
uma folha de orvalho
cai
da nervura do Silêncio
e queda-se
sobre a fadiga dos dias
implorando
o restauro da Aurora
Em literatura tropismos são movimentos indefiníveis que deslizam rapidamente aos limites da nossa consciência. Estão na origem dos nossos gestos, palavras e sentimentos manifestados, que acreditamos sentir e ser possível de definir. Os tropismos são a fonte secreta da nossa consciência.

De cinzas, de muitas cinzas é composta a vida. As cinzas são a única certeza que não nos defraudará. Com elas podemos sempre contar. Mas das cinzas ainda cálidas quero aproveitar o lume do porvir e erguer os castelos que só a alma sabe arquitectar. Sim, na sua eterna dualidade a alma consegue feitos espantosos. Se, por um lado, ela nasce destroçada, por outro, habita nela a centelha do assombro, a centelha lume-cinzas-em-combustão que a move onde o horizonte se queda para renascer mais bela e mais brilhante. Do lume das cinzas ouso crer no lume das nuvens, único fulgor que me traz a serenidade do âmago.

Somos pouco; tão pouco que o ínfimo é o nosso lar e a (i)mortalidade o nosso destino. O murmúrio das fragas diz-nos que a existência é sólida, rija como um tronco de árvore, mas a espuma dos dias revela-nos que somos seres frágeis e perecíveis.
Quem parte, para a outra margem, sobe a jusante esse pequeno ribeiro que tantas vezes é ignorado, mas de que todos sabem a existência. Quem parte, parte mais leve, pois salvo do peso das sombras eclode borboleta, livre e diáfana na exposição das suas cores, quase palpáveis, quase visíveis ao olhar.
Como tu, nasci da espuma dos dias e celebro o instante bem vivido para esboçar um sorriso genuíno, o de quem tudo alcançou: a partilha anelar, a felicidade (con)sentida.
Somos pouco, bem sei. Talvez um grão de areia nas mãos do tempo, talvez um simples sopro, digno de ser registado na memória do coração.

Atenua-se a solidão com lágrimas, esvazia-se
a luz com meia dúzia de palavras gastas
e a garganta seca, fenece lentamente.
Inseguro, o olhar bate de frente
com o temor e o inesperado
que trazem flores sem cor e sem alma.
As lágrimas, ainda que negras
são esperança a sussurrar luas vindouras
porquanto a flauta prossegue as suas melodias secretas.

I believe that today more than ever a book should be sought after even if it has only one great page in it: we must search for fragments, splinters, toenails, anything that has ore in it, anything that is capable of resuscitating the body and soul. It may be that we are doomed, that there is no hope for us, any of us, but if that is so then let us set up a last agonizing, bloodcurdling howl, a screech of defiance, a war whoop! Away with lamentation! Away with elegies and dirges! Away with biographies and histories, and libraries and museums! Let the dead eat the dead. Let us living ones dance about the rim of the crater, a last expiring dance. But a dance!
Henry Miller, Tropic of Cancer, 1934
Hoje, apetecia-me ler um grande escritor, daqueles que nos transportam para outras margens, sem esforço, sem engenhos literários, um autor directo, à moda de Philip Roth. Mas, por outro lado, apetecia-me um mestre das atmosferas, das descrições minuciosas, inundadas da verve dos poetas. Um Cormac McCarthy, provavelmente. Apetecia-me ler trechos de um autor que me guiasse na escuridão. Mas um escritor não guia. Um escritor mostra, é certo, os carreiros do mundo, mas não nos leva com ele. Não pode. O seu lema é: vê mas não toques. Toca, mas não olhes. Sente, mas não me imites. O mundo já teve o seu Werther. Não queiras ser mais um.
O mundo. O que é o mundo? O mundo é esse grande espelho de refracção múltipla. Onde uns vêem água outros vêem fogo. Onde eu vejo anjos outros vêem demónios. A vida é tão engraçada. Há dias falei com um ateu. Debatíamos a existência ou não de Deus e o papel da religião. Era ateu porque indagou a questão. Leu livros. Leu Dawkins. Leu o relojoeiro cego. Hei-de ler. O que me intrigou foi a sua fé, a sua chama na não-fé, a explicação da ciência através da química da vida. Não lhe retiro a razão. Quem sou eu para julgar a verdade desse homem?! É a sua verdade. Respeito. Admiro. Como disse um dia Maalouf, não é a religião que cria o homem, é o homem que cria a religião. Está tudo dito. Procuro. Sei que vacilo. Sei que as dúvidas são maiores que as certezas, mas procuro, uma resposta, a minha resposta. E é na literatura que tudo se desvende, que tudo se confunde. Oh, Babel, oh minha musa Literatura. Pretendes ensinar e desensinas. Pretendes ser uma voz, mas não ouves. Cada vez que descubro um grande autor, ou uma grande autora, porque a Literatura é como os anjos, não tem sexo, procuro uma resposta ou uma pergunta sobre mim próprio. Afinal, bem sei que sou o outro e que o outro sou eu. Somos todos feitos do mesmo barro. Mudam-se as formas, mudam-se as cores, muda-se a temperatura da cozedura do barro, mas não se muda a matéria-prima. É sempre o mesmo barro. É sempre o mesmo Sísifo a fornecer a mesma matéria-prima.
Apetecia-me ler, mas já não me apetece. O deslumbramento não é fácil. Os grandes autores são raros. Cada vez mais. O mundo, hoje, é pautado pelo rápido, pelo imediato, pelo excesso, pelo prazer na hora. Todo o resto, o que leva tempo, dedicação, entusiasmo, implica um processo moroso. E, hoje, já ninguém tem tempo. Vivemos mais tempo do que os nossos antepassados, mas precisamos, ainda assim, de mais tempo ainda para o viver. O mundo é estranho, não é? Ou serei eu, o estranho. Será esse o anátema dos poetas, essa sensação de estranheza. O ver com uma lucidez desconcertante. Não sei. Não sou poeta. Nunca serei! Para o ser precisava de um par de asas flamejantes, uma estrela, algures, a brilhar só para mim, ainda que ninguém a visse, e um coração do tamanho do mundo, para ter a certeza de ser capaz de abarcar todos os sentimentos existentes. Um poeta é uma arca, uma arca de Noé, e os seus animais são a diversidade de sentimentos que nos habitam, a nós, simples mortais, filhos das estrelas. É bom ler os poetas, mas só os verdadeiros.
Hoje, apetecia-me ler… Talvez comesse por mim mesmo, eu, autor desconhecido da minha própria pessoa.


