Friday, November 02, 2007

Tuesday, October 30, 2007


[tela de Van Gogh: Campo de Trigo com Corvos]

Luz quebrada

Leve impressão essa que a fímbria da penumbra deixa no rosto do viandante. É sempre uma película fina, uma superfície etérea, a luz quebrada pelo momento dissidente. Mantém-se fiel o par de mãos que levemente as vestes da luminosidade afaga. Dêem-lhe a sumptuosidade da promessa. A tarde teima sempre em deslizar pela cavidade do sorriso. Permanece nele uma fonte sadia que o sustém à leveza. A leveza faz falta. A leveza não conhece a ingratidão dos dias e não teme noites desconhecidas, ainda que recubram toda a vastidão do ser. Não sei como olhar para a penumbra. Sou um viandante, um simples viandante que alberga um sonho eremita, o de passar pelo tempo sem lhe virar costas. Nasci cego à imposição das trevas. Só o regozijo da claridade me apazigua das maleitas da alma. Só o sonho de alcançar o inalcançável me engrandece quando tudo à minha volta se estiola: o homem, o sonho, a fraternidade.

Thursday, October 25, 2007


[tela sem título: Ruth Batke-Heeg]

O parto das nostalgias

Escorre lentamente pelos poros do âmago a nostalgia dos dias de então. É um suco prateado que se evola ao sabor dos sonhos que um coração terno desfolha. A nostalgia cresce como uma criança cujo cordão umbilical se manteve firme às mãos do destino. Um passado estranho e difuso emerge de uma memória que se distende de geração em geração, de vacuidade em vacuidade.
O passado contém presente e futuro na sua concha de prata, frágil e resistente ao mesmo tempo. É um sibilar estranho que ouço em imaginação. São as estrelas a verterem lágrimas cálidas, do tempo antes do tempo. Todas as criaturas à minha volta falam e cantam e choram o peso da nostalgia. Algo ficou para trás: um lastro, uma ligação ignota, um mundo por desabrochar, a inocência olvidada.

Eu sou daqueles que vêem as nostalgias erguer velas enfunadas e partir sem rumo para terras distantes, demasiado distantes da razão ou compreensão humanas. Mudar o meu olhar seria mudar o meu sentir, essa bússola norteada para oriente, em permanente digressão pelos recessos do ser. Hoje sinto-me parir a languidez dos dias e ansiar por um círio que já nem à nostalgia pertence, algo para além do lume da própria criação.

Tuesday, October 16, 2007


[tela de Arlette Paradis:"Tu as mis en fleurs mes soucis"]

O silêncio é uma chama lacrimejante
Onde as pegadas dos que ousam
São lágrimas convertidas em flores


Friday, October 12, 2007

Monocromias entediantes


[tela de Turner: Naufrágio]

Há dia e dias. Mas todos os dias assemelham-se uns aos outros. Uns mais do que outros, é claro. Os meus dias têm a particularidade de verem surdir diariamente os tons acinzentados da espécie humana. E bem cinzenta é essa espécie que acredita na sua própria iridescência. Malogro o nosso se assim não fosse. Mas não ser capaz de ver os andrajos que a alma reveste é penoso. Perdemos o rastro das Primaveras. O que lhes terá acontecido? Havia um tempo em que o homem acreditava. Havia um tempo em que a sua ignorância sadia o prevenia da sua própria derrocada. Mas hoje, o homem livre e espontâneo saiu da sua caverna e, desabituado da claridade do dia, cegou a pupila que não aguentou com o peso da luz. A luz pesa. A luz pesa sempre quando não há iniciação prévia. A Verdade liberta, dizem alguns. Mas é à opressão que conduz, porquanto, convexa, imperceptível, se difunde e dilui numa argamassa que só um par de mãos rorífluas pode sustentar. E cansa-me observar a lentidão dos dias proferir a sua voz babilónica e não haver uma única torre capaz de atrair a multidão. Estou cansado. Os dias também pesam. Mas não há maior peso do que a inacção e o torpor que nos avassala. Dêem-me Luz e um par de olhos capaz de tragar a iluminação.

