Em literatura tropismos são movimentos indefiníveis que deslizam rapidamente aos limites da nossa consciência. Estão na origem dos nossos gestos, palavras e sentimentos manifestados, que acreditamos sentir e ser possível de definir. Os tropismos são a fonte secreta da nossa consciência.
Thursday, May 10, 2012
Saturday, December 31, 2011
Tuesday, October 18, 2011
Friday, September 30, 2011
Wednesday, July 27, 2011
Foi o restolhar dos primeiros raios que se esbateu sobra a vontade de acordar. Foi o bulício da sede a chamar por uma boca. Foi o desejo da boca a clamar por um corpo. A luz irrompeu. As trevas dissiparam-se, lentamente, como o primeiro fio de água a cair das mãos de Anafaya, eterna e misteriosa. A pedra ergueu-se do silêncio. O canto moveu-se pelas cores do arco-íris. Tudo se compôs. Insonte e singular a voz da manhã inundou o parto do porvir. O gato absorveu a iridiscência do saber e engoliu no seu âmago a impressão primordial. No seu olhar, ainda hoje, albergam-se estrelas e constelações e sonhos de um tempo circular. Atento, tornou-se vigia, vigilante de segredos que só ele compreende. E Anafaya, confia. Fia-lhe o ínfimo do seu domínio que é água, fogo, ar e terra. E éter e seda translúcida, muita seda estrelar.
Sunday, July 17, 2011
[Ljuba: As tentações, Depois 1988-1989]
Monday, January 14, 2008

Quem me dera a leveza do pássaro, a inocência do seu canto que alisa as deformidades da alma. Nasci sem asas, com um manto de cores soturnas a ornamentar o vazio do meu sentir. Falta-me a visão dos bravos. Falta-me aquele olhar que se ergue para o infinito e se perde na vastidão do absoluto, com a absoluta certeza de se perder na leveza.
Há dias em que me resigno por pertencer a uma espécie sem rumo, onde cada um sufoca com a sua própria leveza. Mas não deveria ser assim. Não! Resignar-se à linearidade da paralisia espiritual nada tem de belo ou de leve. Fere-me um sentimento de impotência por contentar-me com a imitação colectiva de uma felicidade cada vez mais virtual. Fere-me ser um espectador atento, incapaz de se soltar dos seus grilhões. A meu lado, cabisbaixo, outros seres deixaram de se lamentar e aceitaram existir fora do Tempo. Fora da terra prometida, que continua a aguardar pelas asas da leveza.
Persegue-me um sonho, uma fragrância de Primavera, e minhas lágrimas são a esperança de que pouco a pouco o rio irá correr a jusante, rumo à promessa do alvor sempiterno.
Sunday, December 23, 2007

Folhas caídas
Da minha janela vejo o mar e, oh, que mar!, todo ele uniforme, esbelto e cheio de nuvens, sim, nuvens. E as folhas? Quando olho para o mar já não vejo as folhas porque são elas que se transformaram em mar.
Wednesday, November 28, 2007

[El Minotauro (1877-86) de George Frederick Watts]
O labirinto da felicidade
Monday, November 05, 2007

[tela de Van Gogh: noite estrelada]
Também eu quero
Também eu quero deitar-me na relva húmida e contemplar a música das estrelas. Também eu quero ser estrela e sonhar com o parto de outras estrelas e ver nascer mais e mais estrelas. O céu é um mar estrelado que não posso perder. Soçobrar na sua liquescência é a maravilha a que eu aspiro. Tornar-me meteoro e singrar pelo vastíssimo mundo da poeira estrelada eis o sonho de menino que hoje se tornou homem. Também eu quero transformar a matéria em massa onírica e insuflar-lhe a vida como só os deuses o sabem fazer.
Estou deitado. Ouço o riso das estrelas e sorrio. Também eu sou poeira a vaguear pelo vazio preenchendo o espaço com as minhas minúsculas vibrações, minúsculos enamoramentos a criar energia.
Friday, November 02, 2007
Tuesday, October 30, 2007

[tela de Van Gogh: Campo de Trigo com Corvos]
Luz quebrada
Thursday, October 25, 2007

