
[Fotografia de Ines Ramos: Quase - 2004]
Sempre que a noite decide amanhecer
uma lua cheia de esperança emerge
dos recônditos lugares do Silêncio
em busca da sede infinita
em busca do rebrilhar eterno e foragido
Em literatura tropismos são movimentos indefiníveis que deslizam rapidamente aos limites da nossa consciência. Estão na origem dos nossos gestos, palavras e sentimentos manifestados, que acreditamos sentir e ser possível de definir. Os tropismos são a fonte secreta da nossa consciência.

Lume verde a jorrar das entranhas da terra
a saliência do silêncio ganha cor e forma
e a vontade de içar a liberdade espraia-se.
É uma coluna de luz que distende seus braços
àqueles que ousam sorver a claridade fraterna.
A árvore, a árvore-símbolo, move-se sem ninguém se aperceber
e fala e grita e cala-se, quando a noite escasseia.
No seu regaço, a Lua, sempre a Lua
pois companheira dos tempos da inconsútil solidão
ela recorda-se das quiméricas paisagens de antes das formas.
Uma alma verdejante. É à alma da luz primitiva
que o restolhar de mil mãos aspiram. Um canto,
um bulício partilhado pelos pássaros etéreos
que sempre consentiram a melopeia ancestral. A árvore
recolhe-se, encolhe-se quando o Silêncio anoitece
e sonha e sonha entregar a sua voz ao Vento
que desde sempre a soube preservar da desesperança.


vagueia o Eco
das formas antigas e distantes
para pousar sobre o Sopro
a languidez dos dias
*_*
que urde o arco do destino
que sofre a consciência da sua cegueira
mas que, ainda assim, caminha
sempre certo de ir ao encontro da incerteza
*_*
inquieta e distante do porvir?
da fronte da pedra mansa?
como quem antecipa a sede
e rogo às estrelas o fulgir eterno
oh, tu, Esperança
que temes em desfraldar as tuas velas
se conheces o caminho da tua Ítaca
se as estrelas te conduzem ao porto da Eternidade


nas asas da chama anelar
o momento absorve a vontade clandestina
de ser tempo sem rosto
sem olhos
sem nada que a prenda à eternidade
ainda desfeito
eternamente por recompor
envolve seu nada de luminescências túmidas
em busca da primeira nota
primeira forma de uma melopeia ancestral
esquecido pelo longínquo distante
que arde seu desespero branco
com cânticos de outrora
com sonhos de areia e de vento
que somente as estrelas conseguem intuir
arde um desejo
liquido e transparente
é o movimento do espelho
a entoar o silêncio da suprema vontade
uma lágrima âmbar a nidificar na porosidade da luz

Sorriso de antanho esse que o Zéfiro traz
no seu odre de volúpias olvidadas
suco perene das distâncias que encurta
pejando as fímbrias do mundo ainda por reluzir.
Não sei quando nem como nem por onde
a sua graça benfazeja se infiltra
mas sei que é magia em ebulição
esperança rasgada das suas paredes de granito
que aquece o coração tão profundamente
que a alma se acende e brilha como a luz da primeira manhã.

Da alma só sei o que sabe o coração:
uma chama iridescente indizível
um sopro-corpo-alento a persistir
às investidas da lassidão, o medo de não encontrar
o eco das certezas por anuir, a alva sempiterna.
Nada desse lar me conforta tanto como suas lágrimas
que me vivificam a esperança de nada ser em vão
nem dor, nem alegria, nem tédio angustiante.
Da alma só sei o que o ouvido aquiesce
hoje-amanhã-para-sempre, ontem-ainda-sempre-em-construção.



