Tuesday, October 24, 2006


[Jackson Pollock: A Mulher-Lua]

alento longínquo, alento de outrora, Aurora
desliza os teus lábios transparentes pela madrugada
e irrompe nas terras de Kalfaran a tua luz suave
irrompe a promessa dos dias de então
antes que as sombras grelem as geadas esquecidas
que vogam como águias insaciáveis
em busca de presas, em busca da luz que não lhes pertence

*

bastou um murmúrio, bastou um olhar
para que o silêncio erguesse a sua voz
e brotasse as flâmulas das primícias

a distância estiolou-se como um crepúsculo
mandrágoras olvidadas acordaram do seu sono
a mão de prata colheu os caules da promessa

bastou uma semente, bastou um crer
para que a flauta de quartzo preenchesse o vazio

Lá-bas



Là-bas
Tout est neuf et tout est sauvage
Libre continent sans grillage
Ici, nos rêves sont étroits
C'est pour ça que j'irai là-bas


Là-bas
Faut du coeur et faut du courage
Mais tout est possible à mon âge
Si tu as la force et la foi
L'or est à portée de tes doigts
C'est pour ça que j'irai là-bas


N'y va pas
Y'a des tempêtes et des naufrages
Le feu, les diables et les mirages
Je te sais si fragile parfois
Reste au creux de moi


On a tant d'amour à faire
Tant de bonheur à venir
Je te veux mari et père
Et toi, tu rêves de partir


Ici, tout est joué d'avance
Et l'on n'y peut rien changer
Tout dépend de ta naissance
Et moi je ne suis pas bien né


Là-bas
Loin de nos vies, de nos villages
J'oublierai ta voix, ton visage
J'ai beau te serrer dans mes bras
Tu m'échappes déjà, là-bas


J'aurai ma chance, j'aurai mes droits
N'y va pas
Et la fierté qu'ici je n'ai pas
Là-bas
Tout ce que tu mérites est à toi
N'y va pas
Ici, les autres imposent leur loi
Là-bas
Je te perdrai peut-être là-bas
N'y va pas
Mais je me perds si je reste là
Là-bas
La vie ne m'a pas laissé le choix
N'y va pas
Toi et moi, ce sera là-bas ou pas
Là-bas
Tout est neuf et tout est sauvage
N'y va pas
Libre continent sans grillage
Là-bas
Beau comme on n'imagine pas
N'y va pas
Ici, même nos rêves sont étroits
Là-bas
C'est pour ça que j'irai là-bas
N'y va pas
On ne m'a pas laissé le choix
Là-bas
Je me perds si je reste là
N'y va pas


Ouvir
[Música: Jean-Jacques Goldman & Sirani]

Thursday, October 12, 2006

inquieta a moldura do sono tacteia as palavras
que surgem do búzio, da inconsútil solidão
são galhos brancos espalhados pelos sulcos do lume
aromas de giestas a treparem pelo silêncio resfolegado


os dedos movem-se, as palavras descem de cima
um trono de âmbar levanta-se para recebê-las
uma taça de gratidão espelha o pasmo essencial

a escrita trina a sua voz em labaredas de borboleta
e a cor da bonança surge, em jeito de dádiva, de fraterno enlace

Saturday, October 07, 2006


Fendida, a lágrima
esvai-se da sua textura porosa.
Opalas do Nenhures
curvam-se perante a perda
e ninguém intervém.

Atrás da lamúria
um vento sem destino
regressa, incólume
da purpurina vontade
dos sem-nome e sem abrigo
que se içam, se levantam
do negrume encastelado.

Algo mudou
o ar deixou de ser o mesmo
da fronte celeste cresceu o chifre
distante e luminescente.

Uma voz rompeu o tule
que separava as distâncias.
Um esteio lazulite emergiu
dos recessos mais desconhecidos.

Uma chama acolheu as lágrimas
as lágrimas acolheram a chama.

