Wednesday, September 13, 2006

Paroles Paroles - Dalida & Alain Delon


Alain Delon:
C'est étrange,
je n'sais pas ce qui m'arrive ce soir,
Je te regarde comme pour la première fois.

Dalida:

Encore des mots toujours des mots
les mêmes mots
Je n'sais plus comment te dire,
Rien que des mots
Mais tu es cette belle histoire d'amour...
que je ne cesserai jamais de lire.
Des mots faciles des mots fragiles
C'était trop beau
Tu es d'hier et de demain
Bien trop beau
De toujours ma seule vérité.
Mais c'est fini le temps des rêves
Les souvenirs se fanent aussi
quand on les oublie
Tu es comme le vent qui fait chanter les violons
et emporte au loin le parfum des roses.
Caramels, bonbons et chocolats
Par moments, je ne te comprends pas.
Merci, pas pour moi
Mais tu peux bien les offrir à une autre
qui aime le vent et le parfum des roses
Moi, les mots tendres enrobés de douceur
se posent sur ma bouche mais jamais sur mon cœur
Une parole encore.
Paroles, paroles, paroles
Ecoute-moi.
Paroles, paroles, paroles
Je t'en prie.
Paroles, paroles, paroles
Je te jure.
Paroles, paroles, paroles, paroles, paroles
encore des paroles que tu sèmes au vent
Voilà mon destin te parler....
te parler comme la première fois.
Encore des mots toujours des mots
les mêmes mots
Comme j'aimerais que tu me comprennes.
Rien que des mots
Que tu m'écoutes au moins une fois.
Des mots magiques des mots tactiques
qui sonnent faux
Tu es mon rêve défendu.
Oui, tellement faux
Mon seul tourment et mon unique espérance.
Rien ne t'arrête quand tu commences
Si tu savais comme j'ai envie
d'un peu de silence
Tu es pour moi la seule musique...
qui fait danser les étoiles sur les dunes
Caramels, bonbons et chocolats
Si tu n'existais pas déjà je t'inventerais.
Merci, pas pour moi
Mais tu peux bien les offrir à une autre
qui aime les étoiles sur les dunes
Moi, les mots tendres enrobés de douceur
se posent sur ma bouche mais jamais sur mon cœur
Encore un mot juste une parole
Paroles, paroles, paroles
Ecoute-moi.
Paroles, paroles, paroles
Je t'en prie.
Paroles, paroles, paroles
Je te jure.
Paroles, paroles, paroles, paroles, paroles
encore des paroles que tu sèmes au vent
Que tu es belle !
Paroles, paroles, paroles
Que tu est belle !
Paroles, paroles, paroles
Que tu es belle !
Paroles, paroles, paroles
Que tu es belle !
Paroles, paroles, paroles, paroles, paroles
encore des paroles que tu sèmes au vent

[Palavras e Música: Michaele, M.Chiosso, G.Ferrio 1973
© Polygram ~ Barclay ~ Orlando Production]

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Tuesday, September 12, 2006

Eurídice


[autor da imagem desconhecido]

Diz-me, Eurídice
Quando te calas sabes quem calas?
Os dias param
As noites enchem-se de poeira
Soletrando a angústia da distância

Diz-me, Eurídice
Quando te leio sabes como te leio?
Os olhos regalam-se
As tuas palavras escavam promessas
Que rutilam a tua ausência-fragrância


Diz-me, Eurídice
Quando te perdes sabes quem se perde?
A minha boca seca-se
Os meus lábios definham-se
Sabendo que sofres e que não me ouves

Friday, September 08, 2006

Eles andam por aí!


