Thursday, May 10, 2012




A vida é um sopro 

Do meu mundo eu consigo ver as estrelas. E elas brilham. E elas cantam. E elas existem mesmo que o seu tempo já se tenha finado. A vida é assim, um sopro, sem escafandro ou armadura capaz de o deter. 
Do meu mundo eu consigo esculpir estrelas e casas, muitas casas, pois até as estrelas precisam de um lar. E os teus olhos são os meus olhos a erguer a imanência dos dias. O amanhecer das promessas é um berço para aqueles que consentem o verdadeiro olhar. E há tanta verdade por desvendar, tanto mistério nas coisas pequenas que as grandes se tornam grandes na sua incerteza. 
Do meu mundo eu consigo avistar o teu mundo, que é o mesmo mundo a acalentar o mesmo lume, o de uma criança que descobre e explora e expande e ri e chora e se comove com a essência que a envolve. 
Do meu mundo que agora também é o teu mundo eu consigo encurtar as distâncias que nos separam e ver os ramos de luz que nos ligam, os ramos de alba que tudo ligam. O visível e o invisível tornam-se unos, a noite e o dia já não se estranham, o espírito e a alma confortam-se na serenidade de um sopro, solto e frágil na sua existência, perene e firme na sua substância. 
Do meu mundo, agora e sempre, eu posso estender a minha mão e acolher a tua mão e ir ao encontro da luz curva do mundo, sem temor, sem receio de me perder no meio de tanta escuridão.




Saturday, December 31, 2011




[Ludwig Meidner - Eu e a cidade]



Cidade em chamas

Há um desassossego, inquietante, a reinar sobre o silêncio estridente dos corpos em chamas. São edifícios de carne, são edifícios de sangue que vagueiam sem rumo aparente. É um olhar em riste, uma palavra apedrejada, um coração desprovido do seu calor. Tudo, a soma de assomos de sonhos destituídos de azul. Será do chão?, gasto pelas pegadas de barro que os viandantes teimam em deixar, qual lastro que os impede de levantar voo. Ou será da visão?, demasiado distante do imo que nos liga.
Inquieta-me esse desassossego tingido de acalmia ilusória. Os corpos mexem-se, mas não se movem; a boca fala mas nada diz. É a cidade das aparências a produzir ilusões. À minha volta corações exangues desagregam o sal das suas lágrimas. E o que é uma lágrima sem sal?! O que é uma boca sem sorriso? A candura dos dias sem negrume ausentou-se. A luz, agora opaca, deixou de atravessar a íris como então. Os dias pesam, mas esses dias são os mesmos para as formigas e os pássaros e as plantas. E deles tenho tudo a aprender. É um fluir constante, desprovido de lassidões humanas. Só eles são dúcteis como o ramo e leves como o vento, a ombrear a voz do rio que galga as mais diáfanas realidades.
Da cidade em chamas ao amanhecer da natureza, basta um crer. O verdadeiro tálamo está na essência e voltar ao Ser é voltar a ser, sem falsas aparências ou ilusões acerbadas, apenas a humildade de querer ir mais além, onde a esperança continua a irrigar a terra de promessas. 

Tuesday, October 18, 2011


  [tela de Didier Watrin]
                                                            
Sopra uma aragem quente. É um sopro que vem do vento da fronteira. É um restolhar esquecido. Esquecido dos esquecem para não saber. Esquecido dos que choram para não recordar. O sibilo é imperceptível ou quase, não fosse aquele tordo que espreita, do limiar da percepção. Há sempre um tordo a espreitar. Há sempre um anjo a recordar. Os eflúvios do âmago deslizam suavemente pelas brumas do entorpecimento. Está escuro. A luz parece ter-se ausentado. É o espírito de Sísifo que nos impregna da sua incapacidade de quebrar o inadiável. Está agrilhoado, como nós, seus descendentes. Mas continua, de olhar em riste, preso a uma ideia, uma chama que não definha ainda que a mente a ignore. Não podemos mais adiar o amanhecer. O tordo aguarda. Não podemos mais negar-lhe as suas asas pois são elas que nos guiam. Alhures, onde a promessa é sagrada um vento sopra, suavemente, na nossa direcção. Resta senti-lo. Resta abraça-lo.   

