Saturday, January 26, 2013



 [David Fedeli - Turning Point]

Debaixo de cada olhar persiste uma lembrança de menino
uma nuvem solta à procura de um sol, um pacto secreto
com as estrelas e os sonhos e todos os seres moldados pela luz.
É uma vontade de subir. É um desejo de alar as tristezas do dia-a-dia
e de ver o orvalho ganhar flor e desabrochar do seu rosto frágil e dorido.
Persiste em cada vento arrancado ao seu lar uma raiz, um refrão
ainda que triste, mas que não desiste de atravessar as folhas do tempo
e que sabe, no seu íntimo, que a canção que pretende escutar  
é uma ave branca, um meteoro a explorar os feixes da madrugada redentora.

Tuesday, January 22, 2013




saber contemplar o espectáculo do mundo e ouvir
o silêncio das pedras a atravessar a verdura do tempo
sem interromper as suas agulhas solares, o seu negrume longínquo
e sentir as hastes invisíveis do mais profundo dos olhares
uma abelha branca a içar a essência  do que não pode ser nomeado
nem traduzido para palavras ou ideias corrompidas da sua verve
eis a missão do oleiro: criar, recriar a refracção da alma primordial


Monday, January 14, 2013



 [Pintura a óleo de Zdislav Beksinski]

Tudo o que se sente chega de longe. Inclina-se o coração
a mão que o sente tenta atingir a luz que irrompe
e a luz irrompe sempre onde a escuridão prevalece.
A luz ergue-se do fundo das constelações, de distâncias sem fim
rumo a um destino que só ela sabe acalentar e a mão aguarda
sem pressa de principiar a derradeira madrugada, sem pressa de inalar
o aroma puro das águas estivais. Onde a luz irrompe uma nova estrela nasce
e com ela a bênção de sentir o sol irrigar raízes prontas para desabrochar. 

Monday, September 17, 2012

          [Poussière d'étoiles - Renée Chevalier 2008]


Somos acaso somos estrelas

Por cada estrela a fulgir a sua insignificância o acaso tece uma ponte que atravessa o olhar. É mais do que uma ponte. É ser a clamar por outro ser. É luz a atrair mais luz. É o espaço infinito a repercutir a melodia das estrelas, inaudível ao ouvido, mas perceptível ao coração.
Somos acaso, mero acaso na distorção do espaço e do tempo. E é o furtuito, o inesperado da criação que bate lentamente o seu pulsar sereno, mas nem sempre pacífico. Às vezes é fogo a jorrar das entranhas da terra, pele a queimar com a dor de existir, pele a sentir que está a existir, pele a morrer para renascer viçosa e pronta para brilhar mais uma vez e outra e novamente, como o processo da criação.
Hoje sou acaso. Amanhã serei estrela. E é naquele preciso momento que não pertence às leis da terra que o silêncio rasa as pedras do sofrimento e lhe ergue uma torre de marfim, uma torre assente em esperança e lume e sopro incandescente.
Hoje, não sou nada. Mas amanhã, sim, amanhã, talvez, serei chama a brilhar do fundo da noite, uma ferida branca a partilhar as verdades ignotas da existência. É esse o parto das nostalgias. É esse o parto da verdadeira pertença, sulcos imutáveis a vaguear pelas veias do tempo, agora e sempre, em busca de um olhar onde finalmente possa repousar.

  

Saturday, September 15, 2012

        [ Le violoniste bleu - Marc Chagall]



Um olhar ainda puro

De sonhos quebrados e constelações que nunca nasceram
jorra a promessa de lumes brandos, sorrisos envoltos em asas
e chamas e corpos que se atraem como o céu e a terra.

Disseste-me que não acreditavas. Disseste-me que tinhas crescido
e eu não te ouvi. A surdez dos meus sonhos calou a voz da tua tristeza.
O inverno que clamas não nasceu frio, nem áspero, nem árido. É um corpo,
casca de madeira velha que se renova e rejuvenesce a cada novo olhar
que o tempo lhe dedica: pétalas em brasa a comover estrelas apáticas.

