[autor da imagem desconhecido]
Não estou doente! Demiti-me de todos os cargos que me obrigavam a ver para crer!
No outro dia, fui raptado por extraterrestres. Não acreditam?! Então vejam a elevada taxa de raptos ocorridos nos E.U.A. Ok, eu também não sou um grande fan dos americanos, mas há coisas que acontecem mesmo. Chamo-me Sandro Coimbra, arquitecto de profissão, e vivo em Leiria. Caso ainda não saibam, o distrito de Leira é simplesmente a área mais visitada pelos nossos amiguinhos cinzentos. Não, os meus ladrões (de)mentes não foram verdes, mas sim cinzentos. Isso tem que ver com algumas decisões geoestratégicas dos nossos observadores. Parece que são quatro tipos de raças. Calharam-me os menos maus, os que conversam. Enfim, dentro do meu azar, tive sorte. Estou inteiro e não foi necessário nenhuma regressão hipnótica para me lembrar de tudo. Verdade, pura verdade! Eu não estou a entrar em delírio neurótico. Isso é coisa de poetas ou pseudo-poetas. Eu, como acima referi, sou arquitecto, portanto, uma pessoa séria. A minha vocação é construir. Sou um construtor! Agora, imaginem só um momento o que me foi acontecer. Eu, um tipo sério e trabalhador, sem tempo para falsas melancolias, fui desavergonhadamente raptado por duas ETs. Sim, era meninas! Como sei? Pelo toque… e mais não conto pois nessas coisas também sou um homem sério. O que diria a minha esposa Sophia se soubesse? Portanto, isto fica entre nós, tu e eu. Ok?!
Já perdi o fio à meada. Ah, pois… o rapto das duas… O meu carro, a caminho dos meus sogros, avariou. Ao início, pensei: «Eh pá, que ganda chatice! Não vou poder ir ter com os meus sogrinhos», mas depressa me apercebi que há males que não vêm por bem! Lá fui teleportado para nave espacial. Um charuto, tipo os de Havana, ainda por cima. Não foi o Spock que me teleportou. Aqui, a tripulação foi outra. Sabiam que os Ets não têm ouvidos? É verdade! Juro! São surdos e mudos, como as pedras. Estamos a falar de seres evoluídos. N’est-ce pas? Usam a telepatia. E, para isso, nem precisam de ser gémeos. É mesmo natural. É um sentido que, no ser humano, ainda está em fase de construção. Estão a ver?, a importância da construção! Escolhi bem o meu ofício. Nisso, não tenho dúvidas. Ora, voltemos à minha história. Estava portanto a dizer que são telepatas, os nossos vizinhos, de Orion. Entraram-me, sem avisar, na minha cabeça. Despiram-na toda, todinha, só deixando a minha humilde ossatura cerebral, por assim dizer… Sabem o que queriam? Eu vou-vos dizer… Mas, antes disso, tenho lamentavelmente de reconhecer que houve engano, no rapto. Sim, não era um arquitecto que pretendiam, mas sim um artista, um pintor ou um escritor, ou talvez mesmo um poeta, esses, são as melhores cobaias para as experiências ETs. Pois, estavam à procura de alguém que acredite em coisas que não se vêem. Expliquem-me só como é que se pode acreditar em coisas que não se vêem? Se não se vêem é porque não existem! Certo? Qual metafísica qual quê? Todos concordarão comigo. Invisível à vista, invisível ao coração, ponto final! Ora bem, dizia eu, entraram na minha cabecinha toda bem afinada e não encontraram nada, rigorosamente nada! Justifico: eu não tinha nenhuma consciência metafísica do mundo. Não tinha uma nesga de consciência transcendente em mim. Eu sou assim, um tipo que só acredita naquilo que vê, acreditava eu… Fizeram experiências comigo! Foram maus, muito maus. Ainda hoje tenho dificuldades em dormir. Obrigaram-me a Sentir. Que estranha coisa! Eu estava tão bem no meu mundo regrado e bem construído. Nunca teria desejado isso. Não desejo isso a ninguém. Obrigaram-me a sentir uma árvore. Não é que o raio da árvore estava mesmo viva e que estava tão assustada como eu, de estar ali, no meio daquelas duas ETs desavergonhadas. Sofri tanto de sentir que ainda hoje guardo mazelas. É o que, comummente, se designa por choque post-traumático. Já não consigo esborrachar um simples insecto, porque tenho medo do que possa sentir. E se fosse eu, a ser esborrachado? Tramaram-me a vida. Agora até já acredito em divindades. Rezo todos os dias dois pais-nossos e um sutra, pois não quero ofender nenhuma religião. Agora sou assim, depois da minha estranhíssima aventura. Quem está contente comigo é Sophia. Diz que me abri ao mundo e que agora sei dar valor às coisas realmente importantes. Eu digo que me tramaram. Não podiam ter feito pior! Sentir todos os dias cansa! Depois das experiências, teleportaram-me de volta para o meu carro. No meu relógio só tinham passado cinco minutos. Lá tive que ir ver os meus sogros. E não é que até lhes achei piada. O mundo já não é o que era. Por favor, tenham cuidado com as vossas saídas à noite, se estiverem pelos lados de Leiria. Eles estão no meio de nós…