[autor da imagem desconhecido]

Não estou doente! Demiti-me de todos os cargos que me obrigavam a ver para crer!
No outro dia, fui raptado por extraterrestres. Não acreditam?! Então vejam a elevada taxa de raptos ocorridos nos E.U.A. Ok, eu também não sou um grande fan dos americanos, mas há coisas que acontecem mesmo. Chamo-me Sandro Coimbra, arquitecto de profissão, e vivo em Leiria. Caso ainda não saibam, o distrito de Leira é simplesmente a área mais visitada pelos nossos amiguinhos cinzentos. Não, os meus ladrões (de)mentes não foram verdes, mas sim cinzentos. Isso tem que ver com algumas decisões geoestratégicas dos nossos observadores. Parece que são quatro tipos de raças. Calharam-me os menos maus, os que conversam. Enfim, dentro do meu azar, tive sorte. Estou inteiro e não foi necessário nenhuma regressão hipnótica para me lembrar de tudo. Verdade, pura verdade! Eu não estou a entrar em delírio neurótico. Isso é coisa de poetas ou pseudo-poetas. Eu, como acima referi, sou arquitecto, portanto, uma pessoa séria. A minha vocação é construir. Sou um construtor! Agora, imaginem só um momento o que me foi acontecer. Eu, um tipo sério e trabalhador, sem tempo para falsas melancolias, fui desavergonhadamente raptado por duas ETs. Sim, era meninas! Como sei? Pelo toque… e mais não conto pois nessas coisas também sou um homem sério. O que diria a minha esposa Sophia se soubesse? Portanto, isto fica entre nós, tu e eu. Ok?!
Já perdi o fio à meada. Ah, pois… o rapto das duas… O meu carro, a caminho dos meus sogros, avariou. Ao início, pensei: «Eh pá, que ganda chatice! Não vou poder ir ter com os meus sogrinhos», mas depressa me apercebi que há males que não vêm por bem! Lá fui teleportado para nave espacial. Um charuto, tipo os de Havana, ainda por cima. Não foi o Spock que me teleportou. Aqui, a tripulação foi outra. Sabiam que os Ets não têm ouvidos? É verdade! Juro! São surdos e mudos, como as pedras. Estamos a falar de seres evoluídos. N’est-ce pas? Usam a telepatia. E, para isso, nem precisam de ser gémeos. É mesmo natural. É um sentido que, no ser humano, ainda está em fase de construção. Estão a ver?, a importância da construção! Escolhi bem o meu ofício. Nisso, não tenho dúvidas. Ora, voltemos à minha história. Estava portanto a dizer que são telepatas, os nossos vizinhos, de Orion. Entraram-me, sem avisar, na minha cabeça. Despiram-na toda, todinha, só deixando a minha humilde ossatura cerebral, por assim dizer… Sabem o que queriam? Eu vou-vos dizer… Mas, antes disso, tenho lamentavelmente de reconhecer que houve engano, no rapto. Sim, não era um arquitecto que pretendiam, mas sim um artista, um pintor ou um escritor, ou talvez mesmo um poeta, esses, são as melhores cobaias para as experiências ETs. Pois, estavam à procura de alguém que acredite em coisas que não se vêem. Expliquem-me só como é que se pode acreditar em coisas que não se vêem? Se não se vêem é porque não existem! Certo? Qual metafísica qual quê? Todos concordarão comigo. Invisível à vista, invisível ao coração, ponto final! Ora bem, dizia eu, entraram na minha cabecinha toda bem afinada e não encontraram nada, rigorosamente nada! Justifico: eu não tinha nenhuma consciência metafísica do mundo. Não tinha uma nesga de consciência transcendente em mim. Eu sou assim, um tipo que só acredita naquilo que vê, acreditava eu… Fizeram experiências comigo! Foram maus, muito maus. Ainda hoje tenho dificuldades em dormir. Obrigaram-me a Sentir. Que estranha coisa! Eu estava tão bem no meu mundo regrado e bem construído. Nunca teria desejado isso. Não desejo isso a ninguém. Obrigaram-me a sentir uma árvore. Não é que o raio da árvore estava mesmo viva e que estava tão assustada como eu, de estar ali, no meio daquelas duas ETs desavergonhadas. Sofri tanto de sentir que ainda hoje guardo mazelas. É o que, comummente, se designa por choque post-traumático. Já não consigo esborrachar um simples insecto, porque tenho medo do que possa sentir. E se fosse eu, a ser esborrachado? Tramaram-me a vida. Agora até já acredito em divindades. Rezo todos os dias dois pais-nossos e um sutra, pois não quero ofender nenhuma religião. Agora sou assim, depois da minha estranhíssima aventura. Quem está contente comigo é Sophia. Diz que me abri ao mundo e que agora sei dar valor às coisas realmente importantes. Eu digo que me tramaram. Não podiam ter feito pior! Sentir todos os dias cansa! Depois das experiências, teleportaram-me de volta para o meu carro. No meu relógio só tinham passado cinco minutos. Lá tive que ir ver os meus sogros. E não é que até lhes achei piada. O mundo já não é o que era. Por favor, tenham cuidado com as vossas saídas à noite, se estiverem pelos lados de Leiria. Eles estão no meio de nós…


