[tela de Jackson Pollock: nonfiguration]
I believe that today more than ever a book should be sought after even if it has only one great page in it: we must search for fragments, splinters, toenails, anything that has ore in it, anything that is capable of resuscitating the body and soul. It may be that we are doomed, that there is no hope for us, any of us, but if that is so then let us set up a last agonizing, bloodcurdling howl, a screech of defiance, a war whoop! Away with lamentation! Away with elegies and dirges! Away with biographies and histories, and libraries and museums! Let the dead eat the dead. Let us living ones dance about the rim of the crater, a last expiring dance. But a dance!
Henry Miller, Tropic of Cancer, 1934
Hoje, apetecia-me ler um grande escritor, daqueles que nos transportam para outras margens, sem esforço, sem engenhos literários, um autor directo, à moda de Philip Roth. Mas, por outro lado, apetecia-me um mestre das atmosferas, das descrições minuciosas, inundadas da verve dos poetas. Um Cormac McCarthy, provavelmente. Apetecia-me ler trechos de um autor que me guiasse na escuridão. Mas um escritor não guia. Um escritor mostra, é certo, os carreiros do mundo, mas não nos leva com ele. Não pode. O seu lema é: vê mas não toques. Toca, mas não olhes. Sente, mas não me imites. O mundo já teve o seu Werther. Não queiras ser mais um.
O mundo. O que é o mundo? O mundo é esse grande espelho de refracção múltipla. Onde uns vêem água outros vêem fogo. Onde eu vejo anjos outros vêem demónios. A vida é tão engraçada. Há dias falei com um ateu. Debatíamos a existência ou não de Deus e o papel da religião. Era ateu porque indagou a questão. Leu livros. Leu Dawkins. Leu o relojoeiro cego. Hei-de ler. O que me intrigou foi a sua fé, a sua chama na não-fé, a explicação da ciência através da química da vida. Não lhe retiro a razão. Quem sou eu para julgar a verdade desse homem?! É a sua verdade. Respeito. Admiro. Como disse um dia Maalouf, não é a religião que cria o homem, é o homem que cria a religião. Está tudo dito. Procuro. Sei que vacilo. Sei que as dúvidas são maiores que as certezas, mas procuro, uma resposta, a minha resposta. E é na literatura que tudo se desvende, que tudo se confunde. Oh, Babel, oh minha musa Literatura. Pretendes ensinar e desensinas. Pretendes ser uma voz, mas não ouves. Cada vez que descubro um grande autor, ou uma grande autora, porque a Literatura é como os anjos, não tem sexo, procuro uma resposta ou uma pergunta sobre mim próprio. Afinal, bem sei que sou o outro e que o outro sou eu. Somos todos feitos do mesmo barro. Mudam-se as formas, mudam-se as cores, muda-se a temperatura da cozedura do barro, mas não se muda a matéria-prima. É sempre o mesmo barro. É sempre o mesmo Sísifo a fornecer a mesma matéria-prima.
Apetecia-me ler, mas já não me apetece. O deslumbramento não é fácil. Os grandes autores são raros. Cada vez mais. O mundo, hoje, é pautado pelo rápido, pelo imediato, pelo excesso, pelo prazer na hora. Todo o resto, o que leva tempo, dedicação, entusiasmo, implica um processo moroso. E, hoje, já ninguém tem tempo. Vivemos mais tempo do que os nossos antepassados, mas precisamos, ainda assim, de mais tempo ainda para o viver. O mundo é estranho, não é? Ou serei eu, o estranho. Será esse o anátema dos poetas, essa sensação de estranheza. O ver com uma lucidez desconcertante. Não sei. Não sou poeta. Nunca serei! Para o ser precisava de um par de asas flamejantes, uma estrela, algures, a brilhar só para mim, ainda que ninguém a visse, e um coração do tamanho do mundo, para ter a certeza de ser capaz de abarcar todos os sentimentos existentes. Um poeta é uma arca, uma arca de Noé, e os seus animais são a diversidade de sentimentos que nos habitam, a nós, simples mortais, filhos das estrelas. É bom ler os poetas, mas só os verdadeiros.
Hoje, apetecia-me ler… Talvez comesse por mim mesmo, eu, autor desconhecido da minha própria pessoa.