Sunday, October 01, 2006

A complexa ciência da simplicidade


[ CANDIDO PORTINARI, Criança Morta (Criatura muerta), 1944]

Esta coisa de ser simples não é assim tão evidente como, à priori, pode parecer. Nunca fui de grandes conversas, o indispensável, simplesmente. Alongar-me nos atavios da linguagem nunca foi o meu forte. Gosto se usar respostas curtas e sem grandes complicações de índole intelectual. Para quê esboçar toda uma teoria sobre um assunto se o resultado não passa de meia dúzia de ideias que têm ou não uma aplicação prática. Pragmatismo, sim, eis a chave da minha simplicidade. Evito todo o tipo de questões que não sejam viáveis ou que não me tragam algo de positivo para o meu dia-a-dia.
Esta coisa das ciências esotéricas é uma chatice, uma complicação desnecessária. Entendam-me, por favor, pensar naquilo que não é palpável, que não passa de ideia, não tendo aplicação prática, não me inspira confiança alguma. Eu, por exemplo, sou ateu! Não acredito em absolutamente nada que não seja visível ou palpável.
As pessoas, ao meu redor, as que matutam sobre as forças ocultas, não são pessoas felizes. Nunca repararam?! Eu avisto-as a léguas de distância! Faço os possíveis e impossíveis para não pensar demasiado no assunto, mas, confesso, nem sempre consigo. Quando me abordam com conversas de destino, deuses salvadores, bem, mal, missões individuais, aprendizagens, inconsciente colectivo etc… fico pálido. Não será bem o meu rosto que se torna branco como cal, mas algo dentro de mim. Porquê? É simples, fico estúpido de pensar que essas pessoas se consomem em pensamentos aporéticos. Como é que se pode ser feliz se cultivamos uma clara noção de incapacidade face a respostas impossíveis. Não se pode, matuta-se, matuta-se e não se sai do negrume da incompreensão.
Quero lá saber se Deus existe ou não! Nunca conversamos. Deve ser demasiado complexo para os simples como eu. Dispenso a apresentação. Se não pensar nele, antes prossiga a minha vida regrada, não tenho dúvidas de não ser afectado por esse caruncho. A ignorância continua a ser a melhor terapia para se atingir a simplicidade. E quem diz simplicidade, diz felicidade.

Saturday, September 30, 2006


[Hermes Trismegisto]


Nas terras de Unicórnia, onde o vento é ouro
e as manhãs prata a resplandecer a luz sumida
um artesão tece luas e poentes vindos do coração
sem que o seu fôlego consiga atenuar as imagens
que singram dentro dele como estrelas vagabundas.

As suas mãos choram o silêncio da esperança abafada
os seus olhos distanciam-se da realidade ilusória
porque a alba prometida se ergueu como um sol.
A anafaia do equilíbrio olvidado urdiu-se de novo
e de novo o véu dos véus envolveu a sua mágoa
e de novo o verdadeiro círio clamou a sua presença

em nome da pertença, em nome da iniciática revelação.

Jamais os filhos de Unicórnia se esqueceram dos seus
jamais o brilho da chama anelar se esvaiu sem destino.
Nada se perde na imensidão da terra sagrada
onde a memória é um suspiro em composição
e a morte uma borboleta alegre sem vestes efémeras.

Urde artesão, urde as pontes de marfim estrelar

e que o teu mester seja a voz da margem sempiterna.

Monday, September 25, 2006

A voz do Silêncio

A voz do silêncio é uma música inaudível que trespassa todas as paredes de ar e de mármore, e se distende, como os feixes do sol, na esperança de abraçar as linhas da terra. É um bulício suave cantado por uma alma mais vasta e mais profunda que tudo o que subsiste. É talvez um clamor silencioso no ventre da matéria, insone e misterioso, que obedece ao sonho da energia elemental. Sim, a silenciosa voz que enleia sem enlear segue a melódica vibração da sua verve cristalina, porque responde a uma apelo tão secreto como a sua forma: hialina, etérea, e por demais inominável. Sim, é o seu eco que ressoa no meu ser, como as cordas de uma viola a tinir notas melodiosas. E o coração estremece perante tamanho encanto, quando se desliga do supérfluo e aceita a noite como sua mensageira e o silêncio como voz de verdades inefáveis.

