©Susana Macieira
Escuta os
silêncios, escuta a voz do indizível
e lembra-te
da ária entoada pelos pássaros de vidro
lembra-te
dos choupos que se erguem para dentro
e das
palavras embuçadas pelo sentido errante.
Diz-me,
haverá alguém que se recorde do espelho de ametista
e das horas
clandestinas?, momentos felinos a singrar
nas mãos dos
anjos, argila sagrada a desenhar seres e estares.
É um
turbilhão de luzes e de sombras. São medos e esperanças,
vontades de
erguer algo mais do que a soma do olhar.
Diz-me,
ainda que não te recordes, diz-me que também tu
ouves a
linguagem das pedras e da água, murmúrios
da memória
enredada na matriz da folha, matriz solar
onde as
margens encurtam a distância do alto e do baixo
e onde, em
uníssono, as vozes do silêncio estendem os seus ramos
tão
profundamente, tão completamente enleados
que só a
alma consegue reproduzir as incandescências do inefável.