergir, nas quais ela se olhou e, pasmada, como se da primeira vez se tratasse, nua se contemplou.