[imagem de Tina Mérandon: Homme_coquillage]

Arquitecturas do búzio das manhãs silentes
levam memórias olvidadas a galgarem pelo vento
alforge de verdades a sorrirem para longe.
Amanhã, talvez, da lura suas rosas
do pranto a sempiterna ária

um navio de albas a perder-se na escuridão.

*


pertenço a uma nação que não existe
sou viajante de silêncios interditos
a minha mão reveste vozes esquecidas
o meu crer vontades por preencher


*

Um gato do tempo antes do tempo
Silencia a passagem da faúlha ausente
Para guardar nos seus olhos o momento
Que o tornou gato de olvidadas memórias



Thursday, September 07, 2006

Innamoramento


Nunca lhe respondera. Nem do paradeiro do seu olhar sabia. Arfava da cidade dos letrados, onde compunha silêncios anoitecidos. Perita em silenciar luares, o seu coração vagueava as encostas do poente, sem se afligir com a possibilidade de se tornar num sem-rosto da multidão. Em contra-corrente, era assim que fugia.

A culpa não era dela, mas sim do outro, do Passado alvorado. Algemada de si própria, sem vontade de desenterrar o nascer prometido, vagueava noite adentro, como um animal noctívago.

As letras que compunha exsudavam como chuva miudinha, espelhando-se pelos poros do seu rosto arredio. Ainda hoje, ele não sabe qual a cor dos seus olhos, nem se era importante deixa-la poisar nos seus.


Tudo são estares, momentos a errarem pelos recessos da esperança.

Deste lado da tela, uma mão entristecida redige as letras que poderia ter composto:

Innamoramento

Toi qui n’as pus su me reconnaître
Ignorant ma vie, ce monastère, j’ai
Devant moi une porte entrouverte
Sur un peut-être
Même s’il me faut tout recommencer

Toi qui n’as pas cru ma solitude
Ignorant ses cris, ses angles durs, j’ai
Dans le cœur un fil minuscule
Filament de lune
Qui soutient là, un diamant qui s’use…
Mais qui aime

Refrain :

Je n’ai pas choisi de l’être
Mais c’est lá,“l’innamoramento”
L’amour, la mort, peut-être
Mais suspendre le temps pour un mot
Tout se dilate et cède à tout
Et c’est lá, “l’innamoramento”
Tout son être s’impose à nous
Trouver enfin peut-être un écho


Toi qui n’as pas vu l’autre côté, de
Ma mémoire aux portes condamnées, j’ai
Tout enfoui les trésors du passé
Les années blessées
Comprends-tu qu’il me faudra cesser

Moi qui n’ai plus regardé le ciel, j’ai
Devant moi cette porte entrouverte, mais
L’inconnu a meurtri plus d’un cœur
Et son âme sœur
On l’espère, on l’attend, on la fuit même
Mais on aime

[Letra e música de Mylene Farmer : Innamoramento]


Wednesday, September 06, 2006


[Autor desconhecido: le poet]

In my craft or sullen art

In my craft or sullen art
Exercised in the still night
When only the moon rages
And the lovers lie abed
With all their griefs in their arms,
I labour by singing light
Not for ambition or bread
Or the strut and trade of charms
On the ivory stages
But for the common wages
Of their most secret heart.

Not for the proud man apart
From the raging moon I write
On these spindrift pages
Nor for the towering dead
With their nigthtingales and psalms
But for the lovers, their arms
Round the griefs of the ages,
Who pay no praise or wages
Nor heed my craft or art.