Sim, basta levantar os olhos, não para cima, nem para baixo
Algures, numa constelação só tua, onde eu sei que o olhar ainda é puro 


Linhas curvas

Despi a minha mão de todas as suas linhas
revesti cada poro de azul e topázio e ametista
e gritei ao vento o que só as borboletas entendem
hoje e sempre as cores se despem de lágrimas em vão



Saturday, September 08, 2012

     Tela: Au fil du temps - Catherine Millet

c’est par la main que le temps nous prend
qu’il nous porte
dans ses vas et viens
au rythme de son halène nonchalante
trainant le soupir de ceux qui y croit

mais c’est à l’oublie que le temps se courbe
espace infime d’un mécanisme supérieur 
qui compresse tout rythme universel
tout âme vouée à l’errance, au cycle des répétitions 

quelque part, nulle part, où les dimensions s’effeuilles de l’obscurité
des écumes lumineuses bercées par la mémoire infinie
se vident de leur souffle et se vêtissent de l’étincelle rayonnante

quelque part, où toute notion d’espace et de temps nous échappe
une cithare lointaine murmure son chant créateur
et la vie se fige et s’étend sur le dos d’une baleine qui exhale l’enchantement 




Friday, May 25, 2012




















Se ao menos uma vez

Se ao menos uma vez o vento beijasse a lua, talvez o mar e as estrelas se quedariam no esplendor de um sonho. E um sonho é sempre uma mão estendida ao infinito. E o infinito não tem mais do que a dimensão de um grão de areia, talvez menos, uma centelha, mas uma centelha tão poderosa que ao mesmo tempo também é um abraço. E à minha volta, o que perdura depois da carne e do pó, está ligado por esse abraço, indizível e invisível ao olhar.
Lá, onde o tempo não pertence às medidas, nem as medidas são feitas para revelar dimensões, uma outra lua e um outro vento caminham rumo a um outro mar sob outras estrelas. E o sonho é um sussurro que ecoa por portas encobertas, deslizando de fresta em fresta, sobrevoando nuvens em formação, estares por esculpir. E é de lá que vem o mais profundo dos cânticos, a ária da baleia primordial. Mais do que uma melodia, mais do que o propagar da própria criação, é um convite, um anel, que se entranham na matriz de todos os seres. E é da alma, e só dela, que se espelha e se vislumbra a natureza do que está acima e abaixo, à direita e à esquerda, e onde as palavras não cabem e não sabem. É de lá que o silêncio se torna voz e se expressa, ainda que de forma misteriosa. E é também de lá que tudo flui e para lá que tudo regressa.
Se ao menos uma vez os sentidos se calassem. Talvez então a minha voz não estranhasse esta ausência de ressonâncias…  



Thursday, May 10, 2012




A vida é um sopro 

Do meu mundo eu consigo ver as estrelas. E elas brilham. E elas cantam. E elas existem mesmo que o seu tempo já se tenha finado. A vida é assim, um sopro, sem escafandro ou armadura capaz de o deter. 
Do meu mundo eu consigo esculpir estrelas e casas, muitas casas, pois até as estrelas precisam de um lar. E os teus olhos são os meus olhos a erguer a imanência dos dias. O amanhecer das promessas é um berço para aqueles que consentem o verdadeiro olhar. E há tanta verdade por desvendar, tanto mistério nas coisas pequenas que as grandes se tornam grandes na sua incerteza. 
Do meu mundo eu consigo avistar o teu mundo, que é o mesmo mundo a acalentar o mesmo lume, o de uma criança que descobre e explora e expande e ri e chora e se comove com a essência que a envolve. 
Do meu mundo que agora também é o teu mundo eu consigo encurtar as distâncias que nos separam e ver os ramos de luz que nos ligam, os ramos de alba que tudo ligam. O visível e o invisível tornam-se unos, a noite e o dia já não se estranham, o espírito e a alma confortam-se na serenidade de um sopro, solto e frágil na sua existência, perene e firme na sua substância. 
Do meu mundo, agora e sempre, eu posso estender a minha mão e acolher a tua mão e ir ao encontro da luz curva do mundo, sem temor, sem receio de me perder no meio de tanta escuridão.




