Em literatura tropismos são movimentos indefiníveis que deslizam rapidamente aos limites da nossa consciência. Estão na origem dos nossos gestos, palavras e sentimentos manifestados, que acreditamos sentir e ser possível de definir. Os tropismos são a fonte secreta da nossa consciência.
Tuesday, January 22, 2013
Monday, January 14, 2013
Monday, September 17, 2012
Saturday, September 15, 2012
Saturday, September 08, 2012
Friday, May 25, 2012
Thursday, May 10, 2012
Saturday, December 31, 2011
Tuesday, October 18, 2011
Friday, September 30, 2011
Wednesday, July 27, 2011
Foi o restolhar dos primeiros raios que se esbateu sobra a vontade de acordar. Foi o bulício da sede a chamar por uma boca. Foi o desejo da boca a clamar por um corpo. A luz irrompeu. As trevas dissiparam-se, lentamente, como o primeiro fio de água a cair das mãos de Anafaya, eterna e misteriosa. A pedra ergueu-se do silêncio. O canto moveu-se pelas cores do arco-íris. Tudo se compôs. Insonte e singular a voz da manhã inundou o parto do porvir. O gato absorveu a iridiscência do saber e engoliu no seu âmago a impressão primordial. No seu olhar, ainda hoje, albergam-se estrelas e constelações e sonhos de um tempo circular. Atento, tornou-se vigia, vigilante de segredos que só ele compreende. E Anafaya, confia. Fia-lhe o ínfimo do seu domínio que é água, fogo, ar e terra. E éter e seda translúcida, muita seda estrelar.
Sunday, July 17, 2011
[Ljuba: As tentações, Depois 1988-1989]
Monday, January 14, 2008

Quem me dera a leveza do pássaro, a inocência do seu canto que alisa as deformidades da alma. Nasci sem asas, com um manto de cores soturnas a ornamentar o vazio do meu sentir. Falta-me a visão dos bravos. Falta-me aquele olhar que se ergue para o infinito e se perde na vastidão do absoluto, com a absoluta certeza de se perder na leveza.
Há dias em que me resigno por pertencer a uma espécie sem rumo, onde cada um sufoca com a sua própria leveza. Mas não deveria ser assim. Não! Resignar-se à linearidade da paralisia espiritual nada tem de belo ou de leve. Fere-me um sentimento de impotência por contentar-me com a imitação colectiva de uma felicidade cada vez mais virtual. Fere-me ser um espectador atento, incapaz de se soltar dos seus grilhões. A meu lado, cabisbaixo, outros seres deixaram de se lamentar e aceitaram existir fora do Tempo. Fora da terra prometida, que continua a aguardar pelas asas da leveza.
Persegue-me um sonho, uma fragrância de Primavera, e minhas lágrimas são a esperança de que pouco a pouco o rio irá correr a jusante, rumo à promessa do alvor sempiterno.
Sunday, December 23, 2007

Folhas caídas
Da minha janela vejo o mar e, oh, que mar!, todo ele uniforme, esbelto e cheio de nuvens, sim, nuvens. E as folhas? Quando olho para o mar já não vejo as folhas porque são elas que se transformaram em mar.
Wednesday, November 28, 2007

[El Minotauro (1877-86) de George Frederick Watts]
O labirinto da felicidade
Monday, November 05, 2007

[tela de Van Gogh: noite estrelada]
Também eu quero
Também eu quero deitar-me na relva húmida e contemplar a música das estrelas. Também eu quero ser estrela e sonhar com o parto de outras estrelas e ver nascer mais e mais estrelas. O céu é um mar estrelado que não posso perder. Soçobrar na sua liquescência é a maravilha a que eu aspiro. Tornar-me meteoro e singrar pelo vastíssimo mundo da poeira estrelada eis o sonho de menino que hoje se tornou homem. Também eu quero transformar a matéria em massa onírica e insuflar-lhe a vida como só os deuses o sabem fazer.
Estou deitado. Ouço o riso das estrelas e sorrio. Também eu sou poeira a vaguear pelo vazio preenchendo o espaço com as minhas minúsculas vibrações, minúsculos enamoramentos a criar energia.
Friday, November 02, 2007
Tuesday, October 30, 2007

[tela de Van Gogh: Campo de Trigo com Corvos]
Luz quebrada
Thursday, October 25, 2007

[tela sem título: Ruth Batke-Heeg]
O parto das nostalgias
Escorre lentamente pelos poros do âmago a nostalgia dos dias de então. É um suco prateado que se evola ao sabor dos sonhos que um coração terno desfolha. A nostalgia cresce como uma criança cujo cordão umbilical se manteve firme às mãos do destino. Um passado estranho e difuso emerge de uma memória que se distende de geração em geração, de vacuidade em vacuidade.
O passado contém presente e futuro na sua concha de prata, frágil e resistente ao mesmo tempo. É um sibilar estranho que ouço em imaginação. São as estrelas a verterem lágrimas cálidas, do tempo antes do tempo. Todas as criaturas à minha volta falam e cantam e choram o peso da nostalgia. Algo ficou para trás: um lastro, uma ligação ignota, um mundo por desabrochar, a inocência olvidada.
Eu sou daqueles que vêem as nostalgias erguer velas enfunadas e partir sem rumo para terras distantes, demasiado distantes da razão ou compreensão humanas. Mudar o meu olhar seria mudar o meu sentir, essa bússola norteada para oriente, em permanente digressão pelos recessos do ser. Hoje sinto-me parir a languidez dos dias e ansiar por um círio que já nem à nostalgia pertence, algo para além do lume da própria criação.










