Sunday, September 03, 2006


[imagem de Oliveir Cousinou: Alchemy]


perdeu-se a margem do que está perto
perdeu-se o rubor do quem vem de longe
uma folha branca urde corações pela noite adentro


*

calmo, sereno, o ponteiro desobedece
à cadência do olhar
porque terna e foragida a cor avança a recuar

*

pr’além das formas?
talvez outras formas, mais conforme
o compassar das estrelas, noites brancas a dormitar

*

o peso do espanto pesa madrugadas
no imo soturno que lê favosas memórias

*

nada será como dantes
hoje o passado é um futuro estranho

*

nas sombras da origem um mar revolto avança
tenazes de quartzo desdobram-se no lúmen
a liquefacção dos sentidos será o pano a cair

*

sumiu-se a memória da alvorada
uma noite clara hasteou o pano da saudade

Saturday, September 02, 2006


[Imagem de Olivier Cousinou: Chasma Polar]

Alhures, onde os moinhos escavam sorrisos
E a lua tece madrugadas
A sede une-se novamente ao fogo
E a fraga faz-se levante para que o dia irrompa

*

É uma estranha canção
Que se repete e repete indefinidamente
Aqui, onde o coração sulca estranhas saudades

Uma viola desenha refrãos que pernoitam no olhar

*

Custa-lhe tanto dizer adeus a ontem
Mas custa-me mais ainda ela não se virar para hoje


Ontem, rente ao crepúsculo, vi as cores das estrelas desmaiarem da sua substância. Que estranho espectáculo esse de ver a luz da eternidade sumir-se como uma aragem escorregadia.

Estava recostado numa árvore, na minha querida Ceneia, nome que de bom grado aceitou. Se Ceneia soubesse falar, e bem sei que o sabe, com certeza que demonstraria a sua surpresa, assim como os meus olhos o fizeram. Agora que me estou a lembrar, não proferi uma única palavra. Enfiei-me no mutismo ardiloso de que Ceneia é mestre.

Uma mortalha de escuridão recobrira a floresta por completo. Era como se a grande lâmpada do mundo tivesse deixado de funcionar. Bichos e insectos calaram-se para ouvir a voz do silêncio naufragar. Curiosamente, um tal espectáculo deveria ter-me incutido medo, o medo ancestral que predomina em qualquer criatura viva. Mas não, estava calmo, como um gato a domesticar os sonhos. Nessa altura, lembro-me de não mais conseguir urdir um único pensamento. Eles calaram-se, como o resto do mundo. Ficamos assim durante uma eternidade. Não sei quanto tempo passou, não faço a mais pequena ideia. Os únicos sentidos que não fizeram greve aos acontecimentos foram o tacto e o olfacto. Ainda conseguia tactear o tronco da minha Ceneia e cheirar-lhe a sua fragrância natural.

Ficamos à espera. Esperamos, esperamos, e voltamos a esperar. Mas nada! Não acontecia rigorosamente nada. E pior ainda, não conseguia preocupar-me com o facto de não me apoquentar. É uma sensação estranha, tornar-nos insensível. Talvez seja essa a forma de sentir da pedra, estar sem estar, ser uma observadora impassível e impenetrável. O que é certo é que assim ficamos, sem pressa de ver fluir o tempo, pois esse nunca pára.

Não sei se adormeci acordado, se me apaguei de mim próprio, ou se foi o vento que me levou para a outra margem. Mas certo é que acordei a fitar o mais belo nascer de luz que alguma vez me foi dado contemplar. A vida encheu os seus pulmões e enfunou velas luminescentes rumo à terra mais distante. Esse foi o meu primeiro dia de Langolia.

Friday, September 01, 2006

Intermitências do ser e do não ser


[Nascimento: Salvador Dali]

A placidez dos dias já não me enche como dantes. A letargia de não saber o que fazer com o tempo, de o ver definhar-se aos meus pés e de não ter mãos para o suster contra o meu peito, impele-me a vazar todo o negrume dentro de mim para esta página quase branca. As palavras caiem como granizo. O som das mesmas incomoda o meu estado de espírito. Sim, as palavras têm um som, o som do tédio a salpicar a folha de papel. Por mais ridículo que pareça é precisamente esse papel que atesta que ainda estou vivo. Sim, estou vivo, mas a vida foge-me como a sombra que não se deixa algemar. Quero agarra-la, aperta-la contra mim, e deixar o sonido da folhagem da alma fazer o seu mister. Às vezes, confesso, sinto-me poeta. É nesses momentos que mais necessito do ouvido da vida. É nesses eternamente curtos momentos que sinto que preciso de ser, para não deixar fugir os laivos de esperança que acumulo diariamente. Eu sou como uma tela impressionista. Tento capturar os vestígios das nuvens que passam sem avisar. Elas passam, as nuvens, passam sempre, mas tenho de as requestar, tenho de lhe provar que eu sou a tela onde podem (re)pousar. Mas a invalidez do meu estado anímico não me permite sempre permear o meu ser. Há aquele maldito hiato de vácuo, de nada, de não ser e de não saber sonhar que me levam ao desmoronamento. Ai, se eu soubesse sonhar, se eu soubesse plantar sementes nas nuvens em vez de as ver passar. Se eu soubesse, encheria esta página de sol e de cores garridas e ofertá-las-ia a quem quisesse entrar no meu sonho, que não custa mais do que um momento de eternidade.