Wednesday, October 10, 2007



uma folha de orvalho
cai
da nervura do Silêncio
e queda-se
sobre a fadiga dos dias
implorando
o restauro da Aurora

Thursday, October 04, 2007

As velas ardem até ao fim


[tela de Nicolas Rolland: Feu]

A tua voz calava silêncios
Vindos do mais íntimo da noite


As estações deixaram de andorinhar a esperança
O teu corpo, rijo, ancorou em sítios baldios

Onde a tua alma se quis perder


…e perdeu-se


Deixaste-te levar pelos crepúsculos do abismo
Sem nunca querer provar o sal das tuas lágrimas
E hoje sou eu que choro o desconsolo

De não ter ouvido os gritos de uma alma apedrejada

Tuesday, October 02, 2007



Do lume das cinzas

Do passado sopram ventos que nos imune contra alegrias vindouras. Do passado içam-se velas esfarrapadas com as quais ousamos sonhar com progresso. Mas quem pode navegar sem as condições necessárias para uma boa travessia? Ninguém! Mas, teimosa, a alma prossegue os seus desígnios inquinados pela desesperança. Ninguém chega onde intuitivamente não quer chegar. Ninguém alcança a prosperidade semeando o vácuo e o consolo da tristeza.
De cinzas, de muitas cinzas é composta a vida. As cinzas são a única certeza que não nos defraudará. Com elas podemos sempre contar. Mas das cinzas ainda cálidas quero aproveitar o lume do porvir e erguer os castelos que só a alma sabe arquitectar. Sim, na sua eterna dualidade a alma consegue feitos espantosos. Se, por um lado, ela nasce destroçada, por outro, habita nela a centelha do assombro, a centelha lume-cinzas-em-combustão que a move onde o horizonte se queda para renascer mais bela e mais brilhante. Do lume das cinzas ouso crer no lume das nuvens, único fulgor que me traz a serenidade do âmago.

Wednesday, September 26, 2007

Nascidos da espuma


[Fotografia: ©Alex2013]

Somos pouco; tão pouco que o ínfimo é o nosso lar e a (i)mortalidade o nosso destino. O murmúrio das fragas diz-nos que a existência é sólida, rija como um tronco de árvore, mas a espuma dos dias revela-nos que somos seres frágeis e perecíveis.
Quem parte, para a outra margem, sobe a jusante esse pequeno ribeiro que tantas vezes é ignorado, mas de que todos sabem a existência. Quem parte, parte mais leve, pois salvo do peso das sombras eclode borboleta, livre e diáfana na exposição das suas cores, quase palpáveis, quase visíveis ao olhar.
Como tu, nasci da espuma dos dias e celebro o instante bem vivido para esboçar um sorriso genuíno, o de quem tudo alcançou: a partilha anelar, a felicidade (con)sentida.
Somos pouco, bem sei. Talvez um grão de areia nas mãos do tempo, talvez um simples sopro, digno de ser registado na memória do coração.

(Dedico este texto à Ana Barroca, minha colega e amiga do dia-a-dia)

Sunday, September 23, 2007


[tela de Edward Raymes: Solitude]

Atenua-se a solidão com lágrimas, esvazia-se
a luz com meia dúzia de palavras gastas
e a garganta seca, fenece lentamente.
Inseguro, o olhar bate de frente
com o temor e o inesperado
que trazem flores sem cor e sem alma.
As lágrimas, ainda que negras
são esperança a sussurrar luas vindouras
porquanto a flauta prossegue as suas melodias secretas.


Tuesday, September 18, 2007


[tela de Marc Chagall: O Pintor: à Lua - 1917]

Toda a arte é sempre uma forme de religiosidade, um baptismo etéreo, uma chama líquida a verter a essência do Anel.

Monday, September 17, 2007

Divagações


[tela de Jackson Pollock: nonfiguration]

I believe that today more than ever a book should be sought after even if it has only one great page in it: we must search for fragments, splinters, toenails, anything that has ore in it, anything that is capable of resuscitating the body and soul. It may be that we are doomed, that there is no hope for us, any of us, but if that is so then let us set up a last agonizing, bloodcurdling howl, a screech of defiance, a war whoop! Away with lamentation! Away with elegies and dirges! Away with biographies and histories, and libraries and museums! Let the dead eat the dead. Let us living ones dance about the rim of the crater, a last expiring dance. But a dance!