A litania dos defuntos é a melopeia dos viventes
quando uma hora se finda outra renasce para a suceder.
O tempo já não existe, nunca existiu
as rugas não lhe pertencem, nem as formas
seladas com almas encarceradas num espaço finito
que tudo tentam para prolongar uma estadia condenada ao regresso.
Elas esqueceram-se de onde vieram. A aprendizagem prossegue o seu curso.
A extinção traz a esperança da memória, libertadora e luminescente
Que nada perturbe o seu sono, que nada impeça a sua realização; além fronteiras



noite branca dos tempos em que a noite era manhã
ardor de água da memória das chispas de argila
o fragor da lembrança ecoa nas ruínas das primícias
um mastro de ametista aponta para a origem
de longe vem a centelha que não se estiola
tão longe que as palavras a abraçam
no seu regaço, na sua melancolia desmedida
que fulge uma promessa inadiável, a do regresso
ao ventre da baleia de marfim, ao centro da primeira manhã

[Odilon Redon: Centaur Aiming at the clouds]
lágrimas ainda cálidas juncam os pés da aurora
dobrada sobre si própria ela inspira a noite
que destila o luar nos seus pulmões de safira
o eco das escadas anelantes sobe os degraus
da sua boca profusa e profundamente luminescente
a espera do rumorejar das distâncias silentes esvaiu-se
ela refulge a sede do eterno acordar, eterno amanhecer
enquanto as lágrimas te abençoam
chora criança, chora
porque um dia deixarás de acreditar

Oh, Rosa, por que me contemplas da tua árvore?
Ergue as tuas pétalas ao Sol, teus espinhos à Lua
e exala a tua fragrância aos iniciados, terna alquimia
dos anéis de mercúrio e da vontade de enxofre.
Oh, Rosa, não te lamentes como os humanos!
De lágrimas de esperança é composta a madrugada
assim a tua voz que ressoa sem ressoar, esse apelo
tão secreto e tão íntimo como o teu perfume,
um estado de graça para os cegos deste mundo.
Oh, Rosa, que se cumpra a tua essência prometida
e que os arcanos das esferas se mesclam novamente à Noite.


alento longínquo, alento de outrora, Aurora
desliza os teus lábios transparentes pela madrugada
e irrompe nas terras de Kalfaran a tua luz suave
irrompe a promessa dos dias de então
antes que as sombras grelem as geadas esquecidas
que vogam como águias insaciáveis
em busca de presas, em busca da luz que não lhes pertence
para que o silêncio erguesse a sua voz
e brotasse as flâmulas das primícias
mandrágoras olvidadas acordaram do seu sono
a mão de prata colheu os caules da promessa
bastou uma semente, bastou um crer
para que a flauta de quartzo preenchesse o vazio

Là-bas
Tout est neuf et tout est sauvage
Libre continent sans grillage
Ici, nos rêves sont étroits
C'est pour ça que j'irai là-bas
Là-bas
Faut du coeur et faut du courage
Mais tout est possible à mon âge
Si tu as la force et la foi
L'or est à portée de tes doigts
C'est pour ça que j'irai là-bas
N'y va pas
Y'a des tempêtes et des naufrages
Le feu, les diables et les mirages
Je te sais si fragile parfois
Reste au creux de moi
On a tant d'amour à faire
Tant de bonheur à venir
Je te veux mari et père
Et toi, tu rêves de partir
Ici, tout est joué d'avance
Et l'on n'y peut rien changer
Tout dépend de ta naissance
Et moi je ne suis pas bien né
Là-bas
Loin de nos vies, de nos villages
J'oublierai ta voix, ton visage
J'ai beau te serrer dans mes bras
Tu m'échappes déjà, là-bas
J'aurai ma chance, j'aurai mes droits
N'y va pas
Et la fierté qu'ici je n'ai pas
Là-bas
Tout ce que tu mérites est à toi
N'y va pas
Ici, les autres imposent leur loi
Là-bas
Je te perdrai peut-être là-bas
N'y va pas
Mais je me perds si je reste là
Là-bas
La vie ne m'a pas laissé le choix
N'y va pas
Toi et moi, ce sera là-bas ou pas
Là-bas
Tout est neuf et tout est sauvage
N'y va pas
Libre continent sans grillage
Là-bas
Beau comme on n'imagine pas
N'y va pas
Ici, même nos rêves sont étroits
Là-bas
C'est pour ça que j'irai là-bas
N'y va pas
On ne m'a pas laissé le choix
Là-bas
Je me perds si je reste là
N'y va pas