[Melancolia: Albrecht Dürer]

Muito agradecido lhe sou pela generosa partilha das suas prístinas palavras.
Ontem, uma delas, a mais traquina, enfiou-se-me sorrateiramente pelo vestíbulo do meu olhar. Galgou rosto acima como um potro sem freio e sem vergonha. Não demorou muito a encontrar o que com tanto zelo procurava. Espantada, a anfitriã, levantou-se estremunhada do seu pranto e, de imediato, enfiou a sua mais bela túnica, toda ela luz e amanhecer. Mas, a palavra, ainda que imberbe para alguns, não se deixou seduzir pelo aparato ilusório da sua visita desprevenida. Agarrou-a pelas mãos, despiu-a dos seus trajes faustosos e empurrou-a rosto abaixo.
Resultado: sem querer e sem saber, a melancolia envasou numa série de letras (des)ordenadas, linhas a emergir, nas quais ela se olhou e, pasmada, como se da primeira vez se tratasse, nua se contemplou.

Thursday, August 31, 2006



recumbente o vagido da Noite cintila
às portas do coração dobrado sobre si próprio

as mãos do passado regressam vazias
como o parto da luz que enche sem preencher
à míngua de uma verdadeira sede estival

o oiro da ária pelo melro repetida
faz-se sentir na longínqua distância do prometido
os braços abrem-se para acolher a esperança sorridente

Escuta este grande segredo:
Onde o lume foge à sede
E o prazer à dor ainda por chegar
As mãos recostam-se na noite clara
Porque cegas de ver não ousam acreditar

*

De palavras vazias a boca mastiga o seu refrão
É-lhe tão fácil vociferar a tristeza entumecida
Tão difícil não espreitar pelas cicatrizes recuperadas
Porquanto cair dói menos do que levantar-se com determinação

*

Se não acreditas por que perguntas?
Não perguntes se não queres acreditar
Não acredites se não ousares perguntar

*

Eu sei para onde sonhar
E Tu?
Por que me dás sentenças?
Se nem sequer aprendes a chorar

*

És mais cadavérico do que julgava
A tua pele enreda-se à volta dos teus olhos
E os teus olhos segregam os ossos da putrefacção

*

Estou cansado
Como a fome de acreditar
Nada muda
Tudo se repete
Até à exaustão

*

Não digas mais nada
A tua surdez impede-te de falar
E o meu mutismo de te ouvir

*

Que distância vai de um coração ao outro?
Duas lágrimas, um sonho, e cinco mãos de compreensão


[tela de René Magritte]

Un endroit tourmenté hante la douleur du poète
renfermer sur lui-même, renfermer dans son monde
où les ombres et la lumière se côtoient
pour invoquer le silence des forces éternelles.

C’est le langage des prophètes, c’est la voix de la nuit
qui se manifeste dans son cœur : rêveur et solitaire.

Ce sont ses larmes qui accusent sa passion acharnée
nourrissant la souffrance de son âme
afin de lui éclaircir les horizons du Levant,
là-bas, très loin, tout proche, au seuil de l’au-delà.

*

Revêtus de haillons les mots se bousculent
à chaque tournant un faux éclat
à chaque mouvement une fausse vertu
engagés avec l’esprit du miroir transparent.

La main les guide, la plume les tisse
et en vain ils cheminent vers le sillage de l’Orient
reflet âpre d’une réalité interdite
pourpre dans ses lignes désaxés,
où l’essence du Réel est un voile ; à jamais recouvert.

Puissent-ils un jour fleurir, puissent-ils répartir la lumière !