[Dylan Thomas: Collected Poems 1934-1953]


Harmonie du soir

Voici venir les temps où vibrant sur sa tige

Chaque fleur s'évapore ainsi qu'un encensoir ;

Les sons et les parfums tournent dans l'air du soir ;

Valse mélancolique et langoureux vertige !


Chaque fleur s'évapore ainsi qu'un encensoir ;

Le violon frémit comme un coeur qu'on afflige ;

Valse mélancolique et langoureux vertige !

Le ciel est triste et beau comme un grand reposoir.


Le violon frémit comme un coeur qu'on afflige,

Un coeur tendre, qui hait le néant vaste et noir !

Le ciel est triste et beau comme un grand reposoir ;

Le soleil s'est noyé dans son sang qui se fige.


Un coeur tendre, qui hait le néant vaste et noir,

Du passé lumineux recueille tout vestige !

Le soleil s'est noyé dans son sang qui se fige...

Tout souvenir en moi luit comme un ostensoir !


Charles Baudelaire

Sunday, September 03, 2006


[imagem de Oliveir Cousinou: Alchemy]


perdeu-se a margem do que está perto
perdeu-se o rubor do quem vem de longe
uma folha branca urde corações pela noite adentro


*

calmo, sereno, o ponteiro desobedece
à cadência do olhar
porque terna e foragida a cor avança a recuar

*

pr’além das formas?
talvez outras formas, mais conforme
o compassar das estrelas, noites brancas a dormitar

*

o peso do espanto pesa madrugadas
no imo soturno que lê favosas memórias

*

nada será como dantes
hoje o passado é um futuro estranho

*

nas sombras da origem um mar revolto avança
tenazes de quartzo desdobram-se no lúmen
a liquefacção dos sentidos será o pano a cair

*

sumiu-se a memória da alvorada
uma noite clara hasteou o pano da saudade

Saturday, September 02, 2006


[Imagem de Olivier Cousinou: Chasma Polar]

Alhures, onde os moinhos escavam sorrisos
E a lua tece madrugadas
A sede une-se novamente ao fogo
E a fraga faz-se levante para que o dia irrompa

*

É uma estranha canção
Que se repete e repete indefinidamente
Aqui, onde o coração sulca estranhas saudades

Uma viola desenha refrãos que pernoitam no olhar

*

Custa-lhe tanto dizer adeus a ontem
Mas custa-me mais ainda ela não se virar para hoje


Ontem, rente ao crepúsculo, vi as cores das estrelas desmaiarem da sua substância. Que estranho espectáculo esse de ver a luz da eternidade sumir-se como uma aragem escorregadia.

Estava recostado numa árvore, na minha querida Ceneia, nome que de bom grado aceitou. Se Ceneia soubesse falar, e bem sei que o sabe, com certeza que demonstraria a sua surpresa, assim como os meus olhos o fizeram. Agora que me estou a lembrar, não proferi uma única palavra. Enfiei-me no mutismo ardiloso de que Ceneia é mestre.

Uma mortalha de escuridão recobrira a floresta por completo. Era como se a grande lâmpada do mundo tivesse deixado de funcionar. Bichos e insectos calaram-se para ouvir a voz do silêncio naufragar. Curiosamente, um tal espectáculo deveria ter-me incutido medo, o medo ancestral que predomina em qualquer criatura viva. Mas não, estava calmo, como um gato a domesticar os sonhos. Nessa altura, lembro-me de não mais conseguir urdir um único pensamento. Eles calaram-se, como o resto do mundo. Ficamos assim durante uma eternidade. Não sei quanto tempo passou, não faço a mais pequena ideia. Os únicos sentidos que não fizeram greve aos acontecimentos foram o tacto e o olfacto. Ainda conseguia tactear o tronco da minha Ceneia e cheirar-lhe a sua fragrância natural.