[tela sem título: Ruth Batke-Heeg]
O parto das nostalgias
Escorre lentamente pelos poros do âmago a nostalgia dos dias de então. É um suco prateado que se evola ao sabor dos sonhos que um coração terno desfolha. A nostalgia cresce como uma criança cujo cordão umbilical se manteve firme às mãos do destino. Um passado estranho e difuso emerge de uma memória que se distende de geração em geração, de vacuidade em vacuidade.
O passado contém presente e futuro na sua concha de prata, frágil e resistente ao mesmo tempo. É um sibilar estranho que ouço em imaginação. São as estrelas a verterem lágrimas cálidas, do tempo antes do tempo. Todas as criaturas à minha volta falam e cantam e choram o peso da nostalgia. Algo ficou para trás: um lastro, uma ligação ignota, um mundo por desabrochar, a inocência olvidada.
Eu sou daqueles que vêem as nostalgias erguer velas enfunadas e partir sem rumo para terras distantes, demasiado distantes da razão ou compreensão humanas. Mudar o meu olhar seria mudar o meu sentir, essa bússola norteada para oriente, em permanente digressão pelos recessos do ser. Hoje sinto-me parir a languidez dos dias e ansiar por um círio que já nem à nostalgia pertence, algo para além do lume da própria criação.
Tuesday, October 16, 2007
Friday, October 12, 2007
Monocromias entediantes

[tela de Turner: Naufrágio]
Há dia e dias. Mas todos os dias assemelham-se uns aos outros. Uns mais do que outros, é claro. Os meus dias têm a particularidade de verem surdir diariamente os tons acinzentados da espécie humana. E bem cinzenta é essa espécie que acredita na sua própria iridescência. Malogro o nosso se assim não fosse. Mas não ser capaz de ver os andrajos que a alma reveste é penoso. Perdemos o rastro das Primaveras. O que lhes terá acontecido? Havia um tempo em que o homem acreditava. Havia um tempo em que a sua ignorância sadia o prevenia da sua própria derrocada. Mas hoje, o homem livre e espontâneo saiu da sua caverna e, desabituado da claridade do dia, cegou a pupila que não aguentou com o peso da luz. A luz pesa. A luz pesa sempre quando não há iniciação prévia. A Verdade liberta, dizem alguns. Mas é à opressão que conduz, porquanto, convexa, imperceptível, se difunde e dilui numa argamassa que só um par de mãos rorífluas pode sustentar. E cansa-me observar a lentidão dos dias proferir a sua voz babilónica e não haver uma única torre capaz de atrair a multidão. Estou cansado. Os dias também pesam. Mas não há maior peso do que a inacção e o torpor que nos avassala. Dêem-me Luz e um par de olhos capaz de tragar a iluminação.
Wednesday, October 10, 2007
Thursday, October 04, 2007
As velas ardem até ao fim
A tua voz calava silêncios
Vindos do mais íntimo da noite
As estações deixaram de andorinhar a esperança
O teu corpo, rijo, ancorou em sítios baldios
Onde a tua alma se quis perder
…e perdeu-se
Deixaste-te levar pelos crepúsculos do abismo
Sem nunca querer provar o sal das tuas lágrimas
E hoje sou eu que choro o desconsolo
De não ter ouvido os gritos de uma alma apedrejada
Tuesday, October 02, 2007

Do lume das cinzas
De cinzas, de muitas cinzas é composta a vida. As cinzas são a única certeza que não nos defraudará. Com elas podemos sempre contar. Mas das cinzas ainda cálidas quero aproveitar o lume do porvir e erguer os castelos que só a alma sabe arquitectar. Sim, na sua eterna dualidade a alma consegue feitos espantosos. Se, por um lado, ela nasce destroçada, por outro, habita nela a centelha do assombro, a centelha lume-cinzas-em-combustão que a move onde o horizonte se queda para renascer mais bela e mais brilhante. Do lume das cinzas ouso crer no lume das nuvens, único fulgor que me traz a serenidade do âmago.
Wednesday, September 26, 2007
Nascidos da espuma

[Fotografia: ©Alex2013]
Somos pouco; tão pouco que o ínfimo é o nosso lar e a (i)mortalidade o nosso destino. O murmúrio das fragas diz-nos que a existência é sólida, rija como um tronco de árvore, mas a espuma dos dias revela-nos que somos seres frágeis e perecíveis.
Quem parte, para a outra margem, sobe a jusante esse pequeno ribeiro que tantas vezes é ignorado, mas de que todos sabem a existência. Quem parte, parte mais leve, pois salvo do peso das sombras eclode borboleta, livre e diáfana na exposição das suas cores, quase palpáveis, quase visíveis ao olhar.
Como tu, nasci da espuma dos dias e celebro o instante bem vivido para esboçar um sorriso genuíno, o de quem tudo alcançou: a partilha anelar, a felicidade (con)sentida.
Somos pouco, bem sei. Talvez um grão de areia nas mãos do tempo, talvez um simples sopro, digno de ser registado na memória do coração.
Sunday, September 23, 2007

[tela de Edward Raymes: Solitude]
Atenua-se a solidão com lágrimas, esvazia-se
a luz com meia dúzia de palavras gastas
e a garganta seca, fenece lentamente.
Inseguro, o olhar bate de frente
com o temor e o inesperado
que trazem flores sem cor e sem alma.
As lágrimas, ainda que negras
são esperança a sussurrar luas vindouras
porquanto a flauta prossegue as suas melodias secretas.







