
[Goldau - William Turner]
A infância do sorriso
É no teu olhar que nasce a
infância do sorriso. É nele que a chuva queima a sua vontade de se despedir das
mãos do tempo e onde o tempo se despe de si mesmo. Cai, suavemente, como uma
gota de orvalho, um lume branco a deslizar pelas frestas da memória, sem pressa
de se desvanecer e de nunca mais acordar. Não demora mais do que um instante,
uma brisa, um sopro, um momento puro de transparência, mas persiste, alonga-se,
distende-se até onde os olhos deixam de almejar.
E é no coração que floresce. É no
átrio das promessas que verdeja e que galga as terras onde a ausência de luz impera.
Só um sorriso genuíno, vindo do mais profundo do ser é capaz de resgatar a
infância do lume e de devolver à claridade o seu brilho redentor. Só um sorriso
desprendido é capaz de tragar a amargura da alma e de a transformar numa seiva doce
e reveladora.
Onde o verdadeiro sorriso nasce, a
luz irrompe. E onde a luz irrompe, a alegria emerge.
São sementes luminosas a povoar a
terra fértil da candura da alma. E a alma apazigua. E a alma levanta voo, um
voo leve e sereno, um voo sem asas, mas rumo à profundidade, rumo a uma
liberdade que a todos pertence. E é no teu olhar que o mar ganha vida e que o
rio da esperança desagua. É no teu olhar que o sorriso se torna menino e é com
ele que me deleito e que penso: afinal o sol existe mesmo e só basta um
momento, um simples momento para também eu aprender a brilhar.

















