
[A criação: Hieronymus Bosch]
Passar os olhos por entre os canaviais e deixar a mente pousar, repousar no ventre verde da cintilação momentânea do que não sabe que existe mas que precisa de sentir que ainda e sempre existirá, ainda e sempre, nas fímbrias do Levante.
Saber ouvir o canto da cotovia quando o seu silêncio é um pulmão dourado a trinar as melopeias do devir. Deixar-se elevar por asas de papel que ardem e doem e ardem novamente quando o coração está cheio. Esvaziar o sentimento dos seus laços terrenos e caminhar sem rumo ao adro das manhãs eternas. Oh, divina sabedoria, por que te calas quando minha voz é ouvido ancestral? Oh, divina Poesia, por que te evaporas quando de mármore são tuas lágrimas que se içam do Nenhures para ao Nenhures regressar?
Caminho sem bússola, como todos os caminhantes antes de mim. Caminho, inseguro, temeroso. Caminho, insatisfeito, mas vivo. Caminho, livre e etéreo de todas as noções que não podem ser ditas ou engendradas e regresso, dúctil, a sorrir do que só a alma sabe que pode alcançar.
