Sunday, September 17, 2006

Grau Zero



Encontramo-nos num saguão obscurecido pela luz bruxuleante do anoitecer. A lua recolhera-se nos seus lençóis estrelados. Naquele dia, simplesmente não aparecera, se é que alguma vez, por aqueles lados, aparece. A escuridade parecia querer imperar naquele sítio sombrio, onde o silêncio preenchia o espaço à minha volta. Estranhei estar sozinho. Afinal de contas, nunca antes tinha verdadeiramente estado sozinho. Era a minha primeira experiência de grau zero. O que é o grau zero? O grau zero é o momento circular. O que é o momento circular? É o momento em que o princípio e o fim se juntam e se fundem, como dois corpos apaixonados à procura do uno. Onde estive, porque já não estou, uma vez que tudo obedece ao princípio da cadência permanente, o tempo deixa de fazer sentido. Essa coisa do tempo é a mais bela invenção humana. Imaginem só um instante o homem sem os seus arrimos temporais! Ele precisa de ter consciência de um passado, de uma história, que por ventura será a sua história, e de um presente-futuro-em-andamento, para não se perder nas malhas do que acredita ter deixado para trás. Nada fica para trás. Tudo singra no momento que se abre continuamente. É essa a Lei. A memória, outra invenção humana, deixa de existir, porque naquele preciso momento ainda ninguém foi nomeado. O nome, o verdadeiro nome, não aquele escolhido pelos pais, o que permanece soterrado nas costelas do âmago e que, também ele, singra com o momento sempiterno, esse, é-nos dado depois. Primeiro vem a experiência do Nada. Só se pode preencher o que está vazio. É lógico, não é? Por isso é que se começa pelo Nada. É uma experiência aterradora. É nesse preciso instante que as sensações irrompem tumultuosamente. São-nos entregues as sensações da dor, do medo e do amor. Todo o resto são variações contínuas destas três formas abstractas encastoadas naquilo que se poderá apelidar de essência. O mínimo é o caminho. O caminho é o mínimo maximizado. E o máximo é o mínimo. Não entendem? Não faz mal. As palavras são a forma de comunicação mais rudimentar que a humanidade desenvolveu. É um princípio, verdade seja dita. Já repararam a quantidade de vezes que repeti a palavra princípio? Quatro, contei quatro, como as quatro direcções do vento, que conduzem para tantas outras direcções variegadas. Quatro, como os quatro cantos do quadrado, que em si encera os dois triângulos invisíveis. Quatro como as quatro pontas da cruz, contendo a intersecção mágica, o centro dos caminhos possíveis. Quatro parece-me importante. Não vos parece? Mas íamos no princípio, não é? Ou talvez não estivesse a falar do princípio, mas do fim. Mas que fim?, se tudo é movimento, cadência perpétua! Grau zero, pois… Mas ainda não vos falei de como a conheci, naquele saguão escuro e distante de tudo o que é conhecido. Ela, não é bem uma ela, é antes um vulto. Mas esse vulto também é um segundo rosto, ou talvez o primeiro rosto, e eu não seja mais que o vulto desse vulto que afinal sou eu. Ela, porque se há um ele há uma ela. É o princípio elementar da teoria dos opostos. Eu sou parte dela, ela é parte de mim, Anima e Animus. É simples! Não se baralhem. O vulto, que apreendi nesse espaço distante e perto ao mesmo tempo, fez-me revelações interessantes. Não falou comigo. Nesse sítio, já disse que o silêncio era soberano. A linguagem é outra. É a linguagem das essências, da energia perpétua, reclusa da sua própria criação. Falou-me da inveja das essências. Fiquei estúpido! Fiquei com a sensação de estupidez, porque ainda não era, apesar de estar prestes a ser. Como? – disse nessa linguagem sem palavras. «Elas querem possuir. Elas querem ser formas porque nas formas oculta-se o segredo». Não percebi nada! Mas que segredo? A essência não é tudo? A mecânica celeste não está no invisível? Disse-me que a razão de ser a minha Anima é porque é necessário ser dois para ser um e que só o um descobre o princípio das formas. Voltei a não perceber nada. Mas isso é normal. Ainda não era dois para poder ser um e só um consegue desvendar o segredo das formas. Lá fui, com ela ancorada a mim. Saímos do grau zero e entramos na bruma…


Wednesday, September 13, 2006

Paroles Paroles - Dalida & Alain Delon


Alain Delon:
C'est étrange,
je n'sais pas ce qui m'arrive ce soir,
Je te regarde comme pour la première fois.