Friday, September 30, 2011

[nascimento de uma estrela]

Lânguido é o desejo de caminhar. É um cansaço que vem do tempo antes do tempo, dos domínios onde a chuva verdejava e o sol irrompia da tristeza mais profunda. É uma prece sem dono ou colo sem calor para acalentar. Vem de lá, do orbe mais distante, onde a luz se extingue e a vontade se queda. É tão distante mas tão perto que a mão que nos agarra também é aquela que nos afasta. O rebrilhar da vontade é opaco e denso, tão denso que as estrelas se afastam da noite. A voz, que comanda o sentimento, definha na sua própria melodia, mas bate, débil, como o pulsar de um sol em agonia. Há luz, sim. Haverá sempre luz nas noites sem estrelas e haverá sempre esperança na lassidão mais vasta. O desejo permanece lânguido, mas permanece. Assim é a grande revolução da alma, uma escuridão suprema rumo ao desabrochar de uma nova era. Assim seja! Faça-se Luz! 

Wednesday, July 27, 2011

                         
                                                                     [Imagem de Olivier Boeykens]


Foi o restolhar dos primeiros raios que se esbateu sobra a vontade de acordar. Foi o bulício da sede a chamar por uma boca. Foi o desejo da boca a clamar por um corpo. A luz irrompeu. As trevas dissiparam-se, lentamente, como o primeiro fio de água a cair das mãos de Anafaya, eterna e misteriosa. A pedra ergueu-se do silêncio. O canto moveu-se pelas cores do arco-íris. Tudo se compôs. Insonte e singular a voz da manhã inundou o parto do porvir. O gato absorveu a iridiscência do saber e engoliu no seu âmago a impressão primordial. No seu olhar, ainda hoje, albergam-se estrelas e constelações e sonhos de um tempo circular. Atento, tornou-se vigia, vigilante de segredos que só ele compreende. E Anafaya, confia. Fia-lhe o ínfimo do seu domínio que é água, fogo, ar e terra. E éter e seda translúcida, muita seda estrelar.       

Sunday, July 17, 2011

          
       
[Ljuba: As tentações, Depois 1988-1989]      
                                    


Indelével é o toque da espera. Sempre à espera de uma mão. Sempre à espera de uma candeia capaz de regressar das brumas do antigamente. É um rosto. É um sorriso. Talvez uma promessa, o cumprir de uma caminhada eternamente por terminar. Um pé, descalço, exangue, a pisar sonhos embuçados de lágrimas e suor e tristeza, muita tristeza… É assim o roçagar dos eflúvios da madrugada. É assim esta chama que arde todos os dias e todas as noites e que passa e repassa e perpassa os vidros escurecidos de uma alma em apuros. É um peso. É uma mágoa. É um constrangimento! É uma confluência de línguas estranhas que se atropelam no horizonte do interior, muito interior. Será daquela melodia, monocórdica, rasgada, pespontada de feridas que nunca saram? Eu não sei o que é. Mas é indelével e espaçoso. Ocupa todo o olhar. E o que está para além fica preso a uma parede de rocha que não conhece a voz do inefável. Não. Minto! Conhece, mas já não se recorda…     

