Tuesday, September 18, 2007


[tela de Marc Chagall: O Pintor: à Lua - 1917]

Toda a arte é sempre uma forme de religiosidade, um baptismo etéreo, uma chama líquida a verter a essência do Anel.

Monday, September 17, 2007

Divagações


[tela de Jackson Pollock: nonfiguration]

I believe that today more than ever a book should be sought after even if it has only one great page in it: we must search for fragments, splinters, toenails, anything that has ore in it, anything that is capable of resuscitating the body and soul. It may be that we are doomed, that there is no hope for us, any of us, but if that is so then let us set up a last agonizing, bloodcurdling howl, a screech of defiance, a war whoop! Away with lamentation! Away with elegies and dirges! Away with biographies and histories, and libraries and museums! Let the dead eat the dead. Let us living ones dance about the rim of the crater, a last expiring dance. But a dance!

Henry Miller, Tropic of Cancer, 1934

Hoje, apetecia-me ler um grande escritor, daqueles que nos transportam para outras margens, sem esforço, sem engenhos literários, um autor directo, à moda de Philip Roth. Mas, por outro lado, apetecia-me um mestre das atmosferas, das descrições minuciosas, inundadas da verve dos poetas. Um Cormac McCarthy, provavelmente. Apetecia-me ler trechos de um autor que me guiasse na escuridão. Mas um escritor não guia. Um escritor mostra, é certo, os carreiros do mundo, mas não nos leva com ele. Não pode. O seu lema é: vê mas não toques. Toca, mas não olhes. Sente, mas não me imites. O mundo já teve o seu Werther. Não queiras ser mais um.
O mundo. O que é o mundo? O mundo é esse grande espelho de refracção múltipla. Onde uns vêem água outros vêem fogo. Onde eu vejo anjos outros vêem demónios. A vida é tão engraçada. Há dias falei com um ateu. Debatíamos a existência ou não de Deus e o papel da religião. Era ateu porque indagou a questão. Leu livros. Leu Dawkins. Leu o relojoeiro cego. Hei-de ler. O que me intrigou foi a sua fé, a sua chama na não-fé, a explicação da ciência através da química da vida. Não lhe retiro a razão. Quem sou eu para julgar a verdade desse homem?! É a sua verdade. Respeito. Admiro. Como disse um dia Maalouf, não é a religião que cria o homem, é o homem que cria a religião. Está tudo dito. Procuro. Sei que vacilo. Sei que as dúvidas são maiores que as certezas, mas procuro, uma resposta, a minha resposta. E é na literatura que tudo se desvende, que tudo se confunde. Oh, Babel, oh minha musa Literatura. Pretendes ensinar e desensinas. Pretendes ser uma voz, mas não ouves. Cada vez que descubro um grande autor, ou uma grande autora, porque a Literatura é como os anjos, não tem sexo, procuro uma resposta ou uma pergunta sobre mim próprio. Afinal, bem sei que sou o outro e que o outro sou eu. Somos todos feitos do mesmo barro. Mudam-se as formas, mudam-se as cores, muda-se a temperatura da cozedura do barro, mas não se muda a matéria-prima. É sempre o mesmo barro. É sempre o mesmo Sísifo a fornecer a mesma matéria-prima.
Apetecia-me ler, mas já não me apetece. O deslumbramento não é fácil. Os grandes autores são raros. Cada vez mais. O mundo, hoje, é pautado pelo rápido, pelo imediato, pelo excesso, pelo prazer na hora. Todo o resto, o que leva tempo, dedicação, entusiasmo, implica um processo moroso. E, hoje, já ninguém tem tempo. Vivemos mais tempo do que os nossos antepassados, mas precisamos, ainda assim, de mais tempo ainda para o viver. O mundo é estranho, não é? Ou serei eu, o estranho. Será esse o anátema dos poetas, essa sensação de estranheza. O ver com uma lucidez desconcertante. Não sei. Não sou poeta. Nunca serei! Para o ser precisava de um par de asas flamejantes, uma estrela, algures, a brilhar só para mim, ainda que ninguém a visse, e um coração do tamanho do mundo, para ter a certeza de ser capaz de abarcar todos os sentimentos existentes. Um poeta é uma arca, uma arca de Noé, e os seus animais são a diversidade de sentimentos que nos habitam, a nós, simples mortais, filhos das estrelas. É bom ler os poetas, mas só os verdadeiros.
Hoje, apetecia-me ler… Talvez comesse por mim mesmo, eu, autor desconhecido da minha própria pessoa.