Saturday, December 31, 2011




[Ludwig Meidner - Eu e a cidade]



Cidade em chamas

Há um desassossego, inquietante, a reinar sobre o silêncio estridente dos corpos em chamas. São edifícios de carne, são edifícios de sangue que vagueiam sem rumo aparente. É um olhar em riste, uma palavra apedrejada, um coração desprovido do seu calor. Tudo, a soma de assomos de sonhos destituídos de azul. Será do chão?, gasto pelas pegadas de barro que os viandantes teimam em deixar, qual lastro que os impede de levantar voo. Ou será da visão?, demasiado distante do imo que nos liga.
Inquieta-me esse desassossego tingido de acalmia ilusória. Os corpos mexem-se, mas não se movem; a boca fala mas nada diz. É a cidade das aparências a produzir ilusões. À minha volta corações exangues desagregam o sal das suas lágrimas. E o que é uma lágrima sem sal?! O que é uma boca sem sorriso? A candura dos dias sem negrume ausentou-se. A luz, agora opaca, deixou de atravessar a íris como então. Os dias pesam, mas esses dias são os mesmos para as formigas e os pássaros e as plantas. E deles tenho tudo a aprender. É um fluir constante, desprovido de lassidões humanas. Só eles são dúcteis como o ramo e leves como o vento, a ombrear a voz do rio que galga as mais diáfanas realidades.
Da cidade em chamas ao amanhecer da natureza, basta um crer. O verdadeiro tálamo está na essência e voltar ao Ser é voltar a ser, sem falsas aparências ou ilusões acerbadas, apenas a humildade de querer ir mais além, onde a esperança continua a irrigar a terra de promessas. 

Tuesday, October 18, 2011


  [tela de Didier Watrin]
                                                            
Sopra uma aragem quente. É um sopro que vem do vento da fronteira. É um restolhar esquecido. Esquecido dos esquecem para não saber. Esquecido dos que choram para não recordar. O sibilo é imperceptível ou quase, não fosse aquele tordo que espreita, do limiar da percepção. Há sempre um tordo a espreitar. Há sempre um anjo a recordar. Os eflúvios do âmago deslizam suavemente pelas brumas do entorpecimento. Está escuro. A luz parece ter-se ausentado. É o espírito de Sísifo que nos impregna da sua incapacidade de quebrar o inadiável. Está agrilhoado, como nós, seus descendentes. Mas continua, de olhar em riste, preso a uma ideia, uma chama que não definha ainda que a mente a ignore. Não podemos mais adiar o amanhecer. O tordo aguarda. Não podemos mais negar-lhe as suas asas pois são elas que nos guiam. Alhures, onde a promessa é sagrada um vento sopra, suavemente, na nossa direcção. Resta senti-lo. Resta abraça-lo.   

Friday, September 30, 2011

[nascimento de uma estrela]

Lânguido é o desejo de caminhar. É um cansaço que vem do tempo antes do tempo, dos domínios onde a chuva verdejava e o sol irrompia da tristeza mais profunda. É uma prece sem dono ou colo sem calor para acalentar. Vem de lá, do orbe mais distante, onde a luz se extingue e a vontade se queda. É tão distante mas tão perto que a mão que nos agarra também é aquela que nos afasta. O rebrilhar da vontade é opaco e denso, tão denso que as estrelas se afastam da noite. A voz, que comanda o sentimento, definha na sua própria melodia, mas bate, débil, como o pulsar de um sol em agonia. Há luz, sim. Haverá sempre luz nas noites sem estrelas e haverá sempre esperança na lassidão mais vasta. O desejo permanece lânguido, mas permanece. Assim é a grande revolução da alma, uma escuridão suprema rumo ao desabrochar de uma nova era. Assim seja! Faça-se Luz! 

Wednesday, July 27, 2011

                         
                                                                     [Imagem de Olivier Boeykens]


Foi o restolhar dos primeiros raios que se esbateu sobra a vontade de acordar. Foi o bulício da sede a chamar por uma boca. Foi o desejo da boca a clamar por um corpo. A luz irrompeu. As trevas dissiparam-se, lentamente, como o primeiro fio de água a cair das mãos de Anafaya, eterna e misteriosa. A pedra ergueu-se do silêncio. O canto moveu-se pelas cores do arco-íris. Tudo se compôs. Insonte e singular a voz da manhã inundou o parto do porvir. O gato absorveu a iridiscência do saber e engoliu no seu âmago a impressão primordial. No seu olhar, ainda hoje, albergam-se estrelas e constelações e sonhos de um tempo circular. Atento, tornou-se vigia, vigilante de segredos que só ele compreende. E Anafaya, confia. Fia-lhe o ínfimo do seu domínio que é água, fogo, ar e terra. E éter e seda translúcida, muita seda estrelar.       

