Já não me ouves como me ouvias. O
meu canto definhou nos teus olhos e a tarde desmaiou as suas cores de primavera
e fez erguer esta pedra, este bloco de mármore que ocupa o meu interior. A
pedra é fria como a tua luz, que vem de demasiado longe para manter o seu
calor.
Olho para este bloco e penso: o
que fazer com tanta dor? Olho novamente para ele e vejo o que os olhos não
conseguem ver. É uma massa, uma forma, um ser com vontade de nascer. E olho de
pálpebras fechadas. Olho como nunca antes tinha ousado olhar e vejo a curva do
tempo inclinar-se como uma flor, beijando de soslaio as lembranças que são do
tempo antes do tempo. A pedra de mármore começa a despir-se do seu fato
demasiado pesado, da sua forma demasiado opaca e irrompe como uma labareda, do
nada, da ausência total de sonhos ou cores por parir. O frio converte-se. O
frio transmuta-se numa raiz em chama e o fogo começa a moldar uma árvore com
ramos e folhas e cheiros e pássaros a adejar uma estrutura com linhas de
esperança.
Alegre, a chuva vem beijar este
acontecimento e promete uma criança nascida da terra, nascida das brasas que
ainda aquecem a nova paisagem. E é do fogo que ela se ergue e com o fogo que
ela segue o horizonte. Aquele que só ela consegue avistar e que lhe diz:
Alhures, onde as asas te levam, uma lua e um sol te acompanham para que nunca
te percas, mesmo na noite mais escura da solidão.

