Ficamos à espera. Esperamos, esperamos, e voltamos a esperar. Mas nada! Não acontecia rigorosamente nada. E pior ainda, não conseguia preocupar-me com o facto de não me apoquentar. É uma sensação estranha, tornar-nos insensível. Talvez seja essa a forma de sentir da pedra, estar sem estar, ser uma observadora impassível e impenetrável. O que é certo é que assim ficamos, sem pressa de ver fluir o tempo, pois esse nunca pára.

Não sei se adormeci acordado, se me apaguei de mim próprio, ou se foi o vento que me levou para a outra margem. Mas certo é que acordei a fitar o mais belo nascer de luz que alguma vez me foi dado contemplar. A vida encheu os seus pulmões e enfunou velas luminescentes rumo à terra mais distante. Esse foi o meu primeiro dia de Langolia.

Friday, September 01, 2006

Intermitências do ser e do não ser


[Nascimento: Salvador Dali]

A placidez dos dias já não me enche como dantes. A letargia de não saber o que fazer com o tempo, de o ver definhar-se aos meus pés e de não ter mãos para o suster contra o meu peito, impele-me a vazar todo o negrume dentro de mim para esta página quase branca. As palavras caiem como granizo. O som das mesmas incomoda o meu estado de espírito. Sim, as palavras têm um som, o som do tédio a salpicar a folha de papel. Por mais ridículo que pareça é precisamente esse papel que atesta que ainda estou vivo. Sim, estou vivo, mas a vida foge-me como a sombra que não se deixa algemar. Quero agarra-la, aperta-la contra mim, e deixar o sonido da folhagem da alma fazer o seu mister. Às vezes, confesso, sinto-me poeta. É nesses momentos que mais necessito do ouvido da vida. É nesses eternamente curtos momentos que sinto que preciso de ser, para não deixar fugir os laivos de esperança que acumulo diariamente. Eu sou como uma tela impressionista. Tento capturar os vestígios das nuvens que passam sem avisar. Elas passam, as nuvens, passam sempre, mas tenho de as requestar, tenho de lhe provar que eu sou a tela onde podem (re)pousar. Mas a invalidez do meu estado anímico não me permite sempre permear o meu ser. Há aquele maldito hiato de vácuo, de nada, de não ser e de não saber sonhar que me levam ao desmoronamento. Ai, se eu soubesse sonhar, se eu soubesse plantar sementes nas nuvens em vez de as ver passar. Se eu soubesse, encheria esta página de sol e de cores garridas e ofertá-las-ia a quem quisesse entrar no meu sonho, que não custa mais do que um momento de eternidade.


[Melancolia: Albrecht Dürer]

Muito agradecido lhe sou pela generosa partilha das suas prístinas palavras.
Ontem, uma delas, a mais traquina, enfiou-se-me sorrateiramente pelo vestíbulo do meu olhar. Galgou rosto acima como um potro sem freio e sem vergonha. Não demorou muito a encontrar o que com tanto zelo procurava. Espantada, a anfitriã, levantou-se estremunhada do seu pranto e, de imediato, enfiou a sua mais bela túnica, toda ela luz e amanhecer. Mas, a palavra, ainda que imberbe para alguns, não se deixou seduzir pelo aparato ilusório da sua visita desprevenida. Agarrou-a pelas mãos, despiu-a dos seus trajes faustosos e empurrou-a rosto abaixo.
Resultado: sem querer e sem saber, a melancolia envasou numa série de letras (des)ordenadas, linhas a emergir, nas quais ela se olhou e, pasmada, como se da primeira vez se tratasse, nua se contemplou.

Thursday, August 31, 2006



recumbente o vagido da Noite cintila
às portas do coração dobrado sobre si próprio

as mãos do passado regressam vazias
como o parto da luz que enche sem preencher
à míngua de uma verdadeira sede estival

o oiro da ária pelo melro repetida
faz-se sentir na longínqua distância do prometido
os braços abrem-se para acolher a esperança sorridente

Escuta este grande segredo:
Onde o lume foge à sede
E o prazer à dor ainda por chegar
As mãos recostam-se na noite clara
Porque cegas de ver não ousam acreditar