Sunday, July 17, 2011

          
       
[Ljuba: As tentações, Depois 1988-1989]      
                                    


Indelével é o toque da espera. Sempre à espera de uma mão. Sempre à espera de uma candeia capaz de regressar das brumas do antigamente. É um rosto. É um sorriso. Talvez uma promessa, o cumprir de uma caminhada eternamente por terminar. Um pé, descalço, exangue, a pisar sonhos embuçados de lágrimas e suor e tristeza, muita tristeza… É assim o roçagar dos eflúvios da madrugada. É assim esta chama que arde todos os dias e todas as noites e que passa e repassa e perpassa os vidros escurecidos de uma alma em apuros. É um peso. É uma mágoa. É um constrangimento! É uma confluência de línguas estranhas que se atropelam no horizonte do interior, muito interior. Será daquela melodia, monocórdica, rasgada, pespontada de feridas que nunca saram? Eu não sei o que é. Mas é indelével e espaçoso. Ocupa todo o olhar. E o que está para além fica preso a uma parede de rocha que não conhece a voz do inefável. Não. Minto! Conhece, mas já não se recorda…     

Monday, January 14, 2008


[Passage to Wonder: Gilbert Williams]
Persegue-me este peso, esta luz mortiça, como uma sombra encostada à minha vontade, que se dilui no meu ser, cativo de um lastro que não pretende. É um sufoco que se alastra como um incêndio e que avança a cada novo fôlego.
Quem me dera a leveza do pássaro, a inocência do seu canto que alisa as deformidades da alma. Nasci sem asas, com um manto de cores soturnas a ornamentar o vazio do meu sentir. Falta-me a visão dos bravos. Falta-me aquele olhar que se ergue para o infinito e se perde na vastidão do absoluto, com a absoluta certeza de se perder na leveza.
Há dias em que me resigno por pertencer a uma espécie sem rumo, onde cada um sufoca com a sua própria leveza. Mas não deveria ser assim. Não! Resignar-se à linearidade da paralisia espiritual nada tem de belo ou de leve. Fere-me um sentimento de impotência por contentar-me com a imitação colectiva de uma felicidade cada vez mais virtual. Fere-me ser um espectador atento, incapaz de se soltar dos seus grilhões. A meu lado, cabisbaixo, outros seres deixaram de se lamentar e aceitaram existir fora do Tempo. Fora da terra prometida, que continua a aguardar pelas asas da leveza.
Persegue-me um sonho, uma fragrância de Primavera, e minhas lágrimas são a esperança de que pouco a pouco o rio irá correr a jusante, rumo à promessa do alvor sempiterno.

Sunday, December 23, 2007




Folhas caídas


Um punhado de folhas caídas do tecto da noite revoluteia no ar da incerteza. Serão folhas ou serão lágrimas? Aquele rosto, e aquele outro, e ainda aquele outro a mirrarem à superfície do negrume. Serão rostos ou serão lágrimas? Negro é o tecto que sustem a luz impalpável, uma concha fechada sobre si própria, alojando o segredo que a anima. Mas qual será? E porquê guardar o mistério de dois mundos que nunca passaram de um só? Eu sei… É o medo disfarçado de força, sem fôlego para puxar o arado da alegria. São folhas, caídas, a juncar o futuro, inseguro, mas com alma de quem conhece o caminho daquele sempiterno rio que fluí para o mar.
Da minha janela vejo o mar e, oh, que mar!, todo ele uniforme, esbelto e cheio de nuvens, sim, nuvens. E as folhas? Quando olho para o mar já não vejo as folhas porque são elas que se transformaram em mar.