Monday, January 14, 2008


[Passage to Wonder: Gilbert Williams]
Persegue-me este peso, esta luz mortiça, como uma sombra encostada à minha vontade, que se dilui no meu ser, cativo de um lastro que não pretende. É um sufoco que se alastra como um incêndio e que avança a cada novo fôlego.
Quem me dera a leveza do pássaro, a inocência do seu canto que alisa as deformidades da alma. Nasci sem asas, com um manto de cores soturnas a ornamentar o vazio do meu sentir. Falta-me a visão dos bravos. Falta-me aquele olhar que se ergue para o infinito e se perde na vastidão do absoluto, com a absoluta certeza de se perder na leveza.
Há dias em que me resigno por pertencer a uma espécie sem rumo, onde cada um sufoca com a sua própria leveza. Mas não deveria ser assim. Não! Resignar-se à linearidade da paralisia espiritual nada tem de belo ou de leve. Fere-me um sentimento de impotência por contentar-me com a imitação colectiva de uma felicidade cada vez mais virtual. Fere-me ser um espectador atento, incapaz de se soltar dos seus grilhões. A meu lado, cabisbaixo, outros seres deixaram de se lamentar e aceitaram existir fora do Tempo. Fora da terra prometida, que continua a aguardar pelas asas da leveza.
Persegue-me um sonho, uma fragrância de Primavera, e minhas lágrimas são a esperança de que pouco a pouco o rio irá correr a jusante, rumo à promessa do alvor sempiterno.

Sunday, December 23, 2007




Folhas caídas


Um punhado de folhas caídas do tecto da noite revoluteia no ar da incerteza. Serão folhas ou serão lágrimas? Aquele rosto, e aquele outro, e ainda aquele outro a mirrarem à superfície do negrume. Serão rostos ou serão lágrimas? Negro é o tecto que sustem a luz impalpável, uma concha fechada sobre si própria, alojando o segredo que a anima. Mas qual será? E porquê guardar o mistério de dois mundos que nunca passaram de um só? Eu sei… É o medo disfarçado de força, sem fôlego para puxar o arado da alegria. São folhas, caídas, a juncar o futuro, inseguro, mas com alma de quem conhece o caminho daquele sempiterno rio que fluí para o mar.
Da minha janela vejo o mar e, oh, que mar!, todo ele uniforme, esbelto e cheio de nuvens, sim, nuvens. E as folhas? Quando olho para o mar já não vejo as folhas porque são elas que se transformaram em mar.

Wednesday, November 28, 2007


[El Minotauro (1877-86) de George Frederick Watts]

O labirinto da felicidade

Circular é a felicidade que entra pelo labirinto das nuvens e se perde. A felicidade perde-se sempre entre muros demasiado diáfanos, demasiado frágeis para aguentar o peso da leveza. Um dia, também tu entrarás por este labirinto que a ninguém pertence mas que todos enveredam. Um dia, sem fio de Ariana, ou Minotauro por defrontar, deixarás o coração no templo das promessas e, cego de cegueiras brancas, curvar-te-ás perante o rosto da Aurora sem saber como fitar a beleza que contém o tempo do momento, momento de eternidade. Mas, recorda-te, do labirinto em chamas ao mundo sem esteios, a visão do porvir não passará de um devaneio, ainda que o teu corpo se abra à revelação. Do Minotauro todos nós somos filhos. Todos nós somos partículas integrantes desse todo que nos atrai e que ao mesmo tempo nos afasta. Sai do teu labirinto. Sai da tua felicidade encastelada e olha para ti. Olha para onde a visão deixa de focar a miragem e deixa-te guiar pela melopeia das estrelas, que só te levará onde realmente estavas destinado a chegar.

...para a Inês....

Monday, November 05, 2007


[tela de Van Gogh: noite estrelada]

Também eu quero
Também eu quero deitar-me na relva húmida e contemplar a música das estrelas. Também eu quero ser estrela e sonhar com o parto de outras estrelas e ver nascer mais e mais estrelas. O céu é um mar estrelado que não posso perder. Soçobrar na sua liquescência é a maravilha a que eu aspiro. Tornar-me meteoro e singrar pelo vastíssimo mundo da poeira estrelada eis o sonho de menino que hoje se tornou homem. Também eu quero transformar a matéria em massa onírica e insuflar-lhe a vida como só os deuses o sabem fazer.

