
[Nascimento: Salvador Dali]
A placidez dos dias já não me enche como dantes. A letargia de não saber o que fazer com o tempo, de o ver definhar-se aos meus pés e de não ter mãos para o suster contra o meu peito, impele-me a vazar todo o negrume dentro de mim para esta página quase branca. As palavras caiem como granizo. O som das mesmas incomoda o meu estado de espírito. Sim, as palavras têm um som, o som do tédio a salpicar a folha de papel. Por mais ridículo que pareça é precisamente esse papel que atesta que ainda estou vivo. Sim, estou vivo, mas a vida foge-me como a sombra que não se deixa algemar. Quero agarra-la, aperta-la contra mim, e deixar o sonido da folhagem da alma fazer o seu mister. Às vezes, confesso, sinto-me poeta. É nesses momentos que mais necessito do ouvido da vida. É nesses eternamente curtos momentos que sinto que preciso de ser, para não deixar fugir os laivos de esperança que acumulo diariamente. Eu sou como uma tela impressionista. Tento capturar os vestígios das nuvens que passam sem avisar. Elas passam, as nuvens, passam sempre, mas tenho de as requestar, tenho de lhe provar que eu sou a tela onde podem (re)pousar. Mas a invalidez do meu estado anímico não me permite sempre permear o meu ser. Há aquele maldito hiato de vácuo, de nada, de não ser e de não saber sonhar que me levam ao desmoronamento. Ai, se eu soubesse sonhar, se eu soubesse plantar sementes nas nuvens em vez de as ver passar. Se eu soubesse, encheria esta página de sol e de cores garridas e ofertá-las-ia a quem quisesse entrar no meu sonho, que não custa mais do que um momento de eternidade.










