Em literatura tropismos são movimentos indefiníveis que deslizam rapidamente aos limites da nossa consciência. Estão na origem dos nossos gestos, palavras e sentimentos manifestados, que acreditamos sentir e ser possível de definir. Os tropismos são a fonte secreta da nossa consciência.
Tuesday, August 28, 2007
Thursday, August 23, 2007
Monday, August 13, 2007

Lume verde a jorrar das entranhas da terra
a saliência do silêncio ganha cor e forma
e a vontade de içar a liberdade espraia-se.
É uma coluna de luz que distende seus braços
àqueles que ousam sorver a claridade fraterna.
A árvore, a árvore-símbolo, move-se sem ninguém se aperceber
e fala e grita e cala-se, quando a noite escasseia.
No seu regaço, a Lua, sempre a Lua
pois companheira dos tempos da inconsútil solidão
ela recorda-se das quiméricas paisagens de antes das formas.
Uma alma verdejante. É à alma da luz primitiva
que o restolhar de mil mãos aspiram. Um canto,
um bulício partilhado pelos pássaros etéreos
que sempre consentiram a melopeia ancestral. A árvore
recolhe-se, encolhe-se quando o Silêncio anoitece
e sonha e sonha entregar a sua voz ao Vento
que desde sempre a soube preservar da desesperança.
Sunday, July 22, 2007

[Imagem de Jacek Jerka: Sonet]
leve como o vento
a língua de argila sopra suave
sobre a porosidade momentânea
da memória de então
o grito do gamo eleva-se do nenhures
transportado pela sege sagrada
sem vestígios da noite silente
sem reminiscências
do que não pode ser dito ou nomeado
assim sopra a língua de argila
sempre certa de exercer o seu mister
sempre segura de permanecer inominável
Thursday, May 31, 2007

[Arik Brauer: Baumseele (alma de árvore)]
vagueia o Eco
das formas antigas e distantes
para pousar sobre o Sopro
a languidez dos dias
*_*
que urde o arco do destino
que sofre a consciência da sua cegueira
mas que, ainda assim, caminha
sempre certo de ir ao encontro da incerteza
*_*
inquieta e distante do porvir?
da fronte da pedra mansa?
como quem antecipa a sede
e rogo às estrelas o fulgir eterno
oh, tu, Esperança
que temes em desfraldar as tuas velas
se conheces o caminho da tua Ítaca
se as estrelas te conduzem ao porto da Eternidade
Saturday, May 12, 2007

[O Grito - Edward Munch]
Wednesday, March 14, 2007

[Léon Frédéric: The Lake The Sleeping Water 1897-98]
nas asas da chama anelar
o momento absorve a vontade clandestina
de ser tempo sem rosto
sem olhos
sem nada que a prenda à eternidade
ainda desfeito
eternamente por recompor
envolve seu nada de luminescências túmidas
em busca da primeira nota
primeira forma de uma melopeia ancestral
esquecido pelo longínquo distante
que arde seu desespero branco
com cânticos de outrora
com sonhos de areia e de vento
que somente as estrelas conseguem intuir
arde um desejo
liquido e transparente
é o movimento do espelho
a entoar o silêncio da suprema vontade
uma lágrima âmbar a nidificar na porosidade da luz
Monday, February 26, 2007

[Luz matinal: Ramon Sunyer]
Sorriso de antanho esse que o Zéfiro traz
no seu odre de volúpias olvidadas
suco perene das distâncias que encurta
pejando as fímbrias do mundo ainda por reluzir.
Não sei quando nem como nem por onde
a sua graça benfazeja se infiltra
mas sei que é magia em ebulição
esperança rasgada das suas paredes de granito
que aquece o coração tão profundamente
que a alma se acende e brilha como a luz da primeira manhã.
Tuesday, February 20, 2007
Sunday, February 18, 2007

[ Galaxia lubirii: Sabin Balasa]
Da alma só sei o que sabe o coração:
uma chama iridescente indizível
um sopro-corpo-alento a persistir
às investidas da lassidão, o medo de não encontrar
o eco das certezas por anuir, a alva sempiterna.
Nada desse lar me conforta tanto como suas lágrimas
que me vivificam a esperança de nada ser em vão
nem dor, nem alegria, nem tédio angustiante.
Da alma só sei o que o ouvido aquiesce
hoje-amanhã-para-sempre, ontem-ainda-sempre-em-construção.