Estou deitado. Ouço o riso das estrelas e sorrio. Também eu sou poeira a vaguear pelo vazio preenchendo o espaço com as minhas minúsculas vibrações, minúsculos enamoramentos a criar energia.

Friday, November 02, 2007

Tuesday, October 30, 2007


[tela de Van Gogh: Campo de Trigo com Corvos]

Luz quebrada

Leve impressão essa que a fímbria da penumbra deixa no rosto do viandante. É sempre uma película fina, uma superfície etérea, a luz quebrada pelo momento dissidente. Mantém-se fiel o par de mãos que levemente as vestes da luminosidade afaga. Dêem-lhe a sumptuosidade da promessa. A tarde teima sempre em deslizar pela cavidade do sorriso. Permanece nele uma fonte sadia que o sustém à leveza. A leveza faz falta. A leveza não conhece a ingratidão dos dias e não teme noites desconhecidas, ainda que recubram toda a vastidão do ser. Não sei como olhar para a penumbra. Sou um viandante, um simples viandante que alberga um sonho eremita, o de passar pelo tempo sem lhe virar costas. Nasci cego à imposição das trevas. Só o regozijo da claridade me apazigua das maleitas da alma. Só o sonho de alcançar o inalcançável me engrandece quando tudo à minha volta se estiola: o homem, o sonho, a fraternidade.

Thursday, October 25, 2007


[tela sem título: Ruth Batke-Heeg]

O parto das nostalgias

Escorre lentamente pelos poros do âmago a nostalgia dos dias de então. É um suco prateado que se evola ao sabor dos sonhos que um coração terno desfolha. A nostalgia cresce como uma criança cujo cordão umbilical se manteve firme às mãos do destino. Um passado estranho e difuso emerge de uma memória que se distende de geração em geração, de vacuidade em vacuidade.
O passado contém presente e futuro na sua concha de prata, frágil e resistente ao mesmo tempo. É um sibilar estranho que ouço em imaginação. São as estrelas a verterem lágrimas cálidas, do tempo antes do tempo. Todas as criaturas à minha volta falam e cantam e choram o peso da nostalgia. Algo ficou para trás: um lastro, uma ligação ignota, um mundo por desabrochar, a inocência olvidada.

Eu sou daqueles que vêem as nostalgias erguer velas enfunadas e partir sem rumo para terras distantes, demasiado distantes da razão ou compreensão humanas. Mudar o meu olhar seria mudar o meu sentir, essa bússola norteada para oriente, em permanente digressão pelos recessos do ser. Hoje sinto-me parir a languidez dos dias e ansiar por um círio que já nem à nostalgia pertence, algo para além do lume da própria criação.

Tuesday, October 16, 2007


[tela de Arlette Paradis:"Tu as mis en fleurs mes soucis"]

O silêncio é uma chama lacrimejante
Onde as pegadas dos que ousam
São lágrimas convertidas em flores


Friday, October 12, 2007

Monocromias entediantes


[tela de Turner: Naufrágio]

Há dia e dias. Mas todos os dias assemelham-se uns aos outros. Uns mais do que outros, é claro. Os meus dias têm a particularidade de verem surdir diariamente os tons acinzentados da espécie humana. E bem cinzenta é essa espécie que acredita na sua própria iridescência. Malogro o nosso se assim não fosse. Mas não ser capaz de ver os andrajos que a alma reveste é penoso. Perdemos o rastro das Primaveras. O que lhes terá acontecido? Havia um tempo em que o homem acreditava. Havia um tempo em que a sua ignorância sadia o prevenia da sua própria derrocada. Mas hoje, o homem livre e espontâneo saiu da sua caverna e, desabituado da claridade do dia, cegou a pupila que não aguentou com o peso da luz. A luz pesa. A luz pesa sempre quando não há iniciação prévia. A Verdade liberta, dizem alguns. Mas é à opressão que conduz, porquanto, convexa, imperceptível, se difunde e dilui numa argamassa que só um par de mãos rorífluas pode sustentar. E cansa-me observar a lentidão dos dias proferir a sua voz babilónica e não haver uma única torre capaz de atrair a multidão. Estou cansado. Os dias também pesam. Mas não há maior peso do que a inacção e o torpor que nos avassala. Dêem-me Luz e um par de olhos capaz de tragar a iluminação.