Wednesday, November 28, 2007


[El Minotauro (1877-86) de George Frederick Watts]

O labirinto da felicidade

Circular é a felicidade que entra pelo labirinto das nuvens e se perde. A felicidade perde-se sempre entre muros demasiado diáfanos, demasiado frágeis para aguentar o peso da leveza. Um dia, também tu entrarás por este labirinto que a ninguém pertence mas que todos enveredam. Um dia, sem fio de Ariana, ou Minotauro por defrontar, deixarás o coração no templo das promessas e, cego de cegueiras brancas, curvar-te-ás perante o rosto da Aurora sem saber como fitar a beleza que contém o tempo do momento, momento de eternidade. Mas, recorda-te, do labirinto em chamas ao mundo sem esteios, a visão do porvir não passará de um devaneio, ainda que o teu corpo se abra à revelação. Do Minotauro todos nós somos filhos. Todos nós somos partículas integrantes desse todo que nos atrai e que ao mesmo tempo nos afasta. Sai do teu labirinto. Sai da tua felicidade encastelada e olha para ti. Olha para onde a visão deixa de focar a miragem e deixa-te guiar pela melopeia das estrelas, que só te levará onde realmente estavas destinado a chegar.

...para a Inês....

Monday, November 05, 2007


[tela de Van Gogh: noite estrelada]

Também eu quero
Também eu quero deitar-me na relva húmida e contemplar a música das estrelas. Também eu quero ser estrela e sonhar com o parto de outras estrelas e ver nascer mais e mais estrelas. O céu é um mar estrelado que não posso perder. Soçobrar na sua liquescência é a maravilha a que eu aspiro. Tornar-me meteoro e singrar pelo vastíssimo mundo da poeira estrelada eis o sonho de menino que hoje se tornou homem. Também eu quero transformar a matéria em massa onírica e insuflar-lhe a vida como só os deuses o sabem fazer.

Estou deitado. Ouço o riso das estrelas e sorrio. Também eu sou poeira a vaguear pelo vazio preenchendo o espaço com as minhas minúsculas vibrações, minúsculos enamoramentos a criar energia.

Friday, November 02, 2007

Tuesday, October 30, 2007


[tela de Van Gogh: Campo de Trigo com Corvos]

Luz quebrada

Leve impressão essa que a fímbria da penumbra deixa no rosto do viandante. É sempre uma película fina, uma superfície etérea, a luz quebrada pelo momento dissidente. Mantém-se fiel o par de mãos que levemente as vestes da luminosidade afaga. Dêem-lhe a sumptuosidade da promessa. A tarde teima sempre em deslizar pela cavidade do sorriso. Permanece nele uma fonte sadia que o sustém à leveza. A leveza faz falta. A leveza não conhece a ingratidão dos dias e não teme noites desconhecidas, ainda que recubram toda a vastidão do ser. Não sei como olhar para a penumbra. Sou um viandante, um simples viandante que alberga um sonho eremita, o de passar pelo tempo sem lhe virar costas. Nasci cego à imposição das trevas. Só o regozijo da claridade me apazigua das maleitas da alma. Só o sonho de alcançar o inalcançável me engrandece quando tudo à minha volta se estiola: o homem, o sonho, a fraternidade.

Thursday, October 25, 2007


[tela sem título: Ruth Batke-Heeg]

O parto das nostalgias

Escorre lentamente pelos poros do âmago a nostalgia dos dias de então. É um suco prateado que se evola ao sabor dos sonhos que um coração terno desfolha. A nostalgia cresce como uma criança cujo cordão umbilical se manteve firme às mãos do destino. Um passado estranho e difuso emerge de uma memória que se distende de geração em geração, de vacuidade em vacuidade.
O passado contém presente e futuro na sua concha de prata, frágil e resistente ao mesmo tempo. É um sibilar estranho que ouço em imaginação. São as estrelas a verterem lágrimas cálidas, do tempo antes do tempo. Todas as criaturas à minha volta falam e cantam e choram o peso da nostalgia. Algo ficou para trás: um lastro, uma ligação ignota, um mundo por desabrochar, a inocência olvidada.

Eu sou daqueles que vêem as nostalgias erguer velas enfunadas e partir sem rumo para terras distantes, demasiado distantes da razão ou compreensão humanas. Mudar o meu olhar seria mudar o meu sentir, essa bússola norteada para oriente, em permanente digressão pelos recessos do ser. Hoje sinto-me parir a languidez dos dias e ansiar por um círio que já nem à nostalgia pertence, algo para além do lume da própria criação.