L’azur en soi au-delà de soi


Le berger de l’âme se questionne
Il sent en soi l’azur d’un au-delà
Qui germe en lui le bleu des champs
Et par au-delà d’un soi mal présent
Se questionne si tout n’est que néant


Le berger s’accommode peu d’un bleu fade
Et recherche les trésors du doux saphir
Car seul sa voix peut scintiller
L’azur d’un moi bien au-delà de soi

Wednesday, August 30, 2006

Eu próprio o Outro



(falso espelho - René Magritte)

Já nem sei como aconteceu! Nem do estado do tempo mantive a impressão. Acordei, como se acorda em mais um dia no longo e penoso ciclo do vai e vem existencial. Ao início, não tinha reparado. As ramelas obstruíam o meu sentido mais apurado, a saber, a visão. Lavei a cara com água fria, pois só o frio consegue distrair o calor acumulado ao longo de uma noite cálida, mas sem sonhos.
Foi quando me vi no espelho. Sim, nesse objecto que diariamente pretende lembrar os meus olhos aquele que supostamente sou. Foi nesse preciso momento que a coisa aconteceu. Primeiro, fiquei assustado. O frio da água trespassara-se sorrateiramente pela soleira da minha alma, agora baldia e pálida como a face da lua. O meu rosto já não me pertencia! Conseguem imaginar?! Quando sorria, o espelho respondia-me com um ar pesado e severo. E quando esboçava um ar de enterro, o espelho sorria-me como uma criança diante dum presente. O mundo tinha acordado ao contrário! Nada do que fazia era-me retribuído. Comecei logo a pensar nas implicações que a situação augurava para o resto do dia e, quiçá, da vida. Quem me diz que os outros verão realmente quem está diante deles - pensei. Irão reconhecer-me? Serão eles capazes de ver que não sou eu?, mas um outro eu de mim mesmo, um fac-simile ao contrário. Se o espelho me devolve uma imagem ao contrário, quem me assegura que os meus sentimentos se mantém iguais a si próprios?, e não invertidos. A cabeça começava a latejar uma sinfonia angustiante. Aquele não és tu, mas vais ter de fingir que és tu! – dizia-me uma voz. Agora sim, agora vais deixar de representar, agora é que vais libertar o teu eu verdadeiro – afirmava outra voz, com convicção. Há males que vêm por bem. Nada acontece por acaso. Não tenhas medo. Sê como és. Não ligues ao que os outros pensam. Sê tu próprio! Sorri. Aconteceu. – diziam outras vozes em cacofonia. Ser eu? Mas acaso não é o que diariamente sou? Okay, não digo tudo o que penso. Tenho de obedecer ao politicamente correcto, pois sou um animal social, certo?! Mas daí a não ser eu, e hoje o ser por ter acordado ao contrário. Algo está errado. Será do espelho? Ou dos sentimentos que estou a espelhar? Porquê hoje e não ontem? Volto a olhar para o espelho, fixamente. Quem és tu?, pergunto incrédulo. Eu sou mesmo tu, reponde o espelho – e sorri, maliciosamente. Furioso, agarro no secadouro e arremesso-o com vigor contra a minha imagem invertida. O espelho estala em mil pedaços! Os cacos juncam o chão da casa de banho. Sinto-me aliviado. Ele já não me olha. Olho para o chão, e o rubor cora o meu semblante. Já não é um outro eu a fitar-me maliciosamente. Agora, são dezenas de eus!

Monday, August 28, 2006

traz a espera das pedras dentro de ti
traz o lume do astrolábio no coração

alimenta a Noite e deixa-a fulgir
o fulgor da eterna Primavera
a cadência do sopro do pão essencial

uma flor dos tempos ancestrais floresce
sempre que o teu olhar se cega para o dia

*

sempiterna essa música inaudível
o silêncio rasa os prados da melancolia
em busca de um ouvido para selar a incompreensão

*

às vezes a imagem deixa transparecer
o reflexo de um deus embutido na matéria

às vezes é luz, outras vezes negrume
a tactear a esperança de um sorriso carente
uma mão aberta para o passado, o devir em mutação



(a máscara da dor - Colette Cohen-Abbate)




dobrou a dor como se dobra um lençol
arrumou-a numa gaveta perdida da sua memória
acreditou no seu acto como se acredita em estrelas
mas a dor voltou porque nunca a tinha abandonado

*

a insónia ancora os seus pés na dor
porque a vigília permite-lhe sentir o parto
que as trevas querem transformar em luz

Saturday, August 26, 2006


(imagem de Jacek Jerka)



nas delongas do vazio da luz
os olhos perdem-se no horizonte das trevas
sempre em busca

de um sol, de uma lua, uma estrela cintilante

as ânforas da esperança enchem-se de memórias
ainda por vir, ainda que não venham

sempre a corrigir as linhas de um sonho transeunte


e no final um clarim de seda enche os seus pulmões
para tocar no dorso da espera a certeza da liberdade

*

é preciso viajar nas fímbrias do símbolo
ir ao encontro daquele que não é nomeável

o que tem nome está preso do outro
o que não tem possui a real identidade
o que vagueia sem vaguear
o que está não estando ainda que ausente

é preciso galgar a verve do indeterminado
ir onde os sentidos morrem para regressar transfigurado

*

vago, incerto, o momento do naufrágio subtil
dúctil aragem do sopro cambiante
a lavrar a dor daquele que já nada espera

somente o sal da lágrima persiste
somente o silêncio fulgurante da manhã estival

*

estornar o destino?
rectificar um acto roubado ao momento?

talvez esperar pela sabedoria das pedras
que não padecem dos estigmas da humanidade

*

pediste-me asas de cera
derreti os meus sonhos para poderes voar


D’où me vient cette solitude si lointaine ?
qui brille comme une lampe des temps ensevelis
une lumière pâle ôtée de ses racines
une lueur se fanant dans l’aube de tout espoir.

