
Encontramo-nos num saguão obscurecido pela luz bruxuleante do anoitecer. A lua recolhera-se nos seus lençóis estrelados. Naquele dia, simplesmente não aparecera, se é que alguma vez, por aqueles lados, aparece. A escuridade parecia querer imperar naquele sítio sombrio, onde o silêncio preenchia o espaço à minha volta. Estranhei estar sozinho. Afinal de contas, nunca antes tinha verdadeiramente estado sozinho. Era a minha primeira experiência de grau zero. O que é o grau zero? O grau zero é o momento circular. O que é o momento circular? É o momento em que o princípio e o fim se juntam e se fundem, como dois corpos apaixonados à procura do uno. Onde estive, porque já não estou, uma vez que tudo obedece ao princípio da cadência permanente, o tempo deixa de fazer sentido. Essa coisa do tempo é a mais bela invenção humana. Imaginem só um instante o homem sem os seus arrimos temporais! Ele precisa de ter consciência de um passado, de uma história, que por ventura será a sua história, e de um presente-futuro-em-andamento, para não se perder nas malhas do que acredita ter deixado para trás. Nada fica para trás. Tudo singra no momento que se abre continuamente. É essa a Lei. A memória, outra invenção humana, deixa de existir, porque naquele preciso momento ainda ninguém foi nomeado. O nome, o verdadeiro nome, não aquele escolhido pelos pais, o que permanece soterrado nas costelas do âmago e que, também ele, singra com o momento sempiterno, esse, é-nos dado depois. Primeiro vem a experiência do Nada. Só se pode preencher o que está vazio. É lógico, não é? Por isso é que se começa pelo Nada. É uma experiência aterradora. É nesse preciso instante que as sensações irrompem tumultuosamente. São-nos entregues as sensações da dor, do medo e do amor. Todo o resto são variações contínuas destas três formas abstractas encastoadas naquilo que se poderá apelidar de essência. O mínimo é o caminho. O caminho é o mínimo maximizado. E o máximo é o mínimo. Não entendem? Não faz mal. As palavras são a forma de comunicação mais rudimentar que a humanidade desenvolveu. É um princípio, verdade seja dita. Já repararam a quantidade de vezes que repeti a palavra princípio? Quatro, contei quatro, como as quatro direcções do vento, que conduzem para tantas outras direcções variegadas. Quatro, como os quatro cantos do quadrado, que em si encera os dois triângulos invisíveis. Quatro como as quatro pontas da cruz, contendo a intersecção mágica, o centro dos caminhos possíveis. Quatro parece-me importante. Não vos parece? Mas íamos no princípio, não é? Ou talvez não estivesse a falar do princípio, mas do fim. Mas que fim?, se tudo é movimento, cadência perpétua! Grau zero, pois… Mas ainda não vos falei de como a conheci, naquele saguão escuro e distante de tudo o que é conhecido. Ela, não é bem uma ela, é antes um vulto. Mas esse vulto também é um segundo rosto, ou talvez o primeiro rosto, e eu não seja mais que o vulto desse vulto que afinal sou eu. Ela, porque se há um ele há uma ela. É o princípio elementar da teoria dos opostos. Eu sou parte dela, ela é parte de mim, Anima e Animus. É simples! Não se baralhem. O vulto, que apreendi nesse espaço distante e perto ao mesmo tempo, fez-me revelações interessantes. Não falou comigo. Nesse sítio, já disse que o silêncio era soberano. A linguagem é outra. É a linguagem das essências, da energia perpétua, reclusa da sua própria criação. Falou-me da inveja das essências. Fiquei estúpido! Fiquei com a sensação de estupidez, porque ainda não era, apesar de estar prestes a ser. Como? – disse nessa linguagem sem palavras. «Elas querem possuir. Elas querem ser formas porque nas formas oculta-se o segredo». Não percebi nada! Mas que segredo? A essência não é tudo? A mecânica celeste não está no invisível? Disse-me que a razão de ser a minha Anima é porque é necessário ser dois para ser um e que só o um descobre o princípio das formas. Voltei a não perceber nada. Mas isso é normal. Ainda não era dois para poder ser um e só um consegue desvendar o segredo das formas. Lá fui, com ela ancorada a mim. Saímos do grau zero e entramos na bruma…
