Sunday, September 09, 2007



És mar? És sol? Ou simplesmente lua?
De onde te vêm esses sonhos
que te brotam pelo olhar fora
e para dentro crescem como flores?


És silêncio. És Ser a meditar.


Algures, no mistério dos teus olhos
recordas os tempos antes da Hora
e observas o lento compassar dos anjos
que te observam e me observam
e te entregam suas vontades ignotas
sem nunca duvidar da tua tarefa regeneradora

Saturday, September 08, 2007


[Mikolajus Ciurlionis: óleo sobre tela - Star Sonata Allegro]

Seremos cor. Seremos sede assomada do Nada.
O ciciar da esperança despedir-se-á da sua túnica
de folhas leves e ondulantes a orvalhar o peso
das pegadas brancas, pegadas exangues
onde o Ser é espelho de um espelho invertido.

Cabe-nos o tálamo das madrugadas olvidadas.
Cabe-nos o restolhar da Voz ressequida
e ouvir as sementes da brisa tragar a chama.

Sim, seremos cor. Seremos sede em busca de alvorada.

Sunday, September 02, 2007


[Andromeda: Rodin]

Doce mulher, estrangeira de ti própria
colhe o lume das estações eternas
e enaltece a tua voz sagrada.
Colhe o lúmen da Palavra
e queda-te, silenciosa, sem receio
de não acordar teus sonhos de lua virgem.
Arfa sem afã as esteiras frágeis da falena

que te percorrem e me percorrem e um dia nos elevará
da promessa branca da noite ao fulgir sereno da contemplação.

Abandono vigiado


[A criação: Hieronymus Bosch]

Passar os olhos por entre os canaviais e deixar a mente pousar, repousar no ventre verde da cintilação momentânea do que não sabe que existe mas que precisa de sentir que ainda e sempre existirá, ainda e sempre, nas fímbrias do Levante.
Saber ouvir o canto da cotovia quando o seu silêncio é um pulmão dourado a trinar as melopeias do devir. Deixar-se elevar por asas de papel que ardem e doem e ardem novamente quando o coração está cheio. Esvaziar o sentimento dos seus laços terrenos e caminhar sem rumo ao adro das manhãs eternas. Oh, divina sabedoria, por que te calas quando minha voz é ouvido ancestral? Oh, divina Poesia, por que te evaporas quando de mármore são tuas lágrimas que se içam do Nenhures para ao Nenhures regressar?
Caminho sem bússola, como todos os caminhantes antes de mim. Caminho, inseguro, temeroso. Caminho, insatisfeito, mas vivo. Caminho, livre e etéreo de todas as noções que não podem ser ditas ou engendradas e regresso, dúctil, a sorrir do que só a alma sabe que pode alcançar.


Wednesday, August 29, 2007


[Linhas: Foto de Inês Ramos]

Linhas, um mar de linhas marulha na palma da minha mão. E em cada uma delas uma intersecção, um cruzamento, um mapa-mundo da minha existência, inscrito, por escrever, reescrever com a tinta do porvir. De onde vim? Para onde vou? Quem sou? Quem serei? Perguntas. Tudo são perguntas enclavinhadas na palma da minha mão.
E nesta mesa que é a minha mão jogo as cartas que o Acaso me dispensou. Boas, más, fará mesmo diferença? É quem as joga e como as joga que dita o rumo do jogo. E o jogo são linhas que se cruzam e recruzam até alcançarem a linha onde todas as linhas convergem. A linha das linhas. A linha que saltará da palma da mão para a mesa do destino.

Tuesday, August 28, 2007

Only Time - Enya

Thursday, August 23, 2007


[Fotografia de Ines Ramos: Quase - 2004]

Sempre que a noite decide amanhecer
uma lua cheia de esperança emerge
dos recônditos lugares do Silêncio
em busca da sede infinita
em busca do rebrilhar eterno e foragido

Monday, August 13, 2007



Lume verde a jorrar das entranhas da terra
a saliência do silêncio ganha cor e forma
e a vontade de içar a liberdade espraia-se.
É uma coluna de luz que distende seus braços
àqueles que ousam sorver a claridade fraterna.
A árvore, a árvore-símbolo, move-se sem ninguém se aperceber
e fala e grita e cala-se, quando a noite escasseia.
No seu regaço, a Lua, sempre a Lua
pois companheira dos tempos da inconsútil solidão
ela recorda-se das quiméricas paisagens de antes das formas.
Uma alma verdejante. É à alma da luz primitiva
que o restolhar de mil mãos aspiram. Um canto,
um bulício partilhado pelos pássaros etéreos
que sempre consentiram a melopeia ancestral. A árvore
recolhe-se, encolhe-se quando o Silêncio anoitece
e sonha e sonha entregar a sua voz ao Vento
que desde sempre a soube preservar da desesperança.