Wednesday, October 10, 2007



uma folha de orvalho
cai
da nervura do Silêncio
e queda-se
sobre a fadiga dos dias
implorando
o restauro da Aurora

Thursday, October 04, 2007

As velas ardem até ao fim


[tela de Nicolas Rolland: Feu]

A tua voz calava silêncios
Vindos do mais íntimo da noite


As estações deixaram de andorinhar a esperança
O teu corpo, rijo, ancorou em sítios baldios

Onde a tua alma se quis perder


…e perdeu-se


Deixaste-te levar pelos crepúsculos do abismo
Sem nunca querer provar o sal das tuas lágrimas
E hoje sou eu que choro o desconsolo

De não ter ouvido os gritos de uma alma apedrejada

Tuesday, October 02, 2007



Do lume das cinzas

Do passado sopram ventos que nos imune contra alegrias vindouras. Do passado içam-se velas esfarrapadas com as quais ousamos sonhar com progresso. Mas quem pode navegar sem as condições necessárias para uma boa travessia? Ninguém! Mas, teimosa, a alma prossegue os seus desígnios inquinados pela desesperança. Ninguém chega onde intuitivamente não quer chegar. Ninguém alcança a prosperidade semeando o vácuo e o consolo da tristeza.
De cinzas, de muitas cinzas é composta a vida. As cinzas são a única certeza que não nos defraudará. Com elas podemos sempre contar. Mas das cinzas ainda cálidas quero aproveitar o lume do porvir e erguer os castelos que só a alma sabe arquitectar. Sim, na sua eterna dualidade a alma consegue feitos espantosos. Se, por um lado, ela nasce destroçada, por outro, habita nela a centelha do assombro, a centelha lume-cinzas-em-combustão que a move onde o horizonte se queda para renascer mais bela e mais brilhante. Do lume das cinzas ouso crer no lume das nuvens, único fulgor que me traz a serenidade do âmago.

Wednesday, September 26, 2007

Nascidos da espuma


[Fotografia: ©Alex2013]

Somos pouco; tão pouco que o ínfimo é o nosso lar e a (i)mortalidade o nosso destino. O murmúrio das fragas diz-nos que a existência é sólida, rija como um tronco de árvore, mas a espuma dos dias revela-nos que somos seres frágeis e perecíveis.
Quem parte, para a outra margem, sobe a jusante esse pequeno ribeiro que tantas vezes é ignorado, mas de que todos sabem a existência. Quem parte, parte mais leve, pois salvo do peso das sombras eclode borboleta, livre e diáfana na exposição das suas cores, quase palpáveis, quase visíveis ao olhar.
Como tu, nasci da espuma dos dias e celebro o instante bem vivido para esboçar um sorriso genuíno, o de quem tudo alcançou: a partilha anelar, a felicidade (con)sentida.
Somos pouco, bem sei. Talvez um grão de areia nas mãos do tempo, talvez um simples sopro, digno de ser registado na memória do coração.

(Dedico este texto à Ana Barroca, minha colega e amiga do dia-a-dia)

Sunday, September 23, 2007


[tela de Edward Raymes: Solitude]

Atenua-se a solidão com lágrimas, esvazia-se
a luz com meia dúzia de palavras gastas
e a garganta seca, fenece lentamente.
Inseguro, o olhar bate de frente
com o temor e o inesperado
que trazem flores sem cor e sem alma.
As lágrimas, ainda que negras
são esperança a sussurrar luas vindouras
porquanto a flauta prossegue as suas melodias secretas.