Dalida:

Encore des mots toujours des mots
les mêmes mots
Je n'sais plus comment te dire,
Rien que des mots
Mais tu es cette belle histoire d'amour...
que je ne cesserai jamais de lire.
Des mots faciles des mots fragiles
C'était trop beau
Tu es d'hier et de demain
Bien trop beau
De toujours ma seule vérité.
Mais c'est fini le temps des rêves
Les souvenirs se fanent aussi
quand on les oublie
Tu es comme le vent qui fait chanter les violons
et emporte au loin le parfum des roses.
Caramels, bonbons et chocolats
Par moments, je ne te comprends pas.
Merci, pas pour moi
Mais tu peux bien les offrir à une autre
qui aime le vent et le parfum des roses
Moi, les mots tendres enrobés de douceur
se posent sur ma bouche mais jamais sur mon cœur
Une parole encore.
Paroles, paroles, paroles
Ecoute-moi.
Paroles, paroles, paroles
Je t'en prie.
Paroles, paroles, paroles
Je te jure.
Paroles, paroles, paroles, paroles, paroles
encore des paroles que tu sèmes au vent
Voilà mon destin te parler....
te parler comme la première fois.
Encore des mots toujours des mots
les mêmes mots
Comme j'aimerais que tu me comprennes.
Rien que des mots
Que tu m'écoutes au moins une fois.
Des mots magiques des mots tactiques
qui sonnent faux
Tu es mon rêve défendu.
Oui, tellement faux
Mon seul tourment et mon unique espérance.
Rien ne t'arrête quand tu commences
Si tu savais comme j'ai envie
d'un peu de silence
Tu es pour moi la seule musique...
qui fait danser les étoiles sur les dunes
Caramels, bonbons et chocolats
Si tu n'existais pas déjà je t'inventerais.
Merci, pas pour moi
Mais tu peux bien les offrir à une autre
qui aime les étoiles sur les dunes
Moi, les mots tendres enrobés de douceur
se posent sur ma bouche mais jamais sur mon cœur
Encore un mot juste une parole
Paroles, paroles, paroles
Ecoute-moi.
Paroles, paroles, paroles
Je t'en prie.
Paroles, paroles, paroles
Je te jure.
Paroles, paroles, paroles, paroles, paroles
encore des paroles que tu sèmes au vent
Que tu es belle !
Paroles, paroles, paroles
Que tu est belle !
Paroles, paroles, paroles
Que tu es belle !
Paroles, paroles, paroles
Que tu es belle !
Paroles, paroles, paroles, paroles, paroles
encore des paroles que tu sèmes au vent

[Palavras e Música: Michaele, M.Chiosso, G.Ferrio 1973
© Polygram ~ Barclay ~ Orlando Production]

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Tuesday, September 12, 2006

Eurídice


[autor da imagem desconhecido]

Diz-me, Eurídice
Quando te calas sabes quem calas?
Os dias param
As noites enchem-se de poeira
Soletrando a angústia da distância

Diz-me, Eurídice
Quando te leio sabes como te leio?
Os olhos regalam-se
As tuas palavras escavam promessas
Que rutilam a tua ausência-fragrância


Diz-me, Eurídice
Quando te perdes sabes quem se perde?
A minha boca seca-se
Os meus lábios definham-se
Sabendo que sofres e que não me ouves

Friday, September 08, 2006

Eles andam por aí!