Sunday, July 22, 2007


[Imagem de Jacek Jerka: Sonet]

leve como o vento
a língua de argila sopra suave
sobre a porosidade momentânea
da memória de então

o grito do gamo eleva-se do nenhures
transportado pela sege sagrada
sem vestígios da noite silente
sem reminiscências
do que não pode ser dito ou nomeado

assim sopra a língua de argila
sempre certa de exercer o seu mister

sempre segura de permanecer inominável

Thursday, May 31, 2007


[Arik Brauer: Baumseele (alma de árvore)]

vagueia o Eco
das formas antigas e distantes

para pousar sobre o Sopro
a languidez dos dias

a plenitude da ambiguidade estrelar

*_*

noctívagos pensamentos
que urde o arco do destino

sem manhãs nem auroras brancas

tão presentes no coração do caminhante
que sofre a consciência da sua cegueira
mas que, ainda assim, caminha
sempre certo de ir ao encontro da incerteza

*_*

que promessa jaz
inquieta e distante do porvir?

que estio se levanta
da fronte da pedra mansa?

antecipo o lume
como quem antecipa a sede
e rogo às estrelas o fulgir eterno

*_*

oh, tu, Esperança
que temes em desfraldar as tuas velas

por que vagueias sem rumo?
se conheces o caminho da tua Ítaca

por que persistes em trilhar rotas olvidadas?
se as estrelas te conduzem ao porto da Eternidade

Saturday, May 12, 2007



[O Grito - Edward Munch]
Escuta-me, mas não me dês ouvidos. Observa-me, mas não me imites. Tudo o que sou é a soma daquilo que também és, ainda que o negues ou rejeites. Se me vês rir à desgarrada desconfia do meu riso porque é da nossa tristeza que me rio. Rir não liberta. Rir não é o remédio da alma. O remédio não existe. Nunca existiu. Estamos condenados a viver cada dia igual ao outro, repetir erro atrás de erro como se fosse a primeira vez. Eu não estou contente. Eu não posso contentar-me com o que toda a gente faz. Eu não quero mais plagiar a imundice humana com a sua estética aprumada mas oca de sentido. Para onde caminhamos? Já paraste para pensar hoje? O que te impede de ser diferente? É das conversas desprovidas de fito, cujos adereços raiam a futilidade do dia-a-dia? Estou triste. Estou muito triste. Deram-me um dom e não o uso. Disseram-me que um dia o destino viria ter comigo. Mas nunca me disseram que fugiria dele a sete pés. Nunca me ensinaram que a cobardia não era ter medo, mas sim falta de empenho e de crer em si próprio. Por que não ouço o que devo interiorizar. Por que não vejo o que devo alterar. Faltar-me-á a coragem dos loucos? Aqueles que acreditam, ainda que todo o mundo troce deles. Hoje parei. Tirei dois minutos para observar uma criança degustar o seu gelado e deixei-me levar pelas correntes sadias do tempo sem tempo. Deixe-me flutuar no momento que tudo abarca, que tudo transforma, e senti naquele instante o poder do agora. Bastaram dois minutos para esboçar um verdadeiro sorriso, vindo de dentro e completamente amnésico da sua condição de ser. Bastou uma criança para perceber que a “salvação” viria da minha capacidade de saber viver o momento, com prazer, como se de um gelado se tratasse.