*

De palavras vazias a boca mastiga o seu refrão
É-lhe tão fácil vociferar a tristeza entumecida
Tão difícil não espreitar pelas cicatrizes recuperadas
Porquanto cair dói menos do que levantar-se com determinação

*

Se não acreditas por que perguntas?
Não perguntes se não queres acreditar
Não acredites se não ousares perguntar

*

Eu sei para onde sonhar
E Tu?
Por que me dás sentenças?
Se nem sequer aprendes a chorar

*

És mais cadavérico do que julgava
A tua pele enreda-se à volta dos teus olhos
E os teus olhos segregam os ossos da putrefacção

*

Estou cansado
Como a fome de acreditar
Nada muda
Tudo se repete
Até à exaustão

*

Não digas mais nada
A tua surdez impede-te de falar
E o meu mutismo de te ouvir

*

Que distância vai de um coração ao outro?
Duas lágrimas, um sonho, e cinco mãos de compreensão


[tela de René Magritte]

Un endroit tourmenté hante la douleur du poète
renfermer sur lui-même, renfermer dans son monde
où les ombres et la lumière se côtoient
pour invoquer le silence des forces éternelles.

C’est le langage des prophètes, c’est la voix de la nuit
qui se manifeste dans son cœur : rêveur et solitaire.

Ce sont ses larmes qui accusent sa passion acharnée
nourrissant la souffrance de son âme
afin de lui éclaircir les horizons du Levant,
là-bas, très loin, tout proche, au seuil de l’au-delà.

*

Revêtus de haillons les mots se bousculent
à chaque tournant un faux éclat
à chaque mouvement une fausse vertu
engagés avec l’esprit du miroir transparent.

La main les guide, la plume les tisse
et en vain ils cheminent vers le sillage de l’Orient
reflet âpre d’une réalité interdite
pourpre dans ses lignes désaxés,
où l’essence du Réel est un voile ; à jamais recouvert.

Puissent-ils un jour fleurir, puissent-ils répartir la lumière !


L’azur en soi au-delà de soi


Le berger de l’âme se questionne
Il sent en soi l’azur d’un au-delà
Qui germe en lui le bleu des champs
Et par au-delà d’un soi mal présent
Se questionne si tout n’est que néant


Le berger s’accommode peu d’un bleu fade
Et recherche les trésors du doux saphir
Car seul sa voix peut scintiller
L’azur d’un moi bien au-delà de soi

Wednesday, August 30, 2006

Eu próprio o Outro



(falso espelho - René Magritte)

Já nem sei como aconteceu! Nem do estado do tempo mantive a impressão. Acordei, como se acorda em mais um dia no longo e penoso ciclo do vai e vem existencial. Ao início, não tinha reparado. As ramelas obstruíam o meu sentido mais apurado, a saber, a visão. Lavei a cara com água fria, pois só o frio consegue distrair o calor acumulado ao longo de uma noite cálida, mas sem sonhos.
Foi quando me vi no espelho. Sim, nesse objecto que diariamente pretende lembrar os meus olhos aquele que supostamente sou. Foi nesse preciso momento que a coisa aconteceu. Primeiro, fiquei assustado. O frio da água trespassara-se sorrateiramente pela soleira da minha alma, agora baldia e pálida como a face da lua. O meu rosto já não me pertencia! Conseguem imaginar?! Quando sorria, o espelho respondia-me com um ar pesado e severo. E quando esboçava um ar de enterro, o espelho sorria-me como uma criança diante dum presente. O mundo tinha acordado ao contrário! Nada do que fazia era-me retribuído. Comecei logo a pensar nas implicações que a situação augurava para o resto do dia e, quiçá, da vida. Quem me diz que os outros verão realmente quem está diante deles - pensei. Irão reconhecer-me? Serão eles capazes de ver que não sou eu?, mas um outro eu de mim mesmo, um fac-simile ao contrário. Se o espelho me devolve uma imagem ao contrário, quem me assegura que os meus sentimentos se mantém iguais a si próprios?, e não invertidos. A cabeça começava a latejar uma sinfonia angustiante. Aquele não és tu, mas vais ter de fingir que és tu! – dizia-me uma voz. Agora sim, agora vais deixar de representar, agora é que vais libertar o teu eu verdadeiro – afirmava outra voz, com convicção. Há males que vêm por bem. Nada acontece por acaso. Não tenhas medo. Sê como és. Não ligues ao que os outros pensam. Sê tu próprio! Sorri. Aconteceu. – diziam outras vozes em cacofonia. Ser eu? Mas acaso não é o que diariamente sou? Okay, não digo tudo o que penso. Tenho de obedecer ao politicamente correcto, pois sou um animal social, certo?! Mas daí a não ser eu, e hoje o ser por ter acordado ao contrário. Algo está errado. Será do espelho? Ou dos sentimentos que estou a espelhar? Porquê hoje e não ontem? Volto a olhar para o espelho, fixamente. Quem és tu?, pergunto incrédulo. Eu sou mesmo tu, reponde o espelho – e sorri, maliciosamente. Furioso, agarro no secadouro e arremesso-o com vigor contra a minha imagem invertida. O espelho estala em mil pedaços! Os cacos juncam o chão da casa de banho. Sinto-me aliviado. Ele já não me olha. Olho para o chão, e o rubor cora o meu semblante. Já não é um outro eu a fitar-me maliciosamente. Agora, são dezenas de eus!