Doce mulher, estrangeira de ti própria
colhe o lume das estações eternas
e enaltece a tua voz sagrada.
Colhe o lúmen da Palavra
e queda-te, silenciosa, sem receio
de não acordar teus sonhos de lua virgem.
Arfa sem afã as esteiras frágeis da falena
que te percorrem e me percorrem e um dia nos elevará
da promessa branca da noite ao fulgir sereno da contemplação.

Passar os olhos por entre os canaviais e deixar a mente pousar, repousar no ventre verde da cintilação momentânea do que não sabe que existe mas que precisa de sentir que ainda e sempre existirá, ainda e sempre, nas fímbrias do Levante.
Saber ouvir o canto da cotovia quando o seu silêncio é um pulmão dourado a trinar as melopeias do devir. Deixar-se elevar por asas de papel que ardem e doem e ardem novamente quando o coração está cheio. Esvaziar o sentimento dos seus laços terrenos e caminhar sem rumo ao adro das manhãs eternas. Oh, divina sabedoria, por que te calas quando minha voz é ouvido ancestral? Oh, divina Poesia, por que te evaporas quando de mármore são tuas lágrimas que se içam do Nenhures para ao Nenhures regressar?
Caminho sem bússola, como todos os caminhantes antes de mim. Caminho, inseguro, temeroso. Caminho, insatisfeito, mas vivo. Caminho, livre e etéreo de todas as noções que não podem ser ditas ou engendradas e regresso, dúctil, a sorrir do que só a alma sabe que pode alcançar.

[Linhas: Foto de Inês Ramos]
Linhas, um mar de linhas marulha na palma da minha mão. E em cada uma delas uma intersecção, um cruzamento, um mapa-mundo da minha existência, inscrito, por escrever, reescrever com a tinta do porvir. De onde vim? Para onde vou? Quem sou? Quem serei? Perguntas. Tudo são perguntas enclavinhadas na palma da minha mão.
E nesta mesa que é a minha mão jogo as cartas que o Acaso me dispensou. Boas, más, fará mesmo diferença? É quem as joga e como as joga que dita o rumo do jogo. E o jogo são linhas que se cruzam e recruzam até alcançarem a linha onde todas as linhas convergem. A linha das linhas. A linha que saltará da palma da mão para a mesa do destino.

Lume verde a jorrar das entranhas da terra
a saliência do silêncio ganha cor e forma
e a vontade de içar a liberdade espraia-se.
É uma coluna de luz que distende seus braços
àqueles que ousam sorver a claridade fraterna.
A árvore, a árvore-símbolo, move-se sem ninguém se aperceber
e fala e grita e cala-se, quando a noite escasseia.
No seu regaço, a Lua, sempre a Lua
pois companheira dos tempos da inconsútil solidão
ela recorda-se das quiméricas paisagens de antes das formas.
Uma alma verdejante. É à alma da luz primitiva
que o restolhar de mil mãos aspiram. Um canto,
um bulício partilhado pelos pássaros etéreos
que sempre consentiram a melopeia ancestral. A árvore
recolhe-se, encolhe-se quando o Silêncio anoitece
e sonha e sonha entregar a sua voz ao Vento
que desde sempre a soube preservar da desesperança.


vagueia o Eco
das formas antigas e distantes
para pousar sobre o Sopro
a languidez dos dias
*_*
que urde o arco do destino
que sofre a consciência da sua cegueira
mas que, ainda assim, caminha
sempre certo de ir ao encontro da incerteza
*_*
inquieta e distante do porvir?
da fronte da pedra mansa?
como quem antecipa a sede
e rogo às estrelas o fulgir eterno
oh, tu, Esperança
que temes em desfraldar as tuas velas
se conheces o caminho da tua Ítaca
se as estrelas te conduzem ao porto da Eternidade


nas asas da chama anelar
o momento absorve a vontade clandestina
de ser tempo sem rosto
sem olhos
sem nada que a prenda à eternidade
ainda desfeito
eternamente por recompor
envolve seu nada de luminescências túmidas
em busca da primeira nota
primeira forma de uma melopeia ancestral
esquecido pelo longínquo distante
que arde seu desespero branco
com cânticos de outrora
com sonhos de areia e de vento
que somente as estrelas conseguem intuir
arde um desejo
liquido e transparente
é o movimento do espelho
a entoar o silêncio da suprema vontade
uma lágrima âmbar a nidificar na porosidade da luz

Sorriso de antanho esse que o Zéfiro traz
no seu odre de volúpias olvidadas
suco perene das distâncias que encurta
pejando as fímbrias do mundo ainda por reluzir.
Não sei quando nem como nem por onde
a sua graça benfazeja se infiltra
mas sei que é magia em ebulição
esperança rasgada das suas paredes de granito
que aquece o coração tão profundamente
que a alma se acende e brilha como a luz da primeira manhã.