[Rêve: Kristina Spurgin]
Aguarda que o silêncio te clame. Aguarda que o traço
do teu rosto seja quebrado pelo momento ondular.
Ouves? Aquele leve sibilar a atravessar as paredes
do teu corpo, os diques da tua mente. Ele traz a promessa.
Ele traz o bulício das noites esquecidas, de antes do tempo
em que a certeza ainda era uma chama cintilante. Responde-lhe!
Diz-lhe que também tu o aguardas, como uma nuvem
que dentro de si a água da terra alberga para depois a germinar.
Diz-lhe que a tua boca contém a sede do fogo
e que o sol distante e a lua caminham de mãos dadas
sempre que ouvem a melopeia da criação. Não te esqueças!
A tua voz será o par de olhos que a cegueira nunca possuiu.
Sê brando com o tempo e ensina-lhe a escrever com a tinta da alma.
Wednesday, February 07, 2007

[Balade au fond du jardin:Joël AUGEREAU]
De que lembrança desmaiada se nutre o pensamento do imo? Por que não sossega? De que paz ilusória carece a sua boca faminta? De nada lhe serve procurar. Quem procura não encontra, antes desassossega essa clareira sombria que se esconde, lá, bem no fundo dos recessos de si mesmo. Lá, onde o tempo é uma chama eternamente criança e a dor uma parteira da experiência. A cada novo dia que passa ele sente o absurdo de ser. De onde lhe virá este distanciamento? Por que não se regozija com os prazeres mundanos? Haverá um prazer dentro do próprio prazer? Algo intrínseco a uma essência superior? Eu não sei, mas talvez ele o pressinta, ele que diz que a mecânica celeste se alberga em cada partícula do seu ser, da sua constituição feita à imagem e semelhança do universo. A sua consciência metafísica é um estribilho que ecoa sem sossego nas mandíbulas da experiência. É uma luta sem vencido nem vencedor, mas luta, porque obrigatória, necessária da e para a sua condição de ser. Hoje ouvi-o chorar: um choro de cinzas brancas a recobrir o seu esplendor, um choro de vontades etéreas a reclamar o fôlego das estrelas. A sua melopeia soturna não me entristeceu, antes me despertou o interesse para o ouvir melhor. Desfasado da Realidade sentei-me diante dele e pedi-lhe para me ensinar a liberdade do desassossego, porque um dia também eu verterei cinzas brancas, mas não sem saber que existe uma chama para além das formas, um sopro irrequieto com vontade de viver.
Tuesday, January 23, 2007

A litania dos defuntos é a melopeia dos viventes
quando uma hora se finda outra renasce para a suceder.
O tempo já não existe, nunca existiu
as rugas não lhe pertencem, nem as formas
seladas com almas encarceradas num espaço finito
que tudo tentam para prolongar uma estadia condenada ao regresso.
Elas esqueceram-se de onde vieram. A aprendizagem prossegue o seu curso.
A extinção traz a esperança da memória, libertadora e luminescente
Que nada perturbe o seu sono, que nada impeça a sua realização; além fronteiras
Sunday, January 14, 2007
IMMORTELLE (Lara Fabian)

Si perdue dans le ciel
Ne me restait qu'une aile
Tu serais celle-là
Si traînant dans mes ruines
Ne brillait rien qu'un fil
Tu serais celui-là
Si oubliée des dieux
J'échouais vers une île
Tu serais celle-là
Si même l'inutile
Restait le seuil fragile
Je franchirais le pas
Immortelle, immortelle
J'ai le sentiment d'être celle
Qui survivra à tout ce mal
Je meurs de toi
Immortelle, immortelle
J'ai décroché un bout de ciel
Il n'abritait plus l'Eternel
Je meurs de toi
Si les mots sont des traces
Je marquerai ma peau
De ce qu'on ne dit pas
Pour que rien ne t'efface
Je garderai le mal
S'il ne reste que ça
On aura beau me dire
Que rien ne valait rien
Tout ce rien est à moi
A quoi peut me servir
De trouver le destin
S'il ne mène pas à toi ?
Immortelle, immortelle
J'ai le sentiment d'être celle
Qui survivra à tout ce mal
Je meurs de toi
Immortelle, immortelle
J'ai déchiré un bout de ciel
Il n'abritait plus l'Eternel
Je meurs de toi
Je meurs de toi...
Immortelle, immortelle
J'ai le sentiment d'être celle
Qui survivra à tout ce mal
Je meurs de toi
Immortelle, immortelle
J'ai décroché un bout de ciel
Il n'abritait plus l'Eternel
Je meurs de toi
OUVIR
Tuesday, December 05, 2006