Monday, August 28, 2006

traz a espera das pedras dentro de ti
traz o lume do astrolábio no coração

alimenta a Noite e deixa-a fulgir
o fulgor da eterna Primavera
a cadência do sopro do pão essencial

uma flor dos tempos ancestrais floresce
sempre que o teu olhar se cega para o dia

*

sempiterna essa música inaudível
o silêncio rasa os prados da melancolia
em busca de um ouvido para selar a incompreensão

*

às vezes a imagem deixa transparecer
o reflexo de um deus embutido na matéria

às vezes é luz, outras vezes negrume
a tactear a esperança de um sorriso carente
uma mão aberta para o passado, o devir em mutação



(a máscara da dor - Colette Cohen-Abbate)




dobrou a dor como se dobra um lençol
arrumou-a numa gaveta perdida da sua memória
acreditou no seu acto como se acredita em estrelas
mas a dor voltou porque nunca a tinha abandonado

*

a insónia ancora os seus pés na dor
porque a vigília permite-lhe sentir o parto
que as trevas querem transformar em luz

Saturday, August 26, 2006


(imagem de Jacek Jerka)



nas delongas do vazio da luz
os olhos perdem-se no horizonte das trevas
sempre em busca

de um sol, de uma lua, uma estrela cintilante

as ânforas da esperança enchem-se de memórias
ainda por vir, ainda que não venham

sempre a corrigir as linhas de um sonho transeunte


e no final um clarim de seda enche os seus pulmões
para tocar no dorso da espera a certeza da liberdade

*

é preciso viajar nas fímbrias do símbolo
ir ao encontro daquele que não é nomeável

o que tem nome está preso do outro
o que não tem possui a real identidade
o que vagueia sem vaguear
o que está não estando ainda que ausente

é preciso galgar a verve do indeterminado
ir onde os sentidos morrem para regressar transfigurado

*

vago, incerto, o momento do naufrágio subtil
dúctil aragem do sopro cambiante
a lavrar a dor daquele que já nada espera

somente o sal da lágrima persiste
somente o silêncio fulgurante da manhã estival

*

estornar o destino?
rectificar um acto roubado ao momento?

talvez esperar pela sabedoria das pedras
que não padecem dos estigmas da humanidade

*

pediste-me asas de cera
derreti os meus sonhos para poderes voar


D’où me vient cette solitude si lointaine ?
qui brille comme une lampe des temps ensevelis
une lumière pâle ôtée de ses racines
une lueur se fanant dans l’aube de tout espoir.

Est-ce le vœux d’un dieu oublier par les miens ?
où une âme errant dans les limbes de mon être ?

Je cherche, j’écoute, j’apprends malgré mon ignorance
et je sais que ce corps, sans peau, revêtue de tristesse
n’est que le symptôme d’un rêve égaré, un paradis perdu ; mais non oublié !