[autor da imagem desconhecido]

Não estou doente! Demiti-me de todos os cargos que me obrigavam a ver para crer!
No outro dia, fui raptado por extraterrestres. Não acreditam?! Então vejam a elevada taxa de raptos ocorridos nos E.U.A. Ok, eu também não sou um grande fan dos americanos, mas há coisas que acontecem mesmo. Chamo-me Sandro Coimbra, arquitecto de profissão, e vivo em Leiria. Caso ainda não saibam, o distrito de Leira é simplesmente a área mais visitada pelos nossos amiguinhos cinzentos. Não, os meus ladrões (de)mentes não foram verdes, mas sim cinzentos. Isso tem que ver com algumas decisões geoestratégicas dos nossos observadores. Parece que são quatro tipos de raças. Calharam-me os menos maus, os que conversam. Enfim, dentro do meu azar, tive sorte. Estou inteiro e não foi necessário nenhuma regressão hipnótica para me lembrar de tudo. Verdade, pura verdade! Eu não estou a entrar em delírio neurótico. Isso é coisa de poetas ou pseudo-poetas. Eu, como acima referi, sou arquitecto, portanto, uma pessoa séria. A minha vocação é construir. Sou um construtor! Agora, imaginem só um momento o que me foi acontecer. Eu, um tipo sério e trabalhador, sem tempo para falsas melancolias, fui desavergonhadamente raptado por duas ETs. Sim, era meninas! Como sei? Pelo toque… e mais não conto pois nessas coisas também sou um homem sério. O que diria a minha esposa Sophia se soubesse? Portanto, isto fica entre nós, tu e eu. Ok?!
Já perdi o fio à meada. Ah, pois… o rapto das duas… O meu carro, a caminho dos meus sogros, avariou. Ao início, pensei: «Eh pá, que ganda chatice! Não vou poder ir ter com os meus sogrinhos», mas depressa me apercebi que há males que não vêm por bem! Lá fui teleportado para nave espacial. Um charuto, tipo os de Havana, ainda por cima. Não foi o Spock que me teleportou. Aqui, a tripulação foi outra. Sabiam que os Ets não têm ouvidos? É verdade! Juro! São surdos e mudos, como as pedras. Estamos a falar de seres evoluídos. N’est-ce pas? Usam a telepatia. E, para isso, nem precisam de ser gémeos. É mesmo natural. É um sentido que, no ser humano, ainda está em fase de construção. Estão a ver?, a importância da construção! Escolhi bem o meu ofício. Nisso, não tenho dúvidas. Ora, voltemos à minha história. Estava portanto a dizer que são telepatas, os nossos vizinhos, de Orion. Entraram-me, sem avisar, na minha cabeça. Despiram-na toda, todinha, só deixando a minha humilde ossatura cerebral, por assim dizer… Sabem o que queriam? Eu vou-vos dizer… Mas, antes disso, tenho lamentavelmente de reconhecer que houve engano, no rapto. Sim, não era um arquitecto que pretendiam, mas sim um artista, um pintor ou um escritor, ou talvez mesmo um poeta, esses, são as melhores cobaias para as experiências ETs. Pois, estavam à procura de alguém que acredite em coisas que não se vêem. Expliquem-me só como é que se pode acreditar em coisas que não se vêem? Se não se vêem é porque não existem! Certo? Qual metafísica qual quê? Todos concordarão comigo. Invisível à vista, invisível ao coração, ponto final! Ora bem, dizia eu, entraram na minha cabecinha toda bem afinada e não encontraram nada, rigorosamente nada! Justifico: eu não tinha nenhuma consciência metafísica do mundo. Não tinha uma nesga de consciência transcendente em mim. Eu sou assim, um tipo que só acredita naquilo que vê, acreditava eu… Fizeram experiências comigo! Foram maus, muito maus. Ainda hoje tenho dificuldades em dormir. Obrigaram-me a Sentir. Que estranha coisa! Eu estava tão bem no meu mundo regrado e bem construído. Nunca teria desejado isso. Não desejo isso a ninguém. Obrigaram-me a sentir uma árvore. Não é que o raio da árvore estava mesmo viva e que estava tão assustada como eu, de estar ali, no meio daquelas duas ETs desavergonhadas. Sofri tanto de sentir que ainda hoje guardo mazelas. É o que, comummente, se designa por choque post-traumático. Já não consigo esborrachar um simples insecto, porque tenho medo do que possa sentir. E se fosse eu, a ser esborrachado? Tramaram-me a vida. Agora até já acredito em divindades. Rezo todos os dias dois pais-nossos e um sutra, pois não quero ofender nenhuma religião. Agora sou assim, depois da minha estranhíssima aventura. Quem está contente comigo é Sophia. Diz que me abri ao mundo e que agora sei dar valor às coisas realmente importantes. Eu digo que me tramaram. Não podiam ter feito pior! Sentir todos os dias cansa! Depois das experiências, teleportaram-me de volta para o meu carro. No meu relógio só tinham passado cinco minutos. Lá tive que ir ver os meus sogros. E não é que até lhes achei piada. O mundo já não é o que era. Por favor, tenham cuidado com as vossas saídas à noite, se estiverem pelos lados de Leiria. Eles estão no meio de nós…