Leves e rutilantes são as asas do barqueiro
que se afastam do negrume branco.
Algures, feito da matéria dos sonhos,
um olhar terno jorra a luz primaveril.
É um astro que se acende, para nunca mais se apagar.
É um coração a bater a memória do que nunca se estiola.
Leves e rutilantes são as asas que nunca param
e sempre encontram a vereda do regresso
o ponto de partida, o ponto de chegada, a travessia inadiável.
Para a TG, em memória da Cecília
Monday, November 06, 2006

noite branca dos tempos em que a noite era manhã
ardor de água da memória das chispas de argila
o fragor da lembrança ecoa nas ruínas das primícias
um mastro de ametista aponta para a origem
de longe vem a centelha que não se estiola
tão longe que as palavras a abraçam
no seu regaço, na sua melancolia desmedida
que fulge uma promessa inadiável, a do regresso
ao ventre da baleia de marfim, ao centro da primeira manhã
Sunday, November 05, 2006

[Odilon Redon: Centaur Aiming at the clouds]
lágrimas ainda cálidas juncam os pés da aurora
dobrada sobre si própria ela inspira a noite
que destila o luar nos seus pulmões de safira
o eco das escadas anelantes sobe os degraus
da sua boca profusa e profundamente luminescente
a espera do rumorejar das distâncias silentes esvaiu-se
ela refulge a sede do eterno acordar, eterno amanhecer
enquanto as lágrimas te abençoam
chora criança, chora
porque um dia deixarás de acreditar
Sunday, October 29, 2006

Oh, Rosa, por que me contemplas da tua árvore?
Ergue as tuas pétalas ao Sol, teus espinhos à Lua
e exala a tua fragrância aos iniciados, terna alquimia
dos anéis de mercúrio e da vontade de enxofre.
Oh, Rosa, não te lamentes como os humanos!
De lágrimas de esperança é composta a madrugada
assim a tua voz que ressoa sem ressoar, esse apelo
tão secreto e tão íntimo como o teu perfume,
um estado de graça para os cegos deste mundo.
Oh, Rosa, que se cumpra a tua essência prometida
e que os arcanos das esferas se mesclam novamente à Noite.
Wednesday, October 25, 2006

Constrange-me despir uma máscara para logo de seguida colocar outra. Afinal, não somos nós todos máscaras daquilo que fingimos ser. Por vezes, chego mesmo a acreditar na máscara que uso, tão profundamente como o poeta finge a sua dor. Quando paro, para pensar, são estilhas de um eu que penso conhecer que revestem essa máscara. Ela está embutida no meu rosto e tornou-se no meu semblante. Eu não quero usá-la, mas não consigo deixar de o fazer. É a sociedade que me impele a ser quem não sou, mas que acabo por vir a ser. Eu quero não recorrer a mentiras brancas para me hastear no trabalho, muito menos nas minhas relações pessoais. Mas será que alguém terá coragem para me amar despido de mim mesmo? Não, reformulo a pergunta. Será que terei coragem para me olhar desnudado e, ainda assim, me amar? E se a tiver, o que fazer com a minha nudez? Habituei-me a usar roupa…
Tuesday, October 24, 2006

[Jackson Pollock: A Mulher-Lua]
alento longínquo, alento de outrora, Aurora
desliza os teus lábios transparentes pela madrugada
e irrompe nas terras de Kalfaran a tua luz suave
irrompe a promessa dos dias de então
antes que as sombras grelem as geadas esquecidas
que vogam como águias insaciáveis
em busca de presas, em busca da luz que não lhes pertence
para que o silêncio erguesse a sua voz
e brotasse as flâmulas das primícias
mandrágoras olvidadas acordaram do seu sono
a mão de prata colheu os caules da promessa
bastou uma semente, bastou um crer
para que a flauta de quartzo preenchesse o vazio