Henry Miller, Tropic of Cancer, 1934

Hoje, apetecia-me ler um grande escritor, daqueles que nos transportam para outras margens, sem esforço, sem engenhos literários, um autor directo, à moda de Philip Roth. Mas, por outro lado, apetecia-me um mestre das atmosferas, das descrições minuciosas, inundadas da verve dos poetas. Um Cormac McCarthy, provavelmente. Apetecia-me ler trechos de um autor que me guiasse na escuridão. Mas um escritor não guia. Um escritor mostra, é certo, os carreiros do mundo, mas não nos leva com ele. Não pode. O seu lema é: vê mas não toques. Toca, mas não olhes. Sente, mas não me imites. O mundo já teve o seu Werther. Não queiras ser mais um.
O mundo. O que é o mundo? O mundo é esse grande espelho de refracção múltipla. Onde uns vêem água outros vêem fogo. Onde eu vejo anjos outros vêem demónios. A vida é tão engraçada. Há dias falei com um ateu. Debatíamos a existência ou não de Deus e o papel da religião. Era ateu porque indagou a questão. Leu livros. Leu Dawkins. Leu o relojoeiro cego. Hei-de ler. O que me intrigou foi a sua fé, a sua chama na não-fé, a explicação da ciência através da química da vida. Não lhe retiro a razão. Quem sou eu para julgar a verdade desse homem?! É a sua verdade. Respeito. Admiro. Como disse um dia Maalouf, não é a religião que cria o homem, é o homem que cria a religião. Está tudo dito. Procuro. Sei que vacilo. Sei que as dúvidas são maiores que as certezas, mas procuro, uma resposta, a minha resposta. E é na literatura que tudo se desvende, que tudo se confunde. Oh, Babel, oh minha musa Literatura. Pretendes ensinar e desensinas. Pretendes ser uma voz, mas não ouves. Cada vez que descubro um grande autor, ou uma grande autora, porque a Literatura é como os anjos, não tem sexo, procuro uma resposta ou uma pergunta sobre mim próprio. Afinal, bem sei que sou o outro e que o outro sou eu. Somos todos feitos do mesmo barro. Mudam-se as formas, mudam-se as cores, muda-se a temperatura da cozedura do barro, mas não se muda a matéria-prima. É sempre o mesmo barro. É sempre o mesmo Sísifo a fornecer a mesma matéria-prima.
Apetecia-me ler, mas já não me apetece. O deslumbramento não é fácil. Os grandes autores são raros. Cada vez mais. O mundo, hoje, é pautado pelo rápido, pelo imediato, pelo excesso, pelo prazer na hora. Todo o resto, o que leva tempo, dedicação, entusiasmo, implica um processo moroso. E, hoje, já ninguém tem tempo. Vivemos mais tempo do que os nossos antepassados, mas precisamos, ainda assim, de mais tempo ainda para o viver. O mundo é estranho, não é? Ou serei eu, o estranho. Será esse o anátema dos poetas, essa sensação de estranheza. O ver com uma lucidez desconcertante. Não sei. Não sou poeta. Nunca serei! Para o ser precisava de um par de asas flamejantes, uma estrela, algures, a brilhar só para mim, ainda que ninguém a visse, e um coração do tamanho do mundo, para ter a certeza de ser capaz de abarcar todos os sentimentos existentes. Um poeta é uma arca, uma arca de Noé, e os seus animais são a diversidade de sentimentos que nos habitam, a nós, simples mortais, filhos das estrelas. É bom ler os poetas, mas só os verdadeiros.
Hoje, apetecia-me ler… Talvez comesse por mim mesmo, eu, autor desconhecido da minha própria pessoa.


Sunday, September 09, 2007



És mar? És sol? Ou simplesmente lua?
De onde te vêm esses sonhos
que te brotam pelo olhar fora
e para dentro crescem como flores?


És silêncio. És Ser a meditar.


Algures, no mistério dos teus olhos
recordas os tempos antes da Hora
e observas o lento compassar dos anjos
que te observam e me observam
e te entregam suas vontades ignotas
sem nunca duvidar da tua tarefa regeneradora

Saturday, September 08, 2007


[Mikolajus Ciurlionis: óleo sobre tela - Star Sonata Allegro]

Seremos cor. Seremos sede assomada do Nada.
O ciciar da esperança despedir-se-á da sua túnica
de folhas leves e ondulantes a orvalhar o peso
das pegadas brancas, pegadas exangues
onde o Ser é espelho de um espelho invertido.