[imagem de Tina Mérandon: Homme_coquillage]

Arquitecturas do búzio das manhãs silentes
levam memórias olvidadas a galgarem pelo vento
alforge de verdades a sorrirem para longe.
Amanhã, talvez, da lura suas rosas
do pranto a sempiterna ária

um navio de albas a perder-se na escuridão.

*


pertenço a uma nação que não existe
sou viajante de silêncios interditos
a minha mão reveste vozes esquecidas
o meu crer vontades por preencher


*

Um gato do tempo antes do tempo
Silencia a passagem da faúlha ausente
Para guardar nos seus olhos o momento
Que o tornou gato de olvidadas memórias



Thursday, September 07, 2006

Innamoramento


Nunca lhe respondera. Nem do paradeiro do seu olhar sabia. Arfava da cidade dos letrados, onde compunha silêncios anoitecidos. Perita em silenciar luares, o seu coração vagueava as encostas do poente, sem se afligir com a possibilidade de se tornar num sem-rosto da multidão. Em contra-corrente, era assim que fugia.

A culpa não era dela, mas sim do outro, do Passado alvorado. Algemada de si própria, sem vontade de desenterrar o nascer prometido, vagueava noite adentro, como um animal noctívago.

As letras que compunha exsudavam como chuva miudinha, espelhando-se pelos poros do seu rosto arredio. Ainda hoje, ele não sabe qual a cor dos seus olhos, nem se era importante deixa-la poisar nos seus.


Tudo são estares, momentos a errarem pelos recessos da esperança.

Deste lado da tela, uma mão entristecida redige as letras que poderia ter composto:

Innamoramento

Toi qui n’as pus su me reconnaître
Ignorant ma vie, ce monastère, j’ai
Devant moi une porte entrouverte
Sur un peut-être
Même s’il me faut tout recommencer

Toi qui n’as pas cru ma solitude
Ignorant ses cris, ses angles durs, j’ai
Dans le cœur un fil minuscule
Filament de lune
Qui soutient là, un diamant qui s’use…
Mais qui aime

Refrain :

Je n’ai pas choisi de l’être
Mais c’est lá,“l’innamoramento”
L’amour, la mort, peut-être
Mais suspendre le temps pour un mot
Tout se dilate et cède à tout
Et c’est lá, “l’innamoramento”
Tout son être s’impose à nous
Trouver enfin peut-être un écho


Toi qui n’as pas vu l’autre côté, de
Ma mémoire aux portes condamnées, j’ai
Tout enfoui les trésors du passé
Les années blessées
Comprends-tu qu’il me faudra cesser

Moi qui n’ai plus regardé le ciel, j’ai
Devant moi cette porte entrouverte, mais
L’inconnu a meurtri plus d’un cœur
Et son âme sœur
On l’espère, on l’attend, on la fuit même
Mais on aime

[Letra e música de Mylene Farmer : Innamoramento]


Wednesday, September 06, 2006


[Autor desconhecido: le poet]

In my craft or sullen art

In my craft or sullen art
Exercised in the still night
When only the moon rages
And the lovers lie abed
With all their griefs in their arms,
I labour by singing light
Not for ambition or bread
Or the strut and trade of charms
On the ivory stages
But for the common wages
Of their most secret heart.

