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matreira e inefável ela espia
os movimentos
as paragens
do bater de asas das formas
segurar? ninguém a segura
de luz incusa são feitos os seus passos
de aura desbotada o seu toque arredio
onde vai? onde mora renascida?
numa orla, desprovida de substância
lura dentro de outra lura algo suspira
é ela, a parir; é ela, a desunir-se
nasce vezes sem contas para morrer
morre outras tantas para voltar a fulgir
há brilho, sim, há brilho na Sombra luzidia
*
umbrosa é a luz, a verdadeira luz
um nimbo de prata
um fulgor de azul
umbrosa a mão que toca a brasa
a brasa que é nimbo a fulgir prata
a prata que se estilhaça com o azul da luz
*
não entendem!
nunca entenderão…
por que haveriam de entender?
aqueles que sabem sentem
aqueles que sentem sabem
os atavios da linguagem dissipam-se
no silêncio arenoso do coração
o tempo do símbolo prossegue o seu esplendor
uma borboleta levanta voo – é o âmago a respirar
*
sábia a árvore que fala
a linguagem das raízes
louco o Poeta que sonha
a linguagem das primícias
*
o amor? o que é o amor?
uma sinfonia de dois instrumentos?
ou o silêncio reunido com a sua própria boca?!...
*
de luas e estrelas o sonho se embriaga
de poentes e levantes a mágoa se afeiçoa
e eu? de que substâncias estugo o meu pulsar
qual ponte por mim aguarda? antes de me estiolar
quero luas e estrelas e poentes e levantes
quero a ubiquidade da fome e da sede
quero a transparência da sombra e da luz
quero! mas não me digas como - mostra-me!
*
ouvi um choro soturno definhar-se na bruma da noite
parecia um recém-nascido
uma voz quente a implorar a lembrança dos olhos
ainda hoje ouço esse choro deambular pela escuridão
é um anjo muito antigo
esquecido
como tudo o que realmente importa – oculto ao olhar
*