Wednesday, March 14, 2007


[Léon Frédéric: The Lake The Sleeping Water 1897-98]

nas asas da chama anelar
o momento absorve a vontade clandestina
de ser tempo sem rosto
sem olhos
sem nada que a prenda à eternidade

um pássaro de cinzas
ainda desfeito
eternamente por recompor
envolve seu nada de luminescências túmidas
em busca da primeira nota
primeira forma de uma melopeia ancestral

é um anjo
esquecido pelo longínquo distante
que arde seu desespero branco
com cânticos de outrora
com sonhos de areia e de vento
que somente as estrelas conseguem intuir

nas asas da chama anelar
arde um desejo
liquido e transparente
é o movimento do espelho
a entoar o silêncio da suprema vontade
uma lágrima âmbar a nidificar na porosidade da luz



Monday, February 26, 2007


[Luz matinal: Ramon Sunyer]

Sorriso de antanho esse que o Zéfiro traz
no seu odre de volúpias olvidadas
suco perene das distâncias que encurta
pejando as fímbrias do mundo ainda por reluzir.
Não sei quando nem como nem por onde
a sua graça benfazeja se infiltra
mas sei que é magia em ebulição
esperança rasgada das suas paredes de granito
que aquece o coração tão profundamente
que a alma se acende e brilha como a luz da primeira manhã.

Tuesday, February 20, 2007


Robin Thicke: Lost without you

Sunday, February 18, 2007


[ Galaxia lubirii: Sabin Balasa]

Da alma só sei o que sabe o coração:
uma chama iridescente indizível
um sopro-corpo-alento a persistir
às investidas da lassidão, o medo de não encontrar
o eco das certezas por anuir, a alva sempiterna.
Nada desse lar me conforta tanto como suas lágrimas
que me vivificam a esperança de nada ser em vão
nem dor, nem alegria, nem tédio angustiante.
Da alma só sei o que o ouvido aquiesce
hoje-amanhã-para-sempre, ontem-ainda-sempre-em-construção.



[Rêve: Kristina Spurgin]

Aguarda que o silêncio te clame. Aguarda que o traço
do teu rosto seja quebrado pelo momento ondular.
Ouves? Aquele leve sibilar a atravessar as paredes
do teu corpo, os diques da tua mente. Ele traz a promessa.
Ele traz o bulício das noites esquecidas, de antes do tempo
em que a certeza ainda era uma chama cintilante. Responde-lhe!
Diz-lhe que também tu o aguardas, como uma nuvem
que dentro de si a água da terra alberga para depois a germinar.
Diz-lhe que a tua boca contém a sede do fogo
e que o sol distante e a lua caminham de mãos dadas
sempre que ouvem a melopeia da criação. Não te esqueças!
A tua voz será o par de olhos que a cegueira nunca possuiu.

Sê brando com o tempo e ensina-lhe a escrever com a tinta da alma.

Wednesday, February 07, 2007


[Balade au fond du jardin:Joël AUGEREAU]

De que lembrança desmaiada se nutre o pensamento do imo? Por que não sossega? De que paz ilusória carece a sua boca faminta? De nada lhe serve procurar. Quem procura não encontra, antes desassossega essa clareira sombria que se esconde, lá, bem no fundo dos recessos de si mesmo. Lá, onde o tempo é uma chama eternamente criança e a dor uma parteira da experiência. A cada novo dia que passa ele sente o absurdo de ser. De onde lhe virá este distanciamento? Por que não se regozija com os prazeres mundanos? Haverá um prazer dentro do próprio prazer? Algo intrínseco a uma essência superior? Eu não sei, mas talvez ele o pressinta, ele que diz que a mecânica celeste se alberga em cada partícula do seu ser, da sua constituição feita à imagem e semelhança do universo. A sua consciência metafísica é um estribilho que ecoa sem sossego nas mandíbulas da experiência. É uma luta sem vencido nem vencedor, mas luta, porque obrigatória, necessária da e para a sua condição de ser. Hoje ouvi-o chorar: um choro de cinzas brancas a recobrir o seu esplendor, um choro de vontades etéreas a reclamar o fôlego das estrelas. A sua melopeia soturna não me entristeceu, antes me despertou o interesse para o ouvir melhor. Desfasado da Realidade sentei-me diante dele e pedi-lhe para me ensinar a liberdade do desassossego, porque um dia também eu verterei cinzas brancas, mas não sem saber que existe uma chama para além das formas, um sopro irrequieto com vontade de viver.

Tuesday, January 23, 2007


A litania dos defuntos é a melopeia dos viventes
quando uma hora se finda outra renasce para a suceder.
O tempo já não existe, nunca existiu
as rugas não lhe pertencem, nem as formas
seladas com almas encarceradas num espaço finito
que tudo tentam para prolongar uma estadia condenada ao regresso.

Elas esqueceram-se de onde vieram. A aprendizagem prossegue o seu curso.
A extinção traz a esperança da memória, libertadora e luminescente
Que nada perturbe o seu sono, que nada impeça a sua realização; além fronteiras