Cabe-nos o tálamo das madrugadas olvidadas.
Cabe-nos o restolhar da Voz ressequida
e ouvir as sementes da brisa tragar a chama.

Sim, seremos cor. Seremos sede em busca de alvorada.

Sunday, September 02, 2007


[Andromeda: Rodin]

Doce mulher, estrangeira de ti própria
colhe o lume das estações eternas
e enaltece a tua voz sagrada.
Colhe o lúmen da Palavra
e queda-te, silenciosa, sem receio
de não acordar teus sonhos de lua virgem.
Arfa sem afã as esteiras frágeis da falena

que te percorrem e me percorrem e um dia nos elevará
da promessa branca da noite ao fulgir sereno da contemplação.

Abandono vigiado


[A criação: Hieronymus Bosch]

Passar os olhos por entre os canaviais e deixar a mente pousar, repousar no ventre verde da cintilação momentânea do que não sabe que existe mas que precisa de sentir que ainda e sempre existirá, ainda e sempre, nas fímbrias do Levante.
Saber ouvir o canto da cotovia quando o seu silêncio é um pulmão dourado a trinar as melopeias do devir. Deixar-se elevar por asas de papel que ardem e doem e ardem novamente quando o coração está cheio. Esvaziar o sentimento dos seus laços terrenos e caminhar sem rumo ao adro das manhãs eternas. Oh, divina sabedoria, por que te calas quando minha voz é ouvido ancestral? Oh, divina Poesia, por que te evaporas quando de mármore são tuas lágrimas que se içam do Nenhures para ao Nenhures regressar?
Caminho sem bússola, como todos os caminhantes antes de mim. Caminho, inseguro, temeroso. Caminho, insatisfeito, mas vivo. Caminho, livre e etéreo de todas as noções que não podem ser ditas ou engendradas e regresso, dúctil, a sorrir do que só a alma sabe que pode alcançar.


Wednesday, August 29, 2007


[Linhas: Foto de Inês Ramos]

Linhas, um mar de linhas marulha na palma da minha mão. E em cada uma delas uma intersecção, um cruzamento, um mapa-mundo da minha existência, inscrito, por escrever, reescrever com a tinta do porvir. De onde vim? Para onde vou? Quem sou? Quem serei? Perguntas. Tudo são perguntas enclavinhadas na palma da minha mão.
E nesta mesa que é a minha mão jogo as cartas que o Acaso me dispensou. Boas, más, fará mesmo diferença? É quem as joga e como as joga que dita o rumo do jogo. E o jogo são linhas que se cruzam e recruzam até alcançarem a linha onde todas as linhas convergem. A linha das linhas. A linha que saltará da palma da mão para a mesa do destino.

Tuesday, August 28, 2007

Only Time - Enya

Thursday, August 23, 2007


[Fotografia de Ines Ramos: Quase - 2004]

Sempre que a noite decide amanhecer
uma lua cheia de esperança emerge
dos recônditos lugares do Silêncio
em busca da sede infinita
em busca do rebrilhar eterno e foragido

Monday, August 13, 2007



Lume verde a jorrar das entranhas da terra
a saliência do silêncio ganha cor e forma
e a vontade de içar a liberdade espraia-se.
É uma coluna de luz que distende seus braços
àqueles que ousam sorver a claridade fraterna.
A árvore, a árvore-símbolo, move-se sem ninguém se aperceber
e fala e grita e cala-se, quando a noite escasseia.
No seu regaço, a Lua, sempre a Lua
pois companheira dos tempos da inconsútil solidão
ela recorda-se das quiméricas paisagens de antes das formas.
Uma alma verdejante. É à alma da luz primitiva
que o restolhar de mil mãos aspiram. Um canto,
um bulício partilhado pelos pássaros etéreos
que sempre consentiram a melopeia ancestral. A árvore
recolhe-se, encolhe-se quando o Silêncio anoitece
e sonha e sonha entregar a sua voz ao Vento
que desde sempre a soube preservar da desesperança.