Est-ce le vœux d’un dieu oublier par les miens ?
où une âme errant dans les limbes de mon être ?

Je cherche, j’écoute, j’apprends malgré mon ignorance
et je sais que ce corps, sans peau, revêtue de tristesse
n’est que le symptôme d’un rêve égaré, un paradis perdu ; mais non oublié !

Saturday, August 19, 2006



era cego e acreditava ver
via sem saber que era cego

um dia roubaram-lhe os seus olhos
o mundo desabou por momentos
luz e trevas deixaram de coexistir

o último dia da sua vida passou a ser o primeiro
aprendera a ver com olhos que nada vêem



*
matreira e inefável ela espia
os movimentos
as paragens
do bater de asas das formas

segurar? ninguém a segura
de luz incusa são feitos os seus passos
de aura desbotada o seu toque arredio

onde vai? onde mora renascida?
numa orla, desprovida de substância

lura dentro de outra lura algo suspira
é ela, a parir; é ela, a desunir-se
nasce vezes sem contas para morrer
morre outras tantas para voltar a fulgir

há brilho, sim, há brilho na Sombra luzidia


*

umbrosa é a luz, a verdadeira luz
um nimbo de prata
um fulgor de azul
umbrosa a mão que toca a brasa
a brasa que é nimbo a fulgir prata
a prata que se estilhaça com o azul da luz

*
não entendem!
nunca entenderão…
por que haveriam de entender?

aqueles que sabem sentem
aqueles que sentem sabem

os atavios da linguagem dissipam-se
no silêncio arenoso do coração
o tempo do símbolo prossegue o seu esplendor
uma borboleta levanta voo – é o âmago a respirar

*

sábia a árvore que fala
a linguagem das raízes
louco o Poeta que sonha
a linguagem das primícias

*

o amor? o que é o amor?
uma sinfonia de dois instrumentos?
ou o silêncio reunido com a sua própria boca?!...

*

de luas e estrelas o sonho se embriaga
de poentes e levantes a mágoa se afeiçoa
e eu? de que substâncias estugo o meu pulsar
qual ponte por mim aguarda? antes de me estiolar

quero luas e estrelas e poentes e levantes
quero a ubiquidade da fome e da sede
quero a transparência da sombra e da luz
quero! mas não me digas como - mostra-me!

*

ouvi um choro soturno definhar-se na bruma da noite
parecia um recém-nascido
uma voz quente a implorar a lembrança dos olhos

ainda hoje ouço esse choro deambular pela escuridão
é um anjo muito antigo
esquecido
como tudo o que realmente importa – oculto ao olhar

*

Friday, August 04, 2006


(Turner - Sunrise)

não digas mais nada
o silêncio será a tua voz
a dor a minha chama renascida

algures, entre a dor e a esperança
plantarei uma rosa cristalina
em tua honra, porque sempre te honrarei

agora vai, não olhes mais para trás
o presente foi-se, o futuro ainda é uma flor por acordar

Sunday, July 30, 2006



Não banalizes o sentimento de outrem
O respeito é a mais pequena das flores
Por isso requer uma rega mais dedicada

*
não me eras destinada disse o destino
respondi-lhe que de lágrimas percebo eu

*
não partas, por favor
não vires o teu olhar à saudade de amar
demora-te a observar: inspira-me para melhor me respirares

*
o que sentes ao acordar de manhã?
um sufoco? uma ânsia desesperada?

uma mão leve afaga a tua dor
um dedo de veludo conta-lhe estórias de embalar
mas teu coração recusa-se a crer, recusa-se
a receber o murmúrio das estrelas, ondas de calor
que se afastam da caligem para ancorar no peito da eternidade

Saturday, July 29, 2006

um dia murmurei ao vento o teu nome e contei-lhe
a estória de um rapaz apaixonado por uma rapariga
a estória de uma rapariga apaixonada pela sua tristeza
ao que o vento me respondeu:

leve como a manhã o coração se levanta
do sono das estrelas que a noite vigia
um abraço de luz refunde-se no interior da lembrança
ainda que a dor reine de norte a sul, a bonança impera nos caminhos da luz

colei um búzio junto às tuas recordações
falou-lhes de sonho e de esperança a quererem desabrochar