Not for the proud man apart
From the raging moon I write
On these spindrift pages
Nor for the towering dead
With their nigthtingales and psalms
But for the lovers, their arms
Round the griefs of the ages,
Who pay no praise or wages
Nor heed my craft or art.

[Dylan Thomas: Collected Poems 1934-1953]


Harmonie du soir

Voici venir les temps où vibrant sur sa tige

Chaque fleur s'évapore ainsi qu'un encensoir ;

Les sons et les parfums tournent dans l'air du soir ;

Valse mélancolique et langoureux vertige !


Chaque fleur s'évapore ainsi qu'un encensoir ;

Le violon frémit comme un coeur qu'on afflige ;

Valse mélancolique et langoureux vertige !

Le ciel est triste et beau comme un grand reposoir.


Le violon frémit comme un coeur qu'on afflige,

Un coeur tendre, qui hait le néant vaste et noir !

Le ciel est triste et beau comme un grand reposoir ;

Le soleil s'est noyé dans son sang qui se fige.


Un coeur tendre, qui hait le néant vaste et noir,

Du passé lumineux recueille tout vestige !

Le soleil s'est noyé dans son sang qui se fige...

Tout souvenir en moi luit comme un ostensoir !


Charles Baudelaire

Sunday, September 03, 2006


[imagem de Oliveir Cousinou: Alchemy]


perdeu-se a margem do que está perto
perdeu-se o rubor do quem vem de longe
uma folha branca urde corações pela noite adentro


*

calmo, sereno, o ponteiro desobedece
à cadência do olhar
porque terna e foragida a cor avança a recuar

*

pr’além das formas?
talvez outras formas, mais conforme
o compassar das estrelas, noites brancas a dormitar

*

o peso do espanto pesa madrugadas
no imo soturno que lê favosas memórias

*

nada será como dantes
hoje o passado é um futuro estranho

*

nas sombras da origem um mar revolto avança
tenazes de quartzo desdobram-se no lúmen
a liquefacção dos sentidos será o pano a cair

*

sumiu-se a memória da alvorada
uma noite clara hasteou o pano da saudade

Saturday, September 02, 2006


[Imagem de Olivier Cousinou: Chasma Polar]

Alhures, onde os moinhos escavam sorrisos
E a lua tece madrugadas
A sede une-se novamente ao fogo
E a fraga faz-se levante para que o dia irrompa

*

É uma estranha canção
Que se repete e repete indefinidamente
Aqui, onde o coração sulca estranhas saudades

Uma viola desenha refrãos que pernoitam no olhar

*

Custa-lhe tanto dizer adeus a ontem
Mas custa-me mais ainda ela não se virar para hoje


Ontem, rente ao crepúsculo, vi as cores das estrelas desmaiarem da sua substância. Que estranho espectáculo esse de ver a luz da eternidade sumir-se como uma aragem escorregadia.

Estava recostado numa árvore, na minha querida Ceneia, nome que de bom grado aceitou. Se Ceneia soubesse falar, e bem sei que o sabe, com certeza que demonstraria a sua surpresa, assim como os meus olhos o fizeram. Agora que me estou a lembrar, não proferi uma única palavra. Enfiei-me no mutismo ardiloso de que Ceneia é mestre.

Uma mortalha de escuridão recobrira a floresta por completo. Era como se a grande lâmpada do mundo tivesse deixado de funcionar. Bichos e insectos calaram-se para ouvir a voz do silêncio naufragar. Curiosamente, um tal espectáculo deveria ter-me incutido medo, o medo ancestral que predomina em qualquer criatura viva. Mas não, estava calmo, como um gato a domesticar os sonhos. Nessa altura, lembro-me de não mais conseguir urdir um único pensamento. Eles calaram-se, como o resto do mundo. Ficamos assim durante uma eternidade. Não sei quanto tempo passou, não faço a mais pequena ideia. Os únicos sentidos que não fizeram greve aos acontecimentos foram o tacto e o olfacto. Ainda conseguia tactear o tronco da minha Ceneia e cheirar-lhe a sua fragrância natural.

Ficamos à espera. Esperamos, esperamos, e voltamos a esperar. Mas nada! Não acontecia rigorosamente nada. E pior ainda, não conseguia preocupar-me com o facto de não me apoquentar. É uma sensação estranha, tornar-nos insensível. Talvez seja essa a forma de sentir da pedra, estar sem estar, ser uma observadora impassível e impenetrável. O que é certo é que assim ficamos, sem pressa de ver fluir o tempo, pois esse nunca pára.

Não sei se adormeci acordado, se me apaguei de mim próprio, ou se foi o vento que me levou para a outra margem. Mas certo é que acordei a fitar o mais belo nascer de luz que alguma vez me foi dado contemplar. A vida encheu os seus pulmões e enfunou velas luminescentes rumo à terra mais distante. Esse foi o meu primeiro dia de Langolia.

Friday, September 01, 2006

Intermitências do ser e do não ser


[Nascimento: Salvador Dali]

A placidez dos dias já não me enche como dantes. A letargia de não saber o que fazer com o tempo, de o ver definhar-se aos meus pés e de não ter mãos para o suster contra o meu peito, impele-me a vazar todo o negrume dentro de mim para esta página quase branca. As palavras caiem como granizo. O som das mesmas incomoda o meu estado de espírito. Sim, as palavras têm um som, o som do tédio a salpicar a folha de papel. Por mais ridículo que pareça é precisamente esse papel que atesta que ainda estou vivo. Sim, estou vivo, mas a vida foge-me como a sombra que não se deixa algemar. Quero agarra-la, aperta-la contra mim, e deixar o sonido da folhagem da alma fazer o seu mister. Às vezes, confesso, sinto-me poeta. É nesses momentos que mais necessito do ouvido da vida. É nesses eternamente curtos momentos que sinto que preciso de ser, para não deixar fugir os laivos de esperança que acumulo diariamente. Eu sou como uma tela impressionista. Tento capturar os vestígios das nuvens que passam sem avisar. Elas passam, as nuvens, passam sempre, mas tenho de as requestar, tenho de lhe provar que eu sou a tela onde podem (re)pousar. Mas a invalidez do meu estado anímico não me permite sempre permear o meu ser. Há aquele maldito hiato de vácuo, de nada, de não ser e de não saber sonhar que me levam ao desmoronamento. Ai, se eu soubesse sonhar, se eu soubesse plantar sementes nas nuvens em vez de as ver passar. Se eu soubesse, encheria esta página de sol e de cores garridas e ofertá-las-ia a quem quisesse entrar no meu sonho, que não custa mais do que um momento de eternidade.


[Melancolia: Albrecht Dürer]

Muito agradecido lhe sou pela generosa partilha das suas prístinas palavras.
Ontem, uma delas, a mais traquina, enfiou-se-me sorrateiramente pelo vestíbulo do meu olhar. Galgou rosto acima como um potro sem freio e sem vergonha. Não demorou muito a encontrar o que com tanto zelo procurava. Espantada, a anfitriã, levantou-se estremunhada do seu pranto e, de imediato, enfiou a sua mais bela túnica, toda ela luz e amanhecer. Mas, a palavra, ainda que imberbe para alguns, não se deixou seduzir pelo aparato ilusório da sua visita desprevenida. Agarrou-a pelas mãos, despiu-a dos seus trajes faustosos e empurrou-a rosto abaixo.
Resultado: sem querer e sem saber, a melancolia envasou numa série de letras (des)ordenadas, linhas a emergir, nas quais ela se olhou e, pasmada, como se da primeira vez se tratasse, nua se contemplou.

Thursday, August 31, 2006



recumbente o vagido da Noite cintila
às portas do coração dobrado sobre si próprio

as mãos do passado regressam vazias
como o parto da luz que enche sem preencher
à míngua de uma verdadeira sede estival

o oiro da ária pelo melro repetida
faz-se sentir na longínqua distância do prometido
os braços abrem-se para